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A música de Paul Klee

por Alexandre Freitas — publicado 15/01/2010 15h48, última modificação 20/09/2010 15h49
Em meu penúltimo texto neste site, Quadros Sonoros, falei da tendência da aproximação entre música e artes visuais, da vontade do artista em ir além de sua esfera. Desta vez, meu ponto de partida não é mais uma obra musical, nem um concerto ou ópera, e sim uma visita ao Zentrum Paul Klee, em Berna, na Suíça.

, falei da tendência da aproximação entre música e artes visuais, da vontade do artista em ir além de sua esfera. Desta vez, meu ponto de partida não é mais uma obra musical, nem um concerto ou ópera, e sim uma visita ao Zentrum Paul Klee, em Berna, na Suíça.

A primeira coisa que pode nos vir à mente, se tratando de Klee e música, é o fato de o pintor ter sido ele mesmo músico. Filho de pais músicos e casado com uma pianista, Klee não parou de praticar violino durante toda sua vida, tendo mesmo hesitado, lá pelos seus vinte anos, entre a arte musical e a visual. Retratou alguns instrumentistas e cantores e se utilizou do grafismo musical em várias obras. Os títulos de muitas delas são reveladores: No Estilo de Bach, Polifonia Medieval, No Ritmo, Fuga em Vermelho, etc..

Mas eu não podia conceber que muitos compositores modernos e contemporâneos escrevessem obras baseadas em quadros de Klee, simplesmente como homenagem a um artista que se interessava por música, ou porque essas obras os inspiram. E, se for o caso, por que justamente tais obras de tal artista? Pierre Boulez, Penderecki, John Adams, Gyorgy Ligeti, Francis Poulenc estão entre esses compositores.

“Meu maior professor de composição musical foi Paul Klee”, disse um dia Stockhausen para seu amigo Boulez. Existia sim, um algo mais musical na obra de Klee. Mas o que poderia estreitar as ligações entre as obras silenciosas de um pintor e um quarteto de cordas ou uma obra sinfônica? Qual seria a música de Klee?

Examinando mais de perto algumas obras e escritos me veio a possível resposta. A convergência está nas questões poéticas, na analogia das estruturas que sustentam suas obras. A polifonia, por exemplo, mais que a sobreposição de cores e formas, é transposição de processos temáticos, variação de formas, repetição e contrastes, à semelhança da escrita musical. Em algumas obras, Klee vai ainda mais longe, se baseia em estudos de intervalos musicais e durações de uma peça musical e projeta uma espécie de tradução visual daqueles parâmetros sonoros. Quase uma nova escrita musical. Esses paralelos vão além da metáfora ou de certa leitura: são as bases para construção de obras visuais. São correspondências poéticas, interseções na instauração do objeto como arte.

Essa aproximação tão forte do artista com a música só ficou clara para mim quando vivi suas obras, semana passada, no Zentrum Paul Klee e a exposição “Paul Klee: Vida, Obra e Posteridade”. O grafismo musical estava lá. Seu símbolo musical preferido, me pareceu, era a fermata - . A fermata é colocada sobre uma nota para significar que podemos mantê-la pelo tempo que desejarmos. É o símbolo de uma liberdade do som que se converte em liberdade no olhar. Em um segundo momento, foram o ritmo e a polifonia que as telas pareceram emanar. De algumas salas vieram um estrondo, de outras uma melodia mais sutil emanou. Poucos silêncios. Somente pausas solenes, suspiros e respirações.

Registro ainda, nessas Visões Musicais, que a sensação ao me aproximar de tantas e tantas obras de Klee não foi muito distinta daquela que tive ao visitar a exposição “Volpi: Dimensões da Cor”, no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro ano passado. Minha condição de músico apreciador de arte visual não me permite discorrer sobre essa relação entre os dois pintores. Só sei que a senti. Terminei de percorrer a exposição de Klee e, na caminhada para a parada do bonde, me veio uma nova pergunta: qual seria a música de Volpi?