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A música de Lia Rodrigues

por Alexandre Freitas — publicado 18/02/2011 08h59, última modificação 18/02/2011 08h59
A companhia de dança carioca atingia a composição simultânea entre dança e música

Estava prevendo. Já intuía algo assim. O espetáculo de Yvone Rainer, uma celebrada coreógrafa norte-americana, me entediou profundamente. Mesmo os aplausos, mornos, me cansaram. Aquela não-dança pós-contemporânea foi-me inacessível e não me deu vontade alguma de acedê-la.
Mas não foi vã minha ida ao Centro Georges Pompidou, em Paris, na noite de sábado passado. Na fila para entrar no teatro distingui uma bela brasileira na multidão francesa. Coincidentemente, Lídia Laranjeira, seu nome, me foi apresentada por uma amiga, também bela, Carol Natal, bailarina e pesquisadora. Lídia fazia parte da Companhia de Danças Lia Rodrigues, no Rio de Janeiro. Estava em Paris para apresentar, no Théâtre de Vanves, o espetáculo “Pororoca”, na programação do festival Artdanthe. Carol, que já tinha visto o espetáculo, me preveniu: “Olha... A apresentação dura mais de uma hora e não tem música”. Fui conferir.
Li em algum lugar que, em certas culturas tradicionais, uma só palavra designa música e dança. O gesto para emitir um som já deve ser, por si só, uma dança. Dança que produz música. Deve ter sido por isso que a ausência de instrumentos musicais ou de sons gravados não fizeram a menor falta no interior da coreografia de Lia Rodrigues.
O compositor italiano Luciano Berio dizia que música é o que você escuta pensando que é música. Pois então. Decidi que iria procurar música naquilo que ouvisse e – por que não? – naquilo que visse. De um lado, havia todos os sons emitidos pelos bailarinos, como os produzidos pelos objetos arremessados, os do atrito no chão, as respirações, etc. Mas a música viria também, por outro lado, daquele que é o elemento comum das duas artes: o ritmo.  O que poderia faltar nos sons reais produzidos pelos artistas, seria compensado pelas vias do ritmo das cores e das formas, como metáforas musicais.
Poderíamos, em um primeiro momento, pensar se tratar de uma música estranha, essa que brota dos gestos de dança, e não de um instrumentista ou cantor. Mas, com um pouco mais reflexão, entenderíamos que não há nada de bizarro em apreciar os sons que nascem do movimento daquelas pessoas. Ainda mais que, em sua maioria, eles eram intencionais e muito bem ensaiados. Era uma música entendida na sua acepção fundamental de arte dos sons. A companhia de Lia Rodrigues atingia aquilo que John Cage esperava da verdadeira dança moderna: a composição simultânea de dança e música. Uma dança que não se repousa sobre as respirações da música, mas sobre as duas pernas do bailarino, e sobre uma só, ocasionalmente. A música entra como sua parte integrante, e não como complemento.
Os caminhos da metáfora, esses já são mais abstratos, mas não menos interessantes. A música nasceria da apreciação visual dos gestos e das cores. Viria também dos fluxos rítmicos, das tensões e dos repousos e de tudo aquilo que toca, por analogia, algum elemento da arte dos sons. Concordaríamos assim com Kandinsky quando ele diz, no seu Do Espiritual na Arte (Martins Fontes), que os sons e as imagens se respondem, proveem de uma mesma raiz e se dirigem aos cinco sentidos.
O espetáculo Pororoca, como seu próprio título já insinua, não tem nada de silencioso. É arte total, onde a plasticidade das formas, das cores e dos sons se encontram como águas. Doces ou salgadas. Mas que não deixam, por isso, de serem água.