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A musa possível

por Orlando Margarido — publicado 25/01/2013 08h39, última modificação 25/01/2013 08h39
Simone Spoladore é rara filha do cinema autoral

De Tiradentes

Há cinco anos, Simone Spoladore viveu a crise de quem começou precoce uma carreira e fez muito em pouco tempo. “Fiquei fragilizada e não sabia mais se era aquele o caminho. Mas consegui trabalhar e isso contribuiu para me reestruturar”, diz a atriz paranaense a CartaCapital. O caminho a que se refere é o cinema, arte com a qual mais se envolveu desde a arrebatadora estreia em Lavoura Arcaica (2001). Em uma década, fez 20 filmes. Aos 34 anos, filha do cinema autoral, associa-se a novos realizadores.

Esse perfil foi reconhecido pela 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes, encerrada sábado 27, que a homenageou e exibiu três dos seus filmes, dois inéditos. Nove Crônicas para um Coração aos Berros, de Gustavo Galvão, traz Simone como uma prostituta fragilizada, diferente de sua atuação em A Memória Que me Contam, de Lúcia Murat. A diretora a chamou para uma espécie de não personagem, a idealização de uma militante política na lembrança dos demais intérpretes. Esse caráter evanescente está, por exemplo, em Natimorto (2008). “Há modos de interpretação aos quais recorro de acordo com a necessidade do personagem.”

Simone descobriu essas possibilidades sem estudo formal. Primeiro pela dança clássica e aos 13 anos no teatro amador em Curitiba. Ali também conheceu Felipe Hirsch, com quem fez peças e filmou em 2008 Insolação. “Vim de uma família aberta. Meu pai, bancário, sempre nos entusiasmou pelo cinema e minha mãe dava força.”

O balé ajudou, mas precisou ser renovado para o filme de Luiz Fernando Carvalho baseado em Raduan Nassar, no qual protagoniza uma dança do ventre estonteante. “Lavoura foi um presente. Convivi com Raul Cortez e Juliana Carneiro da Cunha. Foi fundamental, pois aprendo por observação. Além disso, tínhamos um diretor de atores, que aceita contribuições.” Essa possibilidade de opinar ela diz ser crucial e em parte responde pela preferência por novos diretores. A exemplo de Eduardo Nunes, de Sudoeste, com quem voltará a trabalhar em Morte Feliz, adaptação de Albert Camus. “Me interessa firmar parcerias, como farei com Helena Ignez”, diz, referindo-se a Canção de Baal, Luz nas Trevas e em breve Ralé, baseado em Gorki. Simone é a musa possível ao que dela se requerer.