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Emília Freitas, pioneira na literatura fantástica brasileira

por Aline Valek publicado 20/07/2016 04h29
A cearense Emília Freitas imaginou novos papéis para a mulher com seu romance “A Rainha do Ignoto”, publicado em 1899
O livro Rainha do Ignoto

Publicado em 1899, o livro 'Rainha do Ignoto' conta a história de uma sociedade secreta de mulheres

Mundos que não existem. Poderes sobrenaturais. Personagens e histórias com inspiração mitológica. A fantasia na literatura ganhou força nos últimos anos e certamente vai muito além de livros como as séries Harry Potter e As Crônicas de Gelo e Fogo, só para citar as mais hypes, especialmente entre o público jovem.

Mas não é como se ela tivesse chegado apenas recentemente e por meio de trilogias estrangeiras: a literatura fantástica tem sido feita em terrinhas brasileiras há tempos.

É certo que grandes nomes como Álvares de Azevedo e Machado de Assis deram os primeiros passos dentro do gênero, escrevendo contos que extrapolavam o real e exploravam o fantástico. Mas o primeiro romance de literatura fantástica a ser publicado no Brasil foi escrito por uma mulher.

“A Rainha do Ignoto”, escrito por Emília Freitas, foi publicado em 1899, finalzinho do século XIX. A obra só ganhou uma segunda edição em 1980, quando foi resgatada pelo professor Otacílio Colares, que chamou a atenção para o pioneirismo da autora.

O livro conta a história de uma sociedade secreta de mulheres liderada por uma misteriosa rainha, e como um rapaz chamado Edmundo, encantado por ela, se infiltra em meio a essa seita feminina para descobrir quem são e o que fazem.

(E é emblemático que ele faça isso se disfarçando de freira muda, tendo que ficar caladinho na presença das mulheres para não ser descoberto.)

Dona de um coração bondoso e um espírito justiceiro, a chamada Rainha do Ignoto saía pelo Brasil a resgatar mulheres que sofriam de violência, solidão ou depressão, recrutando-as como suas paladinas.

Essa ordem de mulheres passava a viver na Ilha do Nevoeiro, um lugar fictício que Emília Freitas posicionou em algum lugar no litoral nordestino, e que era mantido invisível dos navegantes por meio de hipnose.

O hipnotismo, aliás, era o principal poder da Rainha do Ignoto, também conhecida por outros nomes: Funesta, Moça Encantada, Diana, Zuleica Neves, Zélia, a depender do disfarce e da aparência com a qual se apresentava.

Era uma rainha sem rosto e sem nome; usando o poder da hipnose, ela conseguia sugestionar sua aparência na cabeça das pessoas, protegendo sua real identidade, que não era conhecida sequer por suas seguidoras.

O fantástico também está no papel que Emília conseguiu enxergar para as Paladinas do Nevoeiro: em sua história, as mulheres exerciam o papel de engenheiras, médicas, marinheiras, generais, cientistas.

Olhando daqui pode não parecer grande coisa, mas considerando a época em que Emília viveu, que destinava às mulheres o papel de mãe e esposa, imaginar personagens com essas ocupações e que desenvolveram uma sociedade independente dos homens chegou a ser visionário.

Em paralelo, o livro narra as histórias dos personagens que vivem em Passagem das Pedras, antigo nome da cidade de Itaiçaba, no Ceará, e onde Edmundo vai morar depois de vislumbrar nas proximidades a intrigante figura da Funesta.

Apesar de ser um núcleo que parece atrapalhar o desenvolvimento da história que realmente interessa, soando como uma novelinha de época, esse outro lado da história carrega a influência de literatura ultra-romântica da autora e acaba servindo para nos puxar de volta para a realidade, ao servir de parâmetro para destacar, por contraste, o que há de fantástico na história da Rainha do Ignoto e de suas Paladinas do Nevoeiro.

É nesse “núcleo” romântico que a autora apresenta personagens que tentam seguir os padrões determinados pela sociedade patriarcal, como Henriqueta, que despreza as outras mulheres, segue os padrões de beleza e etiqueta da época, e que ambiciona tão somente arrumar um bom partido para casar; e Carlotinha, moça ingênua e típica heroína romântica que apenas espera por seu príncipe no final.

Seja nas festas e conversas na monótona Passagem das Pedras ou nas aventuras da Rainha do Ignoto por várias cidades brasileiras, Emília usa a ficção como ferramenta para questionar os costumes patriarcais, a limitação imposta às mulheres, a violência doméstica e a escravidão.

Na introdução, Emília escreveu: “meu livro não tem padrinho, assim como não teve molde”. Fica claro que a autora estava se lançando ao desconhecido, motivada não pelo desejo de pertencer a uma escola literária, mas movida pela incapacidade de se conformar com a realidade de sua época.

A fantasia foi a sua forma de dizer que outro mundo era possível, e que era preciso resgatar o poder historicamente negado à mulher.

Emília Freitas, que nasceu em 1855 no Ceará, foi uma intelectual engajada, inclusive na causa abolicionista. Sua obra foi permeada pelas suas visões políticas e questionamentos à sociedade, assim como a cultura que recebeu em seus estudos (Emília também falava inglês e francês) e sua visão de Brasil (a autora também morou em Fortaleza e em Manaus, cidades que ela usa com muita intimidade como cenários em A Rainha do Ignoto).

Claro que Emília teve o privilégio de estudar e se dedicar à escrita, como muitas de sua época (e mesmo hoje) não puderam. Mas ler sua obra é também entender um bocado do contexto em que ela viveu. Como escreveu Virginia Woolf em seu ensaio Granite and Rainbow:

“Mesmo no século dezenove, uma mulher vivia quase exclusivamente dentro de sua casa e de suas emoções. E estes romances do século XIX, por mais notáveis que fossem, foram profundamente influenciados pelo fato de que as mulheres que os escreveram foram excluídas de certos tipos de experiência por conta de seu sexo. Que experiência tem uma grande influência sobre a ficção, isso é indisputável”.

Apesar das limitações, Emília escreveu. Conhecer e resgatar o seu trabalho, que revela tanto sobre a história da nossa literatura e do nosso imaginário, é ajudar a romper com as barreiras que até hoje se colocam no caminho de sua escrita.

Desmotivar mulheres a escrever e, se escrevem, empurrá-las para o esquecimento, é trabalho de uma cultura machista que não acabou lá atrás, no século XIX.

Indo além, conhecer o trabalho de mais escritoras, no gênero de fantasia ou em qualquer outro, é importante para diversificar nossa visão de mundo – e também para que a literatura produzida por mulheres não acabe como a Ilha do Nevoeiro em A Rainha do Ignoto: invisível e inalcançável.

Aline Valek
www.alinevalek.com.br