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A mulher-boca e os spaghetti da América

por Rosane Pavam publicado 13/02/2009 15h13, última modificação 16/09/2010 15h14
A Troca é o nome do mais recente filme de Clint Eastwood, e não faz barulho algum, exceto por sua protagonista, Angelina Jolie, de quem os resenhistas ressaltam os lábios avermelhados de batom.

A Troca é o nome do mais recente filme de Clint Eastwood, e não faz barulho algum, exceto por sua protagonista, Angelina Jolie, de quem os resenhistas ressaltam os lábios avermelhados de batom. Estes, salvo engano, surgirão apagados na noite do Oscar, para onde a mulher se mandará, candidata a melhor atriz, em prol da elegância recente, a da palidez. Me lembro de ler algum crítico recomendar o filme por conta da pintura labial, tão distante ela se coloca do procedimento de maquiagem operacional padrão.

Detalhes como a cor dos lábios de Angelina Jolie não são desimportantes, ainda que, possa-se argumentar, mercadológicos. “Metade do mundo nos assiste agora e a outra metade espera ser adotada por Angelina”, disse o apresentador e humorista Jon Stewart em uma dessas noites de gala do Oscar. Ou a atriz é por demais inteligente e sugeriu-os vermelhos como as coisas dos comunas, dos vietnamitas, cambojanos, não sei bem, etíopes; ou a personagem os usava assim, fantasticamente contrária ao puritanismo, e ela apenas os copiou; ou Clint os teria adotado coloridos como uma provocação ao espectador mickey-mouse-da-américa. Possivelmente, motivos combinados originaram o efeito.

Este, pinte-se a mulher-boca ou não, é um grande filme de Clint Eastwood, mais um deles, e que passa despercebido das pessoas inteligentes ou não, muitas delas, apesar daquilo que há de vermelho em seu transcorrer. A Troca ironiza pesadamente a política, a tortura, os maus-tratos ao cidadão comum
sob a bandeira da igualdade e uma paisagem de faroeste que ainda faz sentido dentro do país mais estranhamente livre do mundo. Um western sobre os trilhos. Feito por um republicano, o ex-prefeito da cidade californiana Carmel.

A história do filme, a esta altura, é conhecida. Uma mulher tem o filho sequestrado na América dos anos 20, a América que, com bom orçamento, Clint pôde reconstruir em estúdio, atravessada de lentos, lânguidos, mornos bondes. A polícia corrupta de Los Angeles, por onde circulam estrelas hollywoodianas, quer se livrar da verdade acima de tudo. E inventa uma solução para o caso, entregando à mulher um outro menino como se fosse seu filho. A Angelina dos anos 20 tem de aceitar soluções prontas. Ela é americana e deve dar o lugar para os melhores. Mas não faz isso, apesar de mulher. Seu filho corre perigo. A ajudá-la, um pastor, como no tempo das diligências.

O filme é chocante. Por sua beleza, em primeiro lugar. Os bondes, como eu disse, os carros de época, roupas, patins. Os atores, especialmente os mirins. Um sutil patrão apaixonado por Angelina na empresa de telefonia, falando pelo olhar. Um policial que dá crédito a um menino. A sua boca, que está quase cerrada. O mundo dos homens, o mundo de Deus. A verdade, estabelecida devagar.

Clint é um criador. Não deixa que John Malkovich use demais seu sotaque ridículo. Faz Angelina aparecer menos frequentemente na tela do que seria o esperado, como se calculasse sua fragilidade como atriz. Ele a põe para reviver seu grande momento no cinema, como garota interrompida num hospício, e isto resume o que é espetacular em seu exercício interpretativo. Difícil extrair emoção firme dessa mulher, que anda se movimentando um pouco como metrônomo, bailarina de caixinha de música, a cabeça esvoaçando das palavras. Mas, criador, Clint a torna eficiente, porque é o dono real do filme.

E há um enforcamento, como nos western spaghetti, para ressaltar a selvageria da civilização americana que dá as costas aos seus cidadãos, idênticos perante a lei. “It’s raining democrats and dogs”, diz um personagem, como se Clint estivesse enfurecido por terem, os amigos republicanos, abusado do poder de desancar as igualdades constitucionais, cedendo assim lugar a seus opositores políticos. O recado que o filme dá é que alguém corrompeu o sistema, não que o sistema tenha problemas em sua origem. Clint não condena os anos 20, mas hoje.

O mundo comemora a chegada de Barack Obama ao poder e volta as costas para o que pensa o cineasta republicano depois da desastrosa experiência governamental de George Bush. Clint apostou tudo na vermelhidão exposta nos lábios da estrela, em tudo aquilo que risca a consciência dos americanos até
sangrar. Pelo jeito, poucos espectadores estão dispostos a ver as coisas de maneira tão drástica agora. Mas ninguém pode negar a Clint Eastwood que um grande filme, afinal de contas, ele fez.