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A morte no caminho

por Matheus Pichonelli publicado 14/12/2011 09h48, última modificação 06/06/2015 18h20
Estava estatelado no meio da calçada - e não no canto. Quem olhava não sabia se respirava ou não. Até que o sujeito começou a espetá-lo com o bico do sapato
mendigo

'Estatelado, tinha a cara castigada pelo sol. Não parecia se incomodar nem com as luzes da manhã nem com os passos ao seu redor'. Foto: Galeria de Daikrieg/Flickr

Estatelado, dormia com a cara castigada pelo sol. Não parecia se incomodar com as luzes da manhã nem com os passos ao seu redor.

Vestia uma camisa preta, calça jeans. Os braços abertos, no meio da calçada. Dormiu sem tirar os tênis.

Passei por ele a caminho do trabalho, pouco depois de jogar na lixeira os papeis de promoções que me são entregues. Num canto de olho, observava os televisores das lanchonetes, para saber se o Santos tinha marcado outro gol. A música no meu bolso falava de bons sentimentos. Combinava com a decoração natalina do centro de São Paulo, que nesta época do ano leva famílias e curiosos a contemplar a passos lentos as fachadas dos prédios com as cores de dezembro.

 

Só o mendigo, estatelado no chão, parecia destoar da decoração.

Atrasado, cheguei a lamentar não poder ficar os dez minutos que me restavam antes do atraso oficial. Foi só por isso que não conferi se o sujeito respirava ou não. Parecia não respirar. Mas o relógio parece limar qualquer sintoma de prioridades.

Em volta dele, os passos se multiplicavam. Alguns pareciam irritados, outros só tampavam o nariz. A maioria não o olhava.

O andarilho dormia, não sei se para sempre, no meio da calçada, e não no canto, onde atrapalharia menos aqueles passos. Estava entre a megaestore, também decorada pelo espírito do Natal, e o ponto de ônibus.

Entre a dúvida e a pontualidade, optei pela segunda. Imaginei que em pouco tempo a polícia, os bombeiros e os humanistas seriam acionados, se é que já não haviam sido.

Só uma pontada na consciência me fez virar o pescoço, quase no fim da esquina. De lá, vejo um sujeito alto, mais gordo que magro, de camisa branca, tirar os fones dos ouvidos e cutucar o mendigo com o bico do sapato.

 

Voltei para ver.

-Acorda.

Nada.

Uma garota se junta. Agora somos três. Ela, como todos, tira os fones dos ouvidos e só observa. Tem tatuagens no pescoço e os cabelos vermelhos.

-Ele está respirando?, pergunto, querendo me aproximar e já me afastando para não perder a hora.

-Não sei, diz ela.

O gordinho continua espetando o mendigo com os pés, sem machucá-lo.

-Ele tá vivo. Isso é cachaça.

Fala sem muita convicção. Sugiro ligar para os bombeiros.

-Não precisa. É só cachaça, insiste o grandalhão, que parece perder a paciência:

-Vai para a sombra, ô, tonto!

A moça acende um cigarro.

E o bêbado, enfim, acende os olhos.

Meio atordoado.

-Não falei, era só cachaça...

O sujeito coça os olhos e fita a menina. Estica as mãos.

-Me dá. Dá? O cigarro.

As primeiras palavras do dia.

Ela dá.

E eu sigo para o trabalho. Dez minutos atrasado.

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