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Cultura

Crônica do Villas

A matança do porco

por Alberto Villas publicado 05/03/2015 09h10
Em cada fotografia antiga, uma história

Numa tarde chuvosa de domingo, quando você resolve abrir o baú e tirar lá de dentro uma caixa de papelão transbordando de fotografias em preto e branco, herança dos pais, já sabe que vai passar ali horas e horas.

Algumas fotos passam batido. Uma paisagem de Minas Gerais, montanhas enormes, tirada de dentro do carro, por exemplo, não chega a emocionar. A foto está meio amarelada pelo tempo, quase sépia, e as montanhas sem aquele viço verde musgo, ficaram feias.

Outras, você para e fica observando os detalhes. Mesmo que tiradas há décadas, parece que foi ontem. Uma delas é essa que me faz parar todo dia de chuva quando resolvo dar uma espiadinha em uma por uma, as fotografias que herdei.

Ela foi tirada no dia 7 de julho de 1957, conforme anotação feita no verso pelo meu pai, o autor da chapa. Ele escreveu: “A matança do porco. Fazenda do Sertão. 7/7/57”.

Não somente a foto ficou na minha memória, como o título que o meu pai deu a ela. Daqui a pouquinho, vou contar o porquê.

Essa foto foi feita em frente ao paiol de milho e nela aparecem a minha mãe, todos os cinco filhos dela, Zé Barcelos, o dono da fazenda, e um de seus filhos. Eu sou esse de camisa branca, segurando umas das pernas traseiras do porco, já morto.

Todo mês de julho, passávamos as férias na Fazenda do Sertão e nesse 1957 não foi diferente. No primeiro dia que chegávamos, Zé Barcelos matava um porco, acho que pra comemorar, sei lá. E a matança do porco era uma cerimônia.

Íamos todos ao chiqueiro escolher a vítima. Eram muitos porcos e, numa eleição democrática, escolhíamos o pobre coitado. Geralmente era um menos assanhado, que ficava meio cabisbaixo no canto, sem agitar muito naquela algazarra de porcos.

Escolhido, Zé Barcelos pulava a cerca e com uma agilidade própria dos fazendeiros, segurava o bicho pelas pernas, que vinha guinchando até o lugar do abatedouro.

Era um lugar de terra batida que ele forrava com umas folhas de bananeira e ali estendia o bichinho. Zé Barcelos tinha uma faquinha bem afiada, que minha mãe costumava dizer para tomarmos cuidado porque cortava até a alma.

Zé Barcelos imobilizava o porco amarrando cordinhas nas pernas do bicho e, num golpe certeiro, enfiava a faquinha que ia direto no coração. O porco tremia o corpo e o guinchado ia diminuindo à medida que ele ia morrendo. Os olhos viraram e o sangue escorria grosso pela folha de bananeira até chegar ao chão de terra batida.

Abatido, o porco ainda mexia-se lentamente alguns segundos, assim que Zé Barcelos desamarrava as cordinhas que havia prendido em suas patas. Ai nós segurávamos o bicho pelas pernas e íamos fazer a foto.

Captura de Tela 2015-03-02 as 11.14.06.pngMuitos anos depois do meu pai ter feito essa fotografia, no auge de um longo e tenebroso inverno, chegou na minha casa em Paris, um pacotão de cor parda com um disco dentro, envolvido entre duas pranchas de isopor para não empenar durante o percurso desde Belo Horizonte.

Quando abri, vi que era um disco da banda Som Imaginário. Uma capa amarela mostrava uma mesa vista por cima, cinco copos, duas garrafas de cerveja, uma de uísque, um cinzeiro, uma caixa de fósforos e uma partitura, talvez a da música que dava nome ao disco: Matança do Porco.

Quando vi pela primeira vez a capa, veio à minha cabeça aquela nossa matança do porco, lá no interior de Minas Gerais. Não me lembrava da legenda do meu pai, mas sim, daquela cena em que segurávamos o porco morto e meu pai ficava nos focando com sua Rolleiflex.

Coloquei o disco na vitrola e ouvi a música várias vezes, uma canção instrumental, meio jazz, meio psicodélica. Tomava um chá de laranja amarga e ficava olhando pelo vidro da janela de uma Paris, embaçada de suor, um céu com pelo menos uns dez tons de cinza.

Captura de Tela 2015-03-02 as 11.15.08.pngFicava ali imaginando como o mundo era, ao mesmo tempo, grande e pequeno. Como ele podia me fazer viajar tão longe, para um mundo tão diferente? O que tinha a ver aquelas folhas de bananeira ensanguentadas no sertão mineiro, com a Paris congelada e tão cosmopolita? Nada e tudo.

Essa matança do porco parece que me persegue.

Domingo passado, lendo a página da Mônica Bergamo na Folha de S.Paulo, trombei com um longo depoimento do ator Paulo Betti que, durante muitos anos, anotou em cadernos, como eu, passagens da sua vida. Num trecho, ele conta a história da mãe Adelaide: “Era analfabeta, segurava porcos pelas pernas para que a avó, Celestina, os matasse, enfiando a faca em seus corações”.

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