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Cultura

Cariocas (Quase sempre)

A mascarada do Zé Quietinho

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 26/09/2010 10h19, última modificação 26/09/2010 12h37
A poética canção de carnaval encanta pelo traço documental

A poética canção de carnaval encanta pelo traço documental

Uma das mais belas canções da parceria Zé Kéti-Elton Medeiros é também uma bela história de amor na vida real. Mascarada foi gravada, além de outros intérpretes, pelo próprio Zé Kéti, o autor da letra, e por Jair Rodrigues. Na voz desses dois, fica perfeita. Em dúvida, procurar na internet, nos sebos ou, quem sabe, em seus próprios alfarrábios.

A letra de Mascarada é um relato poético, mas quase jornalístico graças ao seu traço documental, de um encontro em alguns carnavais de um homem e uma mulher que insistia em se esconder atrás de uma máscara.

Parece invenção de poeta, não é? Não, não é. É que se coisas geniais acontecem com poetas, viram poesia e se a poesia encontra uma bela música vira Mascarada, dos cariocas e portelesenses Zé e Elton. É um daqueles casos em que a gente se pergunta, querendo que seja verdade: será que isso tudo aconteceu mesmo?

A história da mascarada não é lá uma novidade, mas vale a pena ser recontada. Nessa história de amor, o homem e a mulher só se encontravam nos carnavais. Mas a misteriosa nunca tirava a sua máscara nem quando a coisa esquentava entre os dois. E esquentava mesmo. Até que, ao final do terceiro carnaval consecutivo, o homem finalmente conheceu o “lindo olhar” da mascarada.

A história é real. O homem era Zé Kéti e a mascarada, mesmo tendo, enfim, mostrado os olhos permaneceu uma incógnita. Mas aí, há controvérsias. Dizem que a mulher misteriosa foi quem inspirou também a marcha-rancho Máscara Negra, que fez um megassucesso no carnaval de 1967, do mesmo Zé Kéti. Dalva de Oliveira também gravou.

Consta que o compositor e a mulher tiveram um rápido affair depois, às claras, e que ele chegou a apresentá-la, uma vez, a Elton Medeiros como “a mascarada”. Mas o namoro foi tão rápido que foi impossível trocar palavra com a musa do parceiro.

Quem revelou os detalhes de como nasceram os versos da canção, classificando-a como “um samba que não é samba nem é bossa nova”, foi o próprio Elton Medeiros. Em uma bela entrevista ao jornalista Chico Pinheiro, no programa Sarau, exibido recentemente pela Globo News, Elton contou que entregou a música pronta para Zé Kéti que a devolveu letrada. Segundo Elton Medeiros, Zé Kéti garantiu que a história aconteceu e que o romance estava ali, todo contado na letra.

O compositor e cantor, que morreu em 1999, aos 78 anos, nasceu José Flores de Jesus no subúrbio de Inhaúma, no Rio. Por sua timidez, era chamado quando menino de Zé Quieto ou de Zé Quietinho. Talvez por isso, o autor de clássicos que falavam do samba, dos malandros, das favelas – como A Voz do Morro, Opinião, Acender as Velas, Diz Que Fui por Aí, Nega Dina e outros – não resistisse ao fetiche de uma máscara.

Ainda sobre essa história, consta que Zé Kéti conheceu esse amor de carnaval no famoso Bloco das Piranhas, em que homens desfilavam vestidos de mulheres. E que, apesar da timidez, Zé era um sedutor que conseguiu, sim, descolar uma das poucas mulheres de verdade que se misturavam à turba.