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A malícia contra a sede do capital

por Orlando Margarido — publicado 11/01/2011 17h01, última modificação 12/01/2011 11h24
Filmes nascidos do teatro de Bertolt Brecht ressaltam seu legado popular
A malícia contra a sede do capital

Filmes nascidos do teatro de Bertolt Brecht ressaltam seu legado popular. "É improvável separar o homem marxista do artista que foi um dos criadores do teatro épico e renovador da cena teatral europeia com influência mundial". Por Orlando Margarido

Aos que virão depois, realmente vivo em tempos sombrios. Uma linguagem sem malícia é tola, uma testa sem rugas implica indiferença. Aquele que ri apenas ainda não recebeu a terrível notícia.” Estas palavras, ditas por um já maduro Bertolt Brecht (1898-1956) diretamente à câmera, não são precisas quanto a um momento político ou histórico, embora possam se encaixar em passagens sombrias de sua vida.

Adolescente, Brecht viu a Primeira Guerra Mundial eclodir. Mais tarde, o dramaturgo e diretor alemão acompanhou o nascimento do nazismo, que o obrigou a se exilar. Adulto, enfrentou a Segunda Guerra e foi vítima do macarthismo quando vivia nos Estados Unidos. Mas as palavras contidas no documentário A Vida de Bertolt Brecht, de Joachim Lang, dizem mais claramente de uma postura diante da arte e da política, indissociáveis no caso, de seu tempo. É improvável separar o homem marxista do artista que foi um dos criadores do teatro épico e renovador da cena teatral europeia com influência mundial.

Constata-se tal premissa na aproximação de Brecht com o cinema, prática de resultados famosos, como a adaptação do musical A Ópera dos Três Vinténs pelas mãos de G.W. Pabst (A Caixa de Pandora). Dois anos depois ele assinaria a versão cinematográfica da ópera com a música de Kurt Weill. Trata-se de um dos cinco filmes que Brecht dirigiu, roteirizou e com os quais de alguma forma colaborou, presentes na caixa de DVDs que sai agora pela distribuidora Versátil.

Os três discos do pacote incluem ainda o documentário de Lang e depoimentos de especialistas brasileiros no autor alemão. O lançamento contribui para uma revisão do impacto das ideias brechtianas, de raiz popular, apesar de terem resultado em muitos estudos acadêmicos. Nos cabarés e bares de Munique, onde se consumiam cerveja e música, Brecht delineou os primeiros temas de interesse, inicialmente em Baal, peça encenada em 1923, e na estreia na direção de cinema, no mesmo ano, com Os Mistérios de uma Barbearia, média-metragem que é uma das pérolas desta caixa.

No filme, codirigido por Erich Engel, o mesmo Brecht que antes fora permeado por certo patriotismo e credo na força do povo alemão começa a ser tomado pelo marxismo e pela crítica à moral pequeno-burguesa. Para tanto, foi imprescindível o encontro com o ator comediante Karl Valentin, que fazia as vezes de um Charles Chaplin alemão e personificou os novos pensamentos do dramaturgo.

São curiosas as conotações do surrealismo, movimento de vanguarda naquele momento em Paris, na história do barbeiro ensandecido que constrange os clientes. Cabeças são cortadas a um mero golpe de navalha e então encaixadas novamente ao corpo, sugerindo o tom absurdo, no sentido da linguagem conceitual, que buscava a provocação rápida. Assim como no poeta libertário Baal, esse personagem da barbearia cedo representa o humor contestador que Brecht carregaria em seu trabalho.

Para compreender melhor como Brecht realizaria criações mais ambiciosas e políticas, como A Ópera dos Três Vinténs, é preciso voltar a seu cotidiano de estudante de medicina durante a Primeira Guerra. Horrorizado com a crueldade do conflito, ele se interessa pelos ideais da Revolução Russa de 1917. O marxismo o capta pela noção de igualdade e paz. Lida a obra de Karl Marx, ele desenvolve o conceito político que ganhará peso no musical, aliado ao encontro definidor com Kurt Weill. Juntos, os artistas consolidam aquele que é um dos primeiros projetos do teatro épico pensado por Brecht.

Como lembra a professora Iná Camargo Costa em depoimento, naquele período, na Alemanha, havia três gêneros em voga: o cabaré, dedicado ao estrato baixo da sociedade; a opereta, de gosto médio; e por fim a ópera, vinculada ao público burguês. Brecht confunde a hierarquia em A Ópera dos Três Vinténs, trazendo o submundo para o centro do espetáculo, superior por excelência.

Assim, numa Londres miserável, o protagonista Mack the Knife (versão em inglês mais popular para Macheath) surge como o golpista de casaca rodeado por asseclas que mede poder com Peachum, rico explorador de mendigos. Sem suspeitar, Mack se casa com a filha do rival e o conflito se estabelece com uma solução a contento para ambos os lados. Institucionaliza-se o roubo com a fundação de um banco.

Seria apenas o primeiro petardo do dramaturgo contra o capitalismo, mas ainda de cunho metafórico. Apenas um ano depois, Brecht seria mais claro em Kuhle Wampe, cujo roteiro ele assina em parceria com Ernst Ottwalt para o diretor Slatan Dudow. Inspirado pela situação de desemprego de 6 milhões de alemães, cenário próprio para a ascensão de uma propalada tábua de salvação como o nazismo, o dramaturgo revela em imagens as teses socialistas para discutir aquele ambiente de medo e pobreza.

A crise alemã é demonstrada tanto na vertente coletiva, quando centenas de jovens disputam uma chance de emprego rodando a cidade com suas bicicletas, quanto na visão individual, no destino de um rapaz que se suicida pressionado pela família. Embora não traduzido na versão do DVD, o subtítulo original do filme guarda um significativo questionamento dos realizadores com a pergunta A Quem Pertence o Mundo? Mas quem resume o pensamento dominante entre a população no período é um anônimo personagem, que ao ver o corpo do jovem suicida exclama: “Um desempregado a menos!” Ainda no pacote, um complemento a essa investigação de um momento delicado da Alemanha está no curta Como Vive o Trabalhador Berlinense, realizado um ano antes por Dudow.

O domínio nazista naturalmente preocupava Brecht e o obrigou a uma vida de peregrinação, primeiro em países escandinavos e depois nos Estados Unidos, onde se radicou em Los Angeles. Premido pelas mesmas contingências de exílio, o diretor austríaco Fritz Lang encontraria em Hollywood o melhor autor possível para seu roteiro de Os Carrascos Também Morrem, de 1943. Tornou-se um clássico essa reconstituição de tom noir do assassinato em Praga do oficial da SS Reinhard Heydrich. Conhecido por “carniceiro” ou “carrasco”, sua morte gerou um violento contra-ataque da Gestapo, que exterminou duas aldeias tchecas.

Ainda que a opção de Lang vá no sentido cinematográfico do gênero, no caso suspense e ação, o recado de Brecht é alcançado nas entrelinhas, com a preocupação didática de sempre. O cinema talvez perca um tanto desse aspecto em relação ao teatro, linguagem onde atualmente fica mais visível sua influência, que culmina com a fundação do grupo Berliner Ensemble em 1949.