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Cultura

Estreia no cinema

À luz, uma outra história italiana

por Orlando Margarido — publicado 19/07/2010 12h58, última modificação 19/07/2010 12h58
Com Vincere, Marco Bellocchio reitera a provocação de seu cinema

Com Vincere, Marco Bellocchio reitera a provocação de seu cinema

Antes do cineasta, houve um Marco Bellocchio pintor. Mesmo adotada por um curto período, a primeira linguagem artística do jovem nascido numa Itália por ele considerada provinciana diz muito do cinema mais tarde exercitado. Isso porque na pintura ele inspirou-se não numa arte clássica, da qual é difícil escapar naquele país, mas em nomes como Edvard Munch e Egon Schiele, ambos de caráter expressionista. Talvez por inexperiência juvenil, como reconhece, achava o ofício muito solitário e até por medo de enlouquecer buscou outro, feito em equipe, agitado e imprevisível. É instigante saber dessa faceta breve, mas marcante para toda uma carreira cinematográfica, quando se assiste a Vincere, o novo filme do diretor que estreia na sexta-feira 23. Como em muitos de seus títulos anteriores, as referências às artes plásticas e à ópera, para ficar em universos familiares ao cinema, são mais uma vez recursos para um dos melhores trabalhos recentes de Bellocchio.

Vincere, em italiano, quer dizer vencer. O título refere-se à ideia perpetrada pelo ditador Benito Mussolini, que a partir da gênese do fascismo prometia levar o povo da Itália à vitória no contexto da Segunda Guerra Mundial. Mas talvez diga mais de sua vitória pessoal. Uma ascensão que esconde uma personagem riscada da história oficial. É sobre Ida Dalser, e não o Duce, que se detém Bellocchio. Ela foi amante de Mussolini, teve um filho dele e passou o resto da vida buscando o reconhecimento da paternidade. Terminou traída,- e com ela a Itália, nos diz o realizador quando mostra o período inicial da relação de ambos, interpretados por Fillipo Timi e Giovanna Mezzogiorno. Ida deu dinheiro ao companheiro, então um idealista do socialismo, para que este montasse um jornal, Il Popolo- d’Italia. Mas Benito renega o partido, a mulher e parte para a conhecida trajetória. Quando não consegue se livrar de Ida, sempre em seu encalço, manda trancafiá-la num asilo de loucos.

Enfim, pura tragédia à italiana não fosse a intrusa realidade. Bellocchio, contudo, tira partido desse feitio trágico e investe em outra característica constante de seu cinema, o melodrama. Aliada àquela quase esquecida vocação para a pintura, formam os dois eixos do filme. Num primeiro momento, o realizador se vale da estética do movimento artístico de seu país chamado Futurismo e retrabalha imagens segundo os preceitos de seus artistas. É o capítulo, por assim dizer, mais focado no crescimento vertiginoso da figura política do Duce. Em seguida, este praticamente desaparecerá da trama e será visto somente em material de arquivo, para dar total atenção ao calvário de Ida, mártir de cunho operístico por excelência. Não escapará a referência bíblica também na emblemática cena em que o filme A Paixão de Cristo é exibido no teto do hospital aos doentes acamados. Não menos, igualmente, está presente a sombra de um clássico, A Paixão de Joana D’Arc, de Carl T. Dreyer, que o diretor encarregou sua atriz de assistir e a partir da protagonista Falconetti se inspirar.

Vincere foi exibido na competição do Festival de Cannes de 2009 e quem sabe por não ter sido reconhecido pelo júri, para muitos injustamente, Bellocchio foi o convidado da edição deste ano do Projeto Lição de Cinema, em que um realizador encontra o público e os jornalistas para falar de sua obra. Aos 70 anos, disposto a se abrir como poucos de sua geração, fez um apanhado- do momento em que abandona o cavalete e parte para Londres, “para se formar e se informar”, e onde se decide pelo cinema primeiro como ator, até as influências recorrentes no novo filme. A trajetória de Ida, para ele, é trágica como a de Antígona e remonta a uma heroína de Verdi. Inspirações coerentemente presentes na impactante estreia do realizador, em 1965, com Punhos Cerrados, no original Pugni in Tasca, alusão a um verso de Rimbaud. Ali, um jovem perturbado (o estreante Lou Castel, impressionante) mata a mãe e tem seu momento catártico ouvindo a Traviata verdiana. “Eu já estava estudando no Centro Experimental de Cinema, em Roma, e precisava de um material em que me sentisse confortável para um primeiro filme”, explicou no encontro. “E nada me era mais próximo naquele momento do que questões familiares e minha situação um tanto desajustada em casa, ao que esperavam de mim no futuro.”

Dessa leva de filmes iniciais, Nel Nome del Padre (Em Nome do Pai), de 1972, circunscreve-se ainda ao território pessoal- do artista, no caso seu descompasso com a religião no colégio salesiano onde estudou na infância. Extraiu da experiência uma tragicomédia de “tom bufo”, mas com a marca da crítica virulenta já exposta. “Trabalhei o grotesco nesse filme, que é uma característica que adoro e Fellini fazia tão bem.” Ele diz encontrar o mesmo tom na história e no personagem do Mussolini retratado em Vincere, embora neste caso de forma um tanto transversal ao filme. Prefere vê-lo sob uma ótica mais ampla. “Ao começar no cinema e ainda hoje procuro uma junção entre uma revolução futurista e o melodrama, o que poderia ser, quem sabe, um melodrama futurista, mas isso já seria um absurdo.”
Com a colaboração do psiquiatra Massimo Fagioli, Bellocchio realiza num ciclo seguinte quatro filmes polêmicos, cercados pelo tema da sexualidade, especialmente Diabo no Corpo (1986), cuja famosa cena de felação ele devota a um então imaginário da crítica. “Os franceses foram os primeiros a falar nela como tal, mas é uma cena de sexo aberta a interpretações.” Sob o aparente desejo de chocar, há uma atitude política sempre persistente que se torna mais evidente em Bom Dia, Noite (2003), sobre as Brigadas Vermelhas e o sequestro do primeiro-ministro Aldo Moro realizado pelo grupo extremista em 1978. Sexo, história, política e psicanálise, esta na medida em que abarca o dom da manipulação na escala do poder, voltam a se encontrar num formato por vezes excessivo em Vincere, mas nunca fortuito. Estão ali também para lembrar a Itália de hoje, que enfrenta igualmente um excesso de imagem pública e devaneios autoritários do chefe da nação Silvio Berlusconi. Bellocchio acredita ser inevitável a aproximação, mas nega que tenha sido o parti pris de seu filme. “Em meu país sempre há e haverá personagens que se prestam a essa conotação, fiz o filme para todos eles.”