Você está aqui: Página Inicial / Cultura / A luz da herdeira

Cultura

Música

A luz da herdeira

por Redação Carta Capital — publicado 24/03/2012 11h57
Filha de Serge Gainsbourg e Jane Bbirkin, Charlotte Gainsbourg lança seu quarto disco, cheio de diversas linguagens: da bossa ao eletrofunk
gainsbourg

O quarto disco de Charlotte Gainsbourg reúne a bossa e eletrofunk

por Tárik de Souza

STAGE WHISPER
Charlotte Gainsbourg
Because/Warner

A menina Charlotte Lucy não teve direito ao lúdico logro do conto da cegonha. Foi ninada pela explosiva relação sexual musicada por seus pais, o compositor francês Serge Gainsbourg e a atriz inglesa Jane Birkin, em Je t’Aime (moi non plus). No Brasil da ditadura, em 1969, a canção quase custou o registro de uma gravadora multinacional no País e inaugurou a censura também para músicas estrangeiras. Como se não bastasse, aos 12, Charlotte duetou com o pai em Lemon Incest, adornada por uma foto dos dois na cama, na capa do disco, provocando mais barulho e sucesso. Apesar deste passivo musical, ela decolou a partir do cinema, em filmes como Ladra e Sedutora (1988), de Claude Miller, Noites com Sol (1990), dos Irmãos Taviani, e Jane Eyre (1996), de Franco Zeffirelli. Em disco, só estreou solo, em 2006, em 5:55, associada ao grupo francês Air e Jarvis Cocker, da banda inglesa Pulp.

Após os 40, Charlotte Gainsbourg equilibra com maestria atuações abrasivas nas telas (Anticristo, Melancholia, ambas com Lars von Trier) e a música, embora seu quarto disco, Stage Whisper, traga material reciclado dos anteriores. É um périplo por diversas linguagens. Do martelo eletrofunk (Paradisco) ao lirismo pop (Anna), a bossa (AF607105) e a ruidosa ressonância magnética de IRM, alusiva a um acidente sofrido por ela num ski aquático. Entre registros em estúdio e desempenhos ao vivo, Charlotte também exibe seu lado sensual (White Telephone, Jamais), confirma o brevê de roqueira em Heaven Can Wait, Set Yourself on Fire e sussurra o clássico de Bob Dylan Just Like a Woman. A herdeira dos astros tem luz própria.

Encontro feliz
por Luis Krausz

GUERRA-PEIXE: OBRAS PARA VIOLINO E PIANO
Eliane Tokeshi e Guida Borghoff
ybmusic

O percurso musical de César Guerra-Peixe (1914-1993) começa pelo dodecafonismo cosmopolita, técnica que foi introduzida no Brasil por seu mestre Hans-Joachim Koellreutter e que Guerra-Peixe incorporou durante os anos em que participou, ao lado de Edino Krieger e de Cláudio Santoro, do grupo Música Viva. Mas a partir de 1950, depois da ruptura com Koellreutter, dirige-se ao nacionalismo musical, do qual também foi expoente Camargo Guarnieri, e que determina todo o período mais maduro de sua criação artística. Cristaliza-se, assim, o estilo que perpassa sua obra como um todo, fundado sobre os ritmos e as melodias folclóricas brasileiras, e as formas de uma música de raiz ainda intacta, que criou uma espécie de reservatório cultural ainda alheio à voragem e à violência do século XX – e que seria sua fonte de inspiração duradoura.

As obras do compositor trazem, transmutadas em suas essências, as melodias dos violeiros do Nordeste, as danças dos caboclos recifenses, as melodias das rabecas e violas caipiras e os lamentos das rezadeiras de um Brasil profundo, cujos tesouros seduziram este filho de imigrantes portugueses e o levaram a tomar uma posição definida na música brasileira. “Não devo optar pelo meio-termo”, disse, ao explicar suas opções estéticas.

Guerra-Peixe: Obras para violino e piano traz peças poucas vezes ouvidas em concertos, mas cuja importância na história e na formação da música erudita brasileira é cada vez mais reconhecida. Interpretadas com lucidez e competência por Eliane Tokeshi e Guida Borghoff, as obras escolhidas representam pontos culminantes de uma trajetória artística, e começam com Música, de 1944, chegando a Quatro Coisas, de 1987. Evidencia-se a felicidade do encontro e diálogo entre um artista sofisticado e um patrimônio popular em via de esquecimento.

registrado em: