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A Libertadores e a síndrome de Paulo Nunes

por Matheus Pichonelli publicado 03/07/2012 15h30, última modificação 03/07/2012 23h25
Um estrangeiro que desembarcasse no Brasil imaginaria que o País está à beira de uma guerra civil encabeçada por um grupo separatista
Corinthians

Às vésperas do provável maior momento da história corintiana, um estrangeiro que desembarcasse no Brasil imaginaria que o País está à beira de uma guerra civil. Foto: Galeria de Anderson Mancini/Flickr

Para quem não se lembra, Paulo Nunes era aquele diabo loiro mais parecido com o Denis Pimentinha do que com jogador de futebol. Metade gênio-metade grosso, era o homem certo na hora certa de dois dos mais vitoriosos times dos anos 90: o Grêmio de 95/96 e o Palmeiras de 98/99, ambos dirigidos por Felipão.

Eram tempos de vacas gordas. Certa tarde, crente de que jamais deixaria de chover em sua horta, fez pouco caso do título paulista vencido pelo rival Corinthians contra o seu Palmeiras – que quatro dias antes ganhara a Libertadores, obsessão de todo clube brasileiro após a exposição internacional obtida pelo São Paulo com os títulos de 92 e 93. “Deixa o Paulistinha pra eles, que é o que eles merecem”.

Santa boca. Daquela tarde em diante, o Palmeiras só voltaria a levantar títulos de relevância em duas ocasiões: um Rio São-Paulo no ano seguinte e (bingo!) um Paulistinha comemoradíssimo em 2008. O Corinthians, por sua vez, papou o Brasileiro naquele mesmo ano e se sagrou campeão outras muitas vezes: venceu mais dois Brasileiros, um Rio São Paulo, dois outros Paulistas, duas Copas do Brasil e um Mundial de Clubes.

Mas se ressentia de jamais ter vencido a tal Libertadores que, em tempos de vacas gordas, fazia palmeirenses e são-paulinos esnobar torneios regionais nos quais os corintianos reinavam.

O mundo dá voltas. Treze anos depois, o Corinthians está hoje mais perto do que nunca de se libertar (com o perdão do trocadilho) de seus dois maiores traumas: a virgindade na Libertadores e a falta de um estádio próprio. Deixou de ser cabrocha de velhas alas para dar chá dançante em torneios dos quais os dois maiores rivais já não são convidados.

Por sorte e azar, o time sobe na vida num momento em que seus torcedores já não gritam só nas arquibancadas, mas também, e muito, na internet. Faça o teste: conte cinco minutos após uma vitória ou derrota de jogo importante e confira quantos Paulo Nunes aparecem em sua timeline.

Parte dos corintianos esnoba os rivais santistas por terem vencido só (?) um Paulista neste ano (justamente o torneio que consagrou o Parque São Jorge em 26 oportunidades). E palmeirenses, são-paulinos e santistas gritam em coro: "eu tenho, você ainda não tem". E voltamos todos de repente para a terceira série.

Até aí a provocação faz parte do (pós) jogo, e quem não aguenta assiste Carrossel. Quando criança, ao me ver arrasado no dia seguinte a uma derrota, costumava ouvir dos adultos preocupados com minha sanidade: “esses jogadores ganham milhões e nem sabem que você existe”; “todo mundo tem que trabalhar no dia seguinte”; “futebol é o ópio do povo”.

Ok, pode ser. Mas poderia passar horas explicando a validade de outro clichê: o de que o futebol explica a vida. Histórias de superação, força da coletividade e do improviso, de sorte e acaso não faltam no mundo esportivo afora. E a escolha do time, como diz um amigo, não se dá pela cor da camisa, mas pela identificação, por mais que a vida real supere qualquer estereótipo sobre os clubes do coração de operários da zona leste, dos almofadinhas da zona sul ou dos tiozões de cantinas da zona oeste.

O problema é que, como no futebol, a vida e a internet andam cheias de Paulo Nunes – basta lembrar aquele cunhado novo-rico que diz o tempo todo “eu sou mais rico que vocês” (“quando você vai comprar um carro de verdade”, “filho meu não frequenta esse boteco”, e por aí vai). O deslumbre não é patrimônio de uma única torcida, mas a praça hoje anda lotada de torcedor andando de carro importando que esqueceu a infância pobre.

É nessas horas que o futebol perde a graça: quando se parece demais com a vida real.

Às vésperas do provável maior momento da história corintiana, um estrangeiro que desembarcasse no Brasil imaginaria que o País está à beira de uma guerra civil. Seria preciso explicar que a nação corintiana é uma forma carinhosa de se referir a uma torcida, e não a um grupo separatista a exigir sangue e justiça contra os antis com uma só palavra de ordem: “chupa”. O clima azedou e, a essa altura do campeonato, é impossível dizer quem perdeu primeiro a esportiva: na tevê, o jogo agora é classificado como “guerra”; jogadores e treinadores, mirando a torcida, falam em “honra” e “dignidade” (embora, é bom frisar, não tenham caído no oba-oba nem ao discurso bélico).

A torcida passa a semana testando a virilidade com imagens e frases sobre guerreiros e recados aos rivais no estilo “te pego na saída”. E os rivais não ficam atrás: semana passada, vizinhos saíram à sacada armados de provocações quando o Boca Juniors fez o primeiro gol na Bomboneira. Pouco depois o Corinthians empatou, e logo quem saiu à sacada foram os corintianos, pedindo que o vizinho desse as caras se fosse homem. Se xingasse a mãe não ofenderia tanto, e São Jorge, em algum lugar do céu, intercedeu pela vida dos terrestres que prometiam transformar o pátio comum do prédio em arena de UFC. É uma constante: semanas atrás, na primeira partida contra o Vasco, um torcedor ameaçava se esvair em lágrimas num bar de São Paulo ao ver um gol logo em seguida anulado de Alecssandro. Umas meninas que estavam no local se levantaram para conferir e ouviram trovões impublicáveis do torcedor ao ver o gol invalidado.

Não são casos isolados: maus perdedores e maus ganhadores vestem camisas diferentes, mas falam exatamente a mesma língua. Em 2005, o São Paulo lavou a alma ao vencer uma Libertadores depois de um longo e tenebroso inverno. A exaltação à honra tricolor fora alimentada durante semanas e semanas pela tevê e pelos antis (sim, eles existiam muito antes do Facebook). Resultado: a comemoração transbordou pelas ruas e provocou uma guerra tribal com a polícia na principal avenida da metrópole. Um ano depois, por pouco não vi no Pacaembu o maior linchamento de jogadores da história após a eliminação do Corinthians da (velha e boa) Libertadores contra o River Plate. A Polícia Militar cercou o gramado e evitou a tragédia. Mesma sorte não tiveram as vítimas da pancadaria entre palmeirenses e são-paulinos ao fim de um torneio de juniores em 1995, no Pacaembu – e outras tantas vítimas de clássicos recentes.

Desta vez, a internet começa a balizar uma nova corrida armamentista. E justo num momento de festa: o Corinthians merece levar o título, até porque tem, de longe, o melhor time e o melhor treinador da atualidade. Só esperamos que ninguém, nem brasileiros nem neoargentinos, saia de tocha e tridente nas ruas por um torneio que terá nova edição já no ano que vem. De maus ganhadores a vida já está saturada.

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