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A inquisição não tem senso de humor

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 18/02/2008 16h26, última modificação 15/09/2010 16h27
Em 18 de dezembro, por ocasião do lançamento mundial do filme A Bússola de Ouro, o jornal oficial do Vaticano L'Osservatore Romano, atacou Philip Pullman, autor do livro de fantasia no qual foi baseado o roteiro, com um longo e duro editorial.

Em 18 de dezembro, por ocasião do lançamento mundial do filme A Bússola de Ouro, o jornal oficial do Vaticano L'Osservatore Romano, atacou Philip Pullman, autor do livro de fantasia no qual foi baseado o roteiro, com um longo e duro editorial. É uma distinção curiosa, que em 2005 já havia sido concedida a Dan Brown pelo Código Da Vinci e em 15 de janeiro premiou o conjunto da série Harry Potter, de J. K. Rowling. O ex-grande inquisidor, atual papa, parece acometido de incontrolável nostalgia por fogueiras e caças às bruxas.

Segundo o editorial do Vaticano, Pullmann promove “uma ideologia atéia e inimiga de todas as religiões reveladas. A esperança não existe, porque não existe salvação senão na capacidade pessoal e individualista de controlar a situação e dominar os acontecimentos”. Trata-se de uma obra “sem Deus no horizonte, onde tudo é reduzido e feito triste, frio e desumano” e ao mesmo tempo, “uma saga de fantasia gnóstica em molho sessenta-e-oitista, na qual a felicidade reside na independência absoluta, não na relação”.

A nova hipersensibilidade de Ratzinger a best-sellers populares e infanto-juvenis de fantasia e ficção científica dá a entender que a Igreja Católica sente-se tão frágil quanto a Autoridade que, ao final da epopéia de Pullman, é dissipada por uma mera brisa. Outrora, a honra do Index era reservada a autores tão relevantes quanto Emmanuel Kant, John Stuart Mill ou Jean-Paul Sartre. Algumas obras de fantasia, é verdade, chegaram a ser condenadas às fogueiras, mas eram de outro calibre, como o Pantagruel de Rabelais ou Paraíso Perdido, de John Milton.

Mas o tom da crítica a Pullman, além disso, dá a impressão de partir de quem não se deu ao trabalho de ir além da tela (que adaptou apenas uma parte do primeiro volume) e das orelhas dos livros. Pois seria possível, de um ponto de vista cristão, fazer uma crítica muito mais inteligente da mesma obra.

Em várias entrevistas, o escritor confirmou seu agnosticismo e sua intenção de minar as crenças cristãs. Mas se queria combater o teísmo com a trilogia Fronteiras do Universo (A Bússola de Ouro, A Faca Sutil eA Luneta Âmbar), a obra o traiu. A Igreja Anglicana, mais lúcida, parece dar-se conta disso. Ron Williams, Arcebispo de Canterbury, sugeriu em um sermão de 2004 que o “ateísmo de protesto” de Pullman fosse discutido em aulas de educação religiosa para jovens de 15 anos ou mais, junto com O Grande Inquisidorde Dostoievski e A Peste de Camus.

É verdade que a trajetória da protagonista a leva a acidentalmente matar Yahweh (ou A Autoridade, como também é conhecido em seu mundo), enquanto seu grão-vizir Metraton (o profeta Elias promovido a arcanjo-mor), entidade tida como enormemente poderosa e inteligente, com milênios de experiência e incontáveis exércitos de anjos à sua disposição, sofre uma derrota inverossímil e anticlimática ao se deixar seduzir por uma mulher e cair em uma armadilha óbvia.

Mas, ao mesmo tempo, nada na trama faz sentido se não se quiser supor que a protagonista e seus amigos são guiados por uma Providência. Não tem jeito: é inevitável imaginar um verdadeiro Deus, onipotente e onisciente, a manipular os acontecimentos dos bastidores e permanecer invisível e ignorado. Com certeza, os personagens dependem apenas da “capacidade pessoal e individualista de controlar a situação e dominar os acontecimentos” e não têm a tal “independência absoluta” apontada peloOsservatore Romano.

Pois, em Fronteiras do Universo, a protagonista Lyra é escolhida e predestinada à sua missão por uma profecia, recebe a “graça” (o termo é usado explicitamente) de um talento sobrenatural para ler a famosa “bússola” e põe nela uma fé para Santo Agostinho nenhum botar defeito.

No final, ao despertar para a sexualidade como adolescentes, Lyra e seu namoradinho Will redimem não só a humanidade, como os milhões de universos habitados pelas mais diferentes espécies de seres inteligentes. Ainda mais ilógico que as tradicionais idéias cristãs de um pecado original que compromete todos os descendentes (mas ao menos só eles) e da redenção universal pelo sacrifício de Jesus (que pelo menos era um homem-deus).

O mesmo faz a física Mary Malone, aliada que surge mais para o meio da trilogia: sem questionar, mergulha em um universo desconhecido para cumprir uma missão (“bancar a serpente”) ditada em um computador por alguém que diz ser um anjo – que ela não tem como saber se é bom ou mau – e para encontrar seu caminho no estranho mundo onde vai parar, joga as varetas e confia nas orientações do I Ching como um pentecostal confiaria na Bíblia. Nem a Maria original, a mãe de Jesus, acreditou na Anunciação com tanta facilidade: o anjo precisou aparecer em pessoa e dar todas as explicações.

Como explicar o paradoxo? É-se levado a crer que faltou habilidade ao autor para compatibilizar a forma da mensagem com o conteúdo que conscientemente lhe quis dar. Oficialmente, Pullman admite a influência de John Milton (o título original da trilogia, His dark materials, cita um verso de O Paraíso Perdido), mas sua narrativa deve muito mais ao C. S. Lewis de Nárnia e ao J. R. R. Tolkien de O Senhor dos Anéis – a ponto de começar a aventura em um guarda-roupa, como o primeiro, e terminá-la com uma batalha apocalíptica entre as fortalezas do Bem e do Mal, como o segundo.

Mas ambos os autores de épicos de fantasia eram cristãos intransigentes. Histórias maniqueístas que valorizam a fé, a graça, as profecias, o destino e a providência estavam totalmente de acordo com suas intenções. Quem segue tais convenções tradicionais continua, no fundo, a escrever épicos cristãos, ainda que tente inverter o sinal e se faça de Javé o vilão e de Lúcifer (na pele de Asriel, o pai de Lyra) um herói. E quem o lê sairá ainda mais convencido de que os dogmas cristãos são naturais e é necessário um Deus como o cristão para dar sentido à realidade, seja qual for o nome que tiver.

É difícil dizer como deveria ser um romance de fantasia agnóstico, humanista e coerente, mas dá para dizer: assim, não. Não deveria ser maniqueísta a ponto de reduzir o inimigo a um Mal absoluto e incondicional, sem explicação. Compreender o conflito em termos não em termos de Bem e Mal, mas de interesses e pontos de vista opostos, conciliáveis ou não, é parte de uma visão de mundo humanista. Mas Pullman faz os anjos e seu braço humano, o Magisterium (caricatura das Igrejas cristãs) agirem como se quisessem o mal pelo mal. Querem o poder absoluto, mas em nenhum momento se explica para quê, já que os anjos parecem não ter ou desejar ganhos materiais, nem prestígio entre humanos que mal os conhecem.

Para eliminar o pecado e aumentar ainda mais seu poder, parecem querer eliminar do Universo o famoso “Pó” que confere consciência a humanos e outros seres inteligentes – um suicídio, pois são feitos dele. Por razões jamais explicadas – por simples maldade, ao que parece – confinam os espíritos dos mortos a uma espécie de campo de concentração subterrâneo, o “inferno” desse universo, sem tirar disso qualquer proveito (até que os heróis os libertam para que possam se dissolver e morrer definitivamente).

Talvez os personagens devessem ser mais céticos e não acreditar tão cegamente que um método divinatório (seja bússola de ouro, I Ching ou Tarô) possa lhes dizer o que é bom ou mau e o que devem fazer. Deveriam refletir conscientemente sobre ética, bem e mal, em vez de se submeter cegamente à fé em mensagens do além. Com certeza, não deveriam ser predestinados (por quem?), nem receber “graças” (de quem?), nem redimir (de que débito e a quem?) o multiverso inteiro com um ato íntimo, natural e rotineiro, que não tem por que virar as leis naturais de cabeça para baixo ou recolocá-las de pé.

Ainda assim, poderia ser fantasia: inúmeros romances e séries de fantasia, de Rabelais (Gargântua) a Terry Pratchett (Discworld), passando por Edgar Rice Burroughs (Tarzan), Robert Howard (Conan) e Monteiro Lobato (Sítio do Picapau Amarelo), entre outros, criaram mundos fantásticos sem plagiar o Gênesis, os Evangelhos e o Apocalipse.

Mas também deve-se dizer que a trilogia de Pullman tem bons momentos, alguns personagens muito simpáticos – a começar pela molequíssima Lyra, ao menos nos primeiros capítulos – e algumas idéias muito curiosas, das quais a mais bem achada é a dos daemons – ou dímons, como preferiu a tímida nova tradução. O autor alega ter tirado a idéia, aparentemente nova para a literatura de fantasia, diretamente da sua imaginação, mas a verdade é que se parece muito com concepções indígenas.

Segundo o antropólogo Curt Nimuendaju em As lendas da criação e destruição do mundo, os apapocuva-guaranis (que vivem no Paraguai, sul do Brasil e São Paulo, incluindo uma aldeia no município da capital) acreditam que todo indivíduo tem o ayvucué, alma humana (literalmente “sopro” ou “espírito”) e acyiguá, alma animal (daemon). O ayvucué é manso, conformista e obediente, como são, no mundo de Pullman, os humanos separados de seu daemon. E o acyiguá, que exprime desejo e inquietação, reflete a verdadeira natureza do indivíduo: para um índio calmo e brando pode ser uma borboleta, para um perigoso e violento, um jaguar ou outro animal predador.

Os ursos de armadura também se mostram bem bolados, ao menos no que se refere a seus costumes e sociedade. Outras idéias curiosas, ainda que nem sempre bem aproveitadas, são a “faca sutil” que corta universos, os mulefas, animais inteligentes que se movem sobre rodas, e os galivespianos, minúsculos seres inteligentes semelhantes a insetos.

Infelizmente, a criatividade de tantas boas idéias é contrabalançada pelo lugar-comum dos clichês que, na maior parte do tempo, movem a narrativa. Pullman abusa de coincidências improváveis, salvamentos no último segundo, relações familiares misteriosas, reconhecimentos melodramáticos e corações derretidos. E de pontos de vista impossíveis – como quando um personagem abre uma janela e “vê”, no meio de uma batalha imensa e apocalíptica, um galivespiano picar um piloto de uma aeronave inimiga, que perde o controle e se choca contra uma montanha a alta velocidade.

Os aspectos de suposta ficção científica da obra são mal concebidos. A noção de que a inteligência caiu do céu de repente, há trinta e poucos mil anos (vital para a história), é disparatada: Pullman deveria ter lido mais Darwin, em vez de digerir mal a cosmologia moderna a ponto de fazer do seu “Pó” a “matéria escura” dos físicos. Esta não é tangível nem visível, com luz especial ou não. Só interage com matéria normal por meio da força da gravidade. Seres e objetos feitos de matéria escura não poderiam de maneira nenhuma serem vistos ou tocados, como acontece com os anjos e daemons na história.

A idéia da matéria escura a “vazar” do universo e levar consigo a consciência é ridícula. Se existe, ela nos rodeia por toda parte e é muito mais abundante do que a matéria comum. Não corre risco de se “esgotar”, mas se desaparecesse de repente, a conseqüência previsível não seria o desaparecimento da inteligência, mas a dissolução das galáxias. Pois se os astrônomos se sentem forçados a postulá-la, é porque as estrelas se movem com tal velocidade em torno dos centros das galáxias que sairiam de órbita se não houvesse uma massa invisível e intangível várias vezes superior à da matéria normal.

Essa concepção inverossímil do “Pó”, além de disfarçar um espiritualismo de fato em falso materialismo, conduz a um final melancólico e decepcionante. Não porque os pombinhos são obrigados a se separar, mas pelas razões absurdamente forçadas que se alega: cada um deles não podem viver muito tempo fora de seu próprio universo, mas as “janelas” abertas pela faca sutil entre os universos precisam ser fechadas para que o tal Pó não vaze.

Ora, nas premissas do romance, seus universos existiram por pelo menos trezentos anos com milhares ou milhões de “janelas” abertas, resistindo razoavelmente bem, apesar de um lento vazamento. Trata-se do casal cujos beijinhos (de maneira igualmente inverossímil, mas enfim!) viraram a maré do Pó e salvado milhões de universos de um colapso iminente. Que mal faria deixar uma última “janela” aberta durante a vida curta de um casal humano, ou pela vida ainda mais curta de uma típica paixão adolescente?

A resposta não está na lógica da narrativa, mas na falta de imaginação e habilidade do autor em questões éticas e sociais. Longe de ser “sessenta-e-oitista”, como quer o Inquisidor-Mor, a moral da trilogia é tacanha, britanicamente conformista. Lyra e Will são separados simplesmente porque o escritor não ousou tirar as conseqüências de deixar o desejo sexual entre dois púberes de doze ou treze anos seguir o curso natural. Pullman é um cordeiro em pele de lobo, que arromba portas escancaradas ao ridicularizar o Javé do Velho Testamento, mas não corre o risco de pôr em dúvida o que a boa sociedade britânica julga apropriado para adolescentes dessa idade.

Mesmo se Will é um garoto insuportavelmente chato, maduro e caxias, o genro ideal para o típico pai à moda antiga. Chega ao ponto de, tendo chegado a uma cidade de ladrões recém-evacuada, devastada por uma praga de espectros, fazer questão de pagar pela comida e bebida, prestes a se deteriorar, da qual necessita. Morreria de fome, supõe-se, se o autor não desse um jeito de lhe deixar um punhado de libras no bolso, levado do “nosso” mundo para um universo paralelo onde provavelmente não tem valor. Bem, talvez tenham, já que ele encontra lá certa marca de refrigerante transnacional que Pullman promove à transcendência cósmica.

Em certo momento, o corpo astral da cientista Mary é soprado para longe do corpo. Ela precisa se apegar à vida para voltar. O que lhe ocorre? Momentos de consumo solitário de classe média: bacon com ovos, cheiro de café, a cama no inverno, margarita com gelo na Califórnia, o restaurante em Lisboa, limpar o pára-brisa do carro... Acaso será mesmo isso que faz a vida valer a pena?

Ainda mais frustrante, anjos e bruxas convencem Lyra, deliciosamente moleca, ousada e indomável no início da trama, a entrar para uma escola de moças, seguir uma carreira acadêmica bem-comportada, ter uma vida segura, programada e rotineira, como se essa fosse a maior das recompensas. rito de passagem da infância para a maturidade. Seu épico rito de passagem não serve para mais que levá-la a atingir a maturidade de uma mulherzinha convencional. Faria mais sentido se ela fosse viver com os amigos que fez entre os interessantes e rebeldes nômades gípcios (ciganos da água).

É como dizer: bem, crianças, chega de sonhar, o importante na vida não é descobrir a verdade, salvar o mundo e dar amor, é aprender a ganhar a vida de maneira apropriada para sua classe, garantir um emprego que dê para pagar as contas, garantir a aposentadoria, lavar o carro no sábado e almoçar na casa da sogra aos domingos. E ainda vem o Vaticano falar em “sessenta-e-oitismo”!