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A idéia não era bem essa

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 10/03/2008 15h41, última modificação 15/09/2010 15h43
De acordo com o noticiário da última semana de setembro, Tio Sam pôs em teste um equipamento de “leitura corporal” supostamente capaz de identificar terroristas ou, na verdade, pessoas mal-intencionadas em geral, que poderá ser usado em aeroportos e outros lugares com problemas de segurança.

De acordo com o noticiário da última semana de setembro, Tio Sam pôs em teste um equipamento de “leitura corporal” supostamente capaz de identificar terroristas ou, na verdade, pessoas mal-intencionadas em geral, que poderá ser usado em aeroportos e outros lugares com problemas de segurança.

O aparato, do tamanho de um contêiner, foi concebido por uma agência governamental cujo nome, de maneira presumivelmente não proposital, soa digno do 1984 de George Orwell: Divisão de Fatores Humanos no Diretorado para Ciência e Tecnologia do Departamento de Segurança Nacional (Human Factors division in Homeland Security's directorate for Science and Technology). Mas o nome do equipamento – FAST, de Future Attribute Screening Technology, ou “Tecnologia de Varredura de Atributos Futuros” – alude intencionalmente a outra obra de ficção científica, o conto Minority Report, de Philip K. Dick, transformado em filme por Steven Spielberg.

O codinome do sistema é MALINTENT (“Má Intenção”) e aparentemente detecta à distância pistas como temperatura do corpo, suor, contrações faciais, respiração e ritmo dos batimentos cardíacos para identificar pessoas que possam representar uma ameaça. Foi testado misturando-se um grupo de 144 pessoas convidadas ao acaso, que pensavam estar vendo uma exposição de tecnologia, com 23 voluntários que se dispuseram a passar com alguma arma ou outro artefato ameaçador pelo portal que abriga os sensores.
Supostamente, o equipamento foi razoavelmente bem-sucedido em identificá-los, apesar de o número de acertos e erros ter sido mantido em segredo. Seja qual for o escore da máquina, é difícil decidir se esse teste deveria ser considerado tão pertinente, visto que não havia verdadeiros terroristas, mas pessoas convidadas a desempenhar uma missão para o governo – o que, supõe-se, representa outro tipo de atitude.

Não está claro como a máquina distingue um terrorista calmamente convicto de sua causa de um passageiro irritado com qualquer das muitas contrariedades que podem afligir qualquer um que se disponha a uma viagem aérea. Ou um assaltante experiente de um cliente furioso com algum prejuízo causado pelo banco e que se prepara para discutir com o gerente.

Por falar em banco, será que a máquina captaria as más intenções de piratas de colarinho branco e terroristas financeiros como os banqueiros que afundaram meia Wall Street e agora cobram 700 bilhões pelo resgate das casas e poupanças dos trabalhadores dos EUA? Ou o suor da ansiedade dos ricos que se preparam para um golpe de grandes proporções pode ser disfarçado por perfumes de boa qualidade? E agentes do governo e das corporações em missões eticamente duvidosas em países periféricos? Pode-se identificar as conotações ideológicas de um batimento cardíaco?

Segundo o noticiário da Fox, que chama a máquina de “leitora de pensamentos”, não devemos nos preocupar: o equipamento “já é bom o suficiente para diferenciar um viajante apressado de um terrorista. Mesmo se você suar demais por natureza, o FAST não vai tomá-lo por um vilão.”

Os estadunidenses que acreditaram na Fox não duvidaram da existência de armas de destruição em massa no Iraque de Saddam, nem tiveram dúvidas sobre o sucesso da ocupação desse país e sua transformação em paraíso neoliberal. Preocupemo-nos, portanto. Casos como o de Jean Charles de Menezes, o jovem brasileiro assassinado pela polícia londrina, podem se tornar ainda mais comuns se policiais e seguranças puderem responsabilizar uma máquina por seus preconceitos.

Curioso é que tanto o governo dos EUA quanto a Fox parecem se divertir com a alusão a Minority Report e ignorar o lado crítico e irônico da distopia de Philip K. Dick, na qual mutantes com poderes paranormais, os precogs, são manipulados e analisados por computador para prever a possibilidade de crimes. As pessoas passam a ser presas e encarceradas não por cometer crimes, mas por ter a propensão de cometê-los no futuro.

Vale notar que no conto, diferentemente do filme, o crime cuja previsão move a trama não só é de natureza política como justificável do ponto de vista do protagonista e acaba por ser realmente cometido: trata-se do assassinato de um general que pretende apossar-se da agência Precrime para ampliar o poder e o orçamento do Exército, aludindo tanto à questão do livre arbítrio quanto aos riscos para a democracia da influência política de uma poderosa máquina militar.

Na ficção científica popular, haveria sem dúvida paralelos mais benignos a invocar, como o da conselheira Deanna Troi, a psicóloga-empata da série Star Trek, a Nova Geração, rotineiramente chamada a interpretar atitudes de políticos e militares, tanto alienígenas quanto supostos chefes e aliados, para avaliar sua sinceridade ou hostilidade com base em estratégias discursivas e atitudes corporais – o que, aliás, seria muito mais parecido com o que o Departamento de Segurança Nacional supostamente tentaria fazer (se fosse capaz de distinguir uma estratégia discursiva do discurso de um estrategista).

É curiosa a propensão de tantos leitores e espectadores de ficção científica a ignorar o caráter crítico da ficção científica e encantar-se apenas com a aventura e a tecnologia futurista, lendo como ficção pulp ou vendo como filme de ação o que foi concebido como ironia social e política e tomando por utopia o que pretendia ser uma distopia nem tão sutil.

Não só o Departamento de Segurança Nacional dos EUA se encantou com os precogs de Dick, como os fãs de William Gibson mostram-se fascinados pelo charme de seus personagens robotizados e seu mundo infernal. Um deslumbrado engenheiro e empresário deu o nome de Alphaville – que no filme de Jean-Luc Godard era uma cidade futurista dominada por um computador que aboliu os sentimentos – ao condomínio fechado que se tornou o bunker favorito da alta classe média paulistana em busca de ilusória segurança.

Os espectadores do filme Tropas Estelares ignoraram as conotações críticas e limitaram-se a torcer pelos mocinhos contra os insetos, sem perceber que na sua adaptação da obra de Robert Heinlen, o diretor Paul Verhoeven transformou em sátira matreira o que originalmente era um romance militarista. O cineasta holandês antecipou-se à máquina do papel de uma “Tecnologia de Varredura de Atributos Futuros” que detectou nas tendências e atitudes do governo estadunidense dos anos 90 o crime do futuro: a brutalidade do ataque dos EUA ao Iraque, da política do medo e da propaganda chauvinista do imperialismo. Por essas e outras o gênero ganhou uma reputação de superficialidade que seus mestres realmente não merecem, mas serve como uma luva a boa parte dos fãs.