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Crítica / Um Dia Perfeito

A humanidade no fundo do poço

por Matheus Pichonelli publicado 21/07/2016 01h18
A guerra se perpetua à medida que se banaliza e banaliza seus espectadores – e transforma as diferenças em risco de vida e a morte em “nada demais”
Um dia perfeito

A ação em linha reta de uma sociedade organizada na ideia de racionalidade é, assim, embaraçada por outra lógica, a que leva os personagens a andarem em círculos à medida que se deparam com um mundo de ponta cabeça

A humanidade está no fundo do poço, e não é de hoje, alerta o diretor Fernando León de Aranoa no filme “Um dia perfeito”, que estreia no Brasil na quinta-feira 21.

Em seu sexto longa-metragem, vencedor do prêmio Goya de melhor roteiro, o cineasta espanhol parte de um conflito deflagrado há mais de 20 anos, nos Balcãs, em 1995, para construir uma série de dilemas simbólicos a serem observados por uma perspectiva contemporânea, hoje conflagrada em tensões tão localizadas quanto espalhadas e recorrentes: atentados na Europa e no Oriente Médio, golpes e contragolpes armados na Turquia e na Ucrânia, tiroteios nos EUA e, por que não dizer?, escaladas autoritárias e distensões protofascistas no Brasil.

A história é simples: um corpo apodrece no poço de uma aldeia dos Balcãs e precisa ser retirado de lá. A missão envolve um grupo de ativistas estrangeiros monitorados pela ONU e aparentemente desconectados da realidade local. Uma realidade destroçada pela guerra.

 

Aquele corpo não tem nome, não tem origem, não tem história. Não tem, em resumo, humanidade. Os ativistas têm o plano e o know how, mas não têm os meios – no caso, uma corda forte o suficiente para içar o cadáver dali. Na guerra, mostra o cineasta, a ação exige distanciamento e pragmatismo. Não há tempo para rezas ou lamentos: se o poço não for limpado e desinfetado, os moradores locais não terão acesso à água e ficarão vulneráveis a um possível surto de doenças.

A epopeia em busca de uma corda numa região destruída em todos os sentidos revela tudo o que sobra e o que falta em uma guerra. Para quem olha de fora, mesmo com a melhor das intenções, a missão é simples. Ela se revela inglória à medida que o grupo avança sobre o território minado. Literalmente.

É quando as idiossincrasias denunciadas pelos sotaques sobrepostos numa mesma missão ganham relevo. A sanitarista francesa (Mélanie Thierry) jamais viu um cadáver na vida. A analista de conflitos russa (Olga Kurylenko) se revela uma burocrata presa a relatórios e incapaz de compreender a permanência de uma guerra que imagina encerrada. O motorista americano (Tim Robbins) tenta o tempo todo escamotear o medo e a desorientação com rodeios e piadas fora de hora. O tradutor local (Fedja Stukan) passa a correr riscos ao servir os estrangeiros.

O único que parece saber onde pisa é o porto-riquenho Mambrú, chefe de segurança da missão interpretado por Benicio Del Toro que transita entre a melancolia, o humor, o cansaço e a esperança (mais ou menos o espírito do filme, irônico já no título) em sua última missão no campo de guerra antes de voltar para casa e levar uma vida “comum”. É dele a frase que define o absurdo do conflito visto, literal e simbolicamente, por dentro: “Antigamente, um sérvio se casar com uma muçulmana ou vice-versa não era nada demais. Até que um dia vem a guerra”.

A sentença é proferida de dentro de uma casa destruída por uma bomba – provavelmente lançada por vizinhos.

Essa guerra, mostrada como um estado de espírito permanente, embora adormecido, está em cada canto de todos os cenários e falas dos personagens. Ela se perpetua à medida que se banaliza e banaliza seus espectadores – e transforma as diferenças em risco de vida e a morte em “nada demais”.

Inspirado no romance “Dejarse llover”, de Paula Farias, escritora, médica humanitária e ex-presidente da ONG Médico sem Fronteiras, que também assina o roteiro, Aranoa, que trabalhou na guerra dos Balcãs como documentarista, fez de um filme sobre a guerra um filme sem cenas (aparentes) de guerra.

Na trama, não são os conflitos, os tiros, os bombardeios e os sobrevoos dos conflitos guiados e televisionados por uma estética de videogame – distante, calculado, computadorizado, com alvo sem rosto nem sangue – mas a partir dos destroços do dia seguinte.

Esses destroços são as feridas abertas que transformam a missão asséptica de caráter higienizadora dos estrangeiros (que querem simplesmente limpar o local) numa utopia.

Não se trata, afinal, de uma dualidade clássica entre guerra e paz, mas da compreensão de uma lógica sobrepostas em interesses – inclusive de quem não tem qualquer interesse em retirar um cadáver putrefato de um poço para poder transformar um bem vital, a água, em recurso estratégico e o recurso estratégico, em mercadoria.

A ação em linha reta de uma sociedade organizada na ideia de racionalidade é, assim, embaraçada por outra lógica, a que leva os personagens a andarem em círculos à medida que se deparam com um mundo de ponta cabeça cujo extremo é a brutalidade de crianças armadas e destituídas de qualquer espírito lúdico.

Em condições normais de pressão e temperatura, uma corda seria apenas uma corda – e missão dada seria apenas missão cumprida com uma pequena ajuda dos amigos e da boa vontade. Numa guerra, porém, o que parece solução tem outras serventias.

Serve para hastear símbolos. Serve para amarrar provisoriamente nossas feras. Serve para enforcar inimigos. E para lembrar, por fim, das tantas pedras existentes no caminho quando se pisa em terreno minado. O mundo em 2016 está repleto delas.