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Cultura

Crônica do Villas

A gente quer só comida

por Alberto Villas publicado 10/09/2015 10h50, última modificação 10/09/2015 11h00
Hoje você dá uma fritadinha no peixe ou você sela o peixe?
Flickr/ Zé Carlos Barretta
Peixe

Nestes tempos gourmet, ninguém mais dá uma fritadinha no peixe. Agora, sela-se o peixe

É só ligar a televisão e dar uma zapeada que a gente encontra alguém fazendo comida. Nesses tempos gourmet, dizer “fazendo comida” é um termo antigo e jeca, não é mesmo? Ninguém mais faz uma macarronada. Agora, prepara uma massa. Ninguém mais dá uma fritadinha no peixe. Agora, sela o peixe.

Aprendi a cozinhar com minha mãe, observando-a todo dia à beira do fogão. Ela fazia o trivial de segunda a sábado. Arroz, feijão, angu, legume e carne. Estranhou o angu? Na minha casa, lá em Minas Gerais, tinha angu todo dia. Aliás, hoje não se fala mais angu, é polenta.

Por volta do meio-dia, quando minha mãe chegava na porta da cozinha, que dava para o quintal, e gritava: Tá na mesa! a casa já estava toda ela tomada por aquele cheirinho delicioso e inesquecível de bife acebolado.

No domingo, era o meu pai quem assumia o posto e era ele quem pilotava o fogão. E pilotava como ninguém. Fazia um cozido espanhol, que eu morro de saudade até hoje. A canja dele era imbatível, como imbatíveis eram o creme de aspargos, a bacalhoada ao forno com farinha de rosca e o bife à caçarola.

Voltando à televisão, hoje, confesso que sou viciado em programas de culinária. Assisto sempre que posso. Olivier Anquier , Claude Troisgros, Rita Lobo, Jamie Oliver, Rodrigo Hilbert, Carolina Ferraz, Bela Gil, vejo quase todos. Isso, sem contar o MasterChef, que não perco por nada.

O que eu mais acho curioso nesses tempos modernos, é como a nomenclatura mudou. Ninguém usa uma palavra sequer que a minha mãe usava. Nunca ouvi minha mãe dizendo:

- Vou selar o salmão.

- Vou dar uma crocância.

- Vou reduzir o molho.

 

Minha mãe, ali na beira do fogão todo dia, costumava dizer era:

- Vou catar as pedras do feijão.

- Vou fritar o bife.

- Vou escorrer o macarrão.

 

Não tinha essa história de café macchiato. Era café com leite. Nada de crocância. Era torradinho. Nada de cheescake. Era bolinho.

Hoje a coisa mudou, tudo é  gourmet. Doceria virou brigaderia, lanchonete virou hamburgueria e padaria está quase virando boulangerie.

Não é que outro dia, minha filha não me mandou uma foto pelo WhatsApp, de um pão na chapa gourmet? Achei que era coisa do Sensacionalista ou do Piauí Herald, mas não era não. Era de uma padaria lá na Vila Madalena.

Não vou nem tocar em Bela Gil, pra não criar polêmica. Já pensou se começo a falar  aqui do seu churrasco de melancia ou do seu ceviche sem peixe, que ela preparou outro dia?

Enfim, nesse mundo moderno de  pad thai, ameixas frívolas, salada waldorf, tropical kobe beef, nesse mundo moderno em que nosso pão com presunto e queijo virou croque monsieur, enquanto houver Brasil, na hora da comida, eu sou do camarão ensopadinho com chuchu.