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A fila

por Beatriz Portugal — publicado 21/06/2011 11h00, última modificação 28/06/2011 19h58
Para muitos fãs, assistir Wimbledon começa com uma “maratona” de espera. Por Beatriz Portugal. Fotos: AFP
A fila

Para muitos fãs, assistir Wimbledon começa com maratona de espera. Por Beatriz Portugal. Fotos: AFP

Do primeiro ponto de parada não há nem sinal dos estádios e quadras que formam os 182 mil metros quadrados do complexo do All England Club, onde é disputado o campeonato de Wimbledon. Organizadores honorários – assim chamados por serem voluntários – apontam um grande descampado escondido de vista pelas altas árvores que margeiam a rua.

O gramado de Wimbledon Park, usado normalmente por atletas de final de semana, cachorros e seus donos, é tomado anualmente por barracas de fãs que aguardam a vez de entrar no complexo. Como indica uma placa, é “A Fila” de Wimbledon. É ali que 2 mil pessoas passam a noite e outras 10 mil se amontoam diariamente na esperança de conseguir ingressos para o que é considerado por muitos o maior torneio de tênis de todos.

À caminho do local de espera, umas pessoas correm, tentando avançar uns poucos lugares na fila. O clima é de competição amigável. A quantidade de pessoas só fica clara quando uma funcionária entrega um cartão com data e senha: número 4,976. São apenas 7 da manhã do segundo dia do torneio e as esperanças de conseguir ingresso para as quadras principais rapidamente se dissipam. Disposta a tentar a sorte, a produtora de filmes Nancy Beso estica a toalha e senta-se com cinco amigas para aguardar as horas que as separam de possíveis entradas.

Adultos, adolescentes e crianças se espalham organizadamente pela grama. Alguns jogam bola, outros aplaudem as apresentações de bambolê de uma jovem que arrecada doações para uma ONG. Bolas de tênis voam pelo ar, em antecipação pelo o que está por vir. A maioria das pessoas segue sentada em grupos, conversando entre si, lendo, dormindo, fazendo piquenique. Ao redor da área delimitada para a rocambolesca fila, lanchonetes e banheiros amenizam a espera.

Cerca de 7,5 mil ingressos são disponibilizados diariamente. Os primeiros 500 da fila geralmente conseguem ingressos para a quadra central. Nos primeiros dias da competição, os preços para um lugar nas quadra central, 1 e 2 variam de 35 a 43 libras. A outra opção é tentar a sorte através de um sistema de sorteio disputadíssimo, que começa pelo menos sete meses antes do torneio. A maioria, no entanto, só consegue mesmo assistir Wimbledon pela televisão. Ou decide enfrentar a fila. 

Fila essa que aos poucos anda. As pessoas se levantam e reconstroem acampamento metros adiante. Voluntários passam distribuindo um livro de cerca 50 páginas com as regras de conduta da fila. Só mesmo os ingleses, com seu amor por ordem, para imprimirem um caderno esclarecendo que é permitido pedir entrega de pizza, comida chinesa e o que for, mas não são permitidas bebidas alcoólicas, música alta, chinelos, guardar lugar e muito menos penetras.

“Furar fila não é aceitável e não será tolerado”, informa o livreto em letras garrafais. Um dos organizadores honorários explica que nem tem tanto trabalho assim, pois as pessoas da fila se policiam.

Além do livro de conduta, são distribuídos adesivos com os dizeres “Eu fiquei na fila de Wimbledon”, que as pessoas orgulhosamente grudam nas camisetas, bonés, bolsas e afins. O pequeno rótulo diz ainda que dos 125 campeonatos disputados, apenas cinco não foram interrompidos pela chuva.

Nancy e as amigas não tem mesmo do que reclamar. Nada de chuva e às 11h30 estão prontas para passar pela segurança e catracas. Segundo os veteranos da fila, quatro horas de espera não é nada. A mesma Nancy, no ano passado, enfrentou sete horas de fila e não conseguiu ingresso. Dessa vez, teve mais sorte. Embora não haja mais ingressos para as três principais quadras, por 20 libras pode comprar o direito de passear pelo complexo e escolher entras as dezenas de jogos das quadras 3 a 19. Era o que ela e as amigas esperavam.

Entre os destaques do dia nas quadras menores está a partida entre o americano John Isner e o francês Nicolas Mahut, que no ano passado entraram para o livro dos recordes pelo jogo mais demorado da história: 11 horas e 5 minutos. Outro jogo disputado ocorre na quadra 18, entre o americano James Blake e o cipriota Marcos Baghdatis. Sua compatriota Athena Tsouderou, filha de um juiz de linha, mal acredita na própria sorte.

Ela veio de Manchester, no norte da Inglaterra, só para assistir ao torneio. E após as horas na fila lá fora, ela não acha ruim enfrentar outros 40 minutos para conseguir um assento na quadra.

Mas nem só de fãs de tênis é feito Wimbledon. Os ingleses nem ligam tanto para o esporte durante o resto do ano - embora haja mais interesse agora que o escocês Andy Murray ocupa o quarto lugar nos rankings e pode se tornar o primeiro britânico a ganhar uma das quatro grandes competições do ano desde Fred Perry, em 1936. Mas ter um britânico ou não entre os melhores do mundo não parece fazer tanta diferença. O fato é que nas duas semanas de junho e julho, quando os grandes tenistas se enfrentam vestidos de branco nas gramas do All England Club, Wimbledon vira uma obsessão nacional.

Há os que enfrentam horas na filas para poder apenas sentar na grama de Henman Hill e assistir aos jogos no telão enquanto comem morangos com creme e tomam o licor Pimm’s. Faz parte da mística, da atmosfera do torneio, dizem. O campeonato em si vira secundário, servindo de ponto de encontro, como uma grande convenção dos trekkies de Wimbledon, aficionados que provam o quanto gostam do torneio pelo o quanto estão dispostos a enfrentar.
Se a quantidade de pessoas que aguarda demonstra a grandiosidade do que acontece no começo da fila, então fica claro que no All England Club acontece mais do que um torneio de tênis.
Os jogos podem acabar em dois, três ou cinco sets, mas é do espetáculo da fila que muitos vão lembrar depois. Faz parte da idiossincrasia de Wimbledon. O esporte ali não necessariamente é o tênis, mas sim fazer parte do que faz o torneio ser o que é: a grama, as roupas brancas e, para os fãs, a fila.