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A festa bizarra

por Redação Carta Capital — publicado 12/12/2012 14h01, última modificação 12/12/2012 14h01
No baile do Chez Polina, na Guiana Francesa, moça não paga se ficar irreconhecível, coberta da cabeça aos pés

Por Oliviero Pluviano

Esta encantadora pintura decora o teto de uma pequena igreja na zona rural da Guiana Francesa, atravessada pela estrada que vai da base espacial de Kourou a Saint-Laurent-du-Maroni. Entre 1852 a 1953, quando a França deportava condenados ao inferno amazônico do Bagne de Cayenne, muitos falsários conseguiram o privilégio de pintar afrescos nas igrejas do país, em lugar de se submeter aos trabalhos forçados e aos abusos dos carcereiros das Îles du Salut e de outros centros da grande e cruel colônia penal. Foi assim que pinturas maravilhosas de cores ofuscantes, executadas com maestria pelos mais hábeis falsificadores de dinheiro do império francês, se espalharam por toda a Guiana.

A respeito dos sofrimentos aos quais eram submetidos os deportados, lembro o best seller Papillon, do bagnard Henry Charrière, e que um dos cativos, o conde italiano Carlo di Rudio, conseguiu fugir da Île du Diable como Charrière para ser protagonista de uma vida aventurosa até levá-lo a combater em Little Big Horn na derrota do general Custer, diante dos índios em guerra.

Na rodovia deserta, mas idêntica àquelas das banlieue de Paris, de Kourou a Caiena, a capital, há redes suspensas para a travessia dos macacos e árvores enormes tomadas pelos característicos ninhos em formato de bolsa dos japins-xexéus.

Na periferia de Caiena, no mês e meio que antecede o carnaval, um clube de dança local, onde ao calor equatorial se aglomeram 4 mil pessoas, realiza todos os sábados à noite um dos mais singulares, bizarros encontros para ambos os sexos de que se tenha notícia no planeta. No Chez Polina, no subúrbio de Matoury, as moças entram de graça, desde que se tornem irreconhecíveis, cobertas por um vestido no estilo Colombina, com ampla saia, uma máscara como as do carnaval de Veneza com véu colorido agregado a cobrir o rosto até abaixo da boca e um turbante que esconde ­completamente seus cabelos. Até as mãos desaparecem dentro de luvas brancas. Todo o corpo fica completamente escondido, do topo da cabeça aos sapatos do século XVIII. A única parte visível são os olhos.

As touloulous, nome dado às rainhas do carnaval, têm a prerrogativa de escolher seus pares masculinos os quais, vestidos normalmente, se exibem nos três degraus contíguos ao salão lotado. Os escolhidos devem ter necessariamente boa resistência para dançar, entrelaçados com a parceira invisível em movimentos lascivos, como um lundu de sensuais estremecimentos contínuos, das mazurcas e dos piquets tocados por uma orquestra de sopros desenfreada. São pelo menos 30 minutos de um corpo a corpo com a touloulou, antes do fim da interminável música com ritmos típicos da Martinica e de Guadalupe, entoada por cantores que se revezam na agonia frenética dos 40 graus que liquidifica a todos em um grande banho de suor.

Era de Caiena Henri Salvador, que se tornou um dos mais queridos cantores de jazz franceses. Quando ele morreu aos 90 anos em fevereiro de 2008, alguém disse que Antônio Carlos Jobim o definiu como o precursor da bossa nova com a música Dans Mon Île, de 1957. No entanto, o próprio Salvador duvidava dessa atribuição elogiosa, embora Dans Mon Îlê tenha sido, posteriormente, cantada por Caetano Veloso. Acredito mais na influência de Chet Baker, que ­cantava como tocava o trompete, sem o mínimo vibrato, em discos soberbos da juventude de Tom como Song for Lovers gravado em Los Angeles em 1953 (ouça no YouTube Come Rain or Come Shine). Salvador passou no Rio de Janeiro todos os anos da Segunda Guerra Mundial, viveu no Copacabana Palace e foi um cantor de sucesso no Cassino da Urca. Ele tinha um carinho tão especial pelo nosso país, que em 2006 voltou para gravar com Jaques Morelembaum o álbum Reverance. Nas palavras da música Reconvexo é muito bonito Caetano dirigindo-se a todos os brasileiros: “Quem não sentiu o suingue de Henry Salvador?”

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