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A estratégia da longa duração

por Orlando Margarido — publicado 28/10/2010 09h07, última modificação 28/10/2010 09h08
Mostra Internacional de Cinema de SP que vai até dia 4 de novembro traz filme de até cinco horas de duração

Em filmes de até cinco horas, diretores mantêm o próprio estilo

Quando este desafio anual nos chega, há diferentes maneiras de encará-lo. Uma delas é procurar vencer, pela persistência, as muitas horas de exibição de filmes em busca de extrair algo valioso deles. Nesta 34ª Mostra Internacional de Cinema, aberta a partir do dia 22, em 25 salas de São Paulo, os 400 títulos do panorama  mundial se impõem pela longa duração como poucas vezes se viu no evento. Embora a condição temporal não obrigue ninguém a dispensá-lo, o francês Carlos, de Olivier Assayas, conta em cinco horas a vida do Chacal. São quatro horas e meia para Mistério de Lisboa, adaptação de Camilo Castelo Branco pelo veterano Raoul Ruiz. A versão de diretor de Wim Wenders para Até o Fim do Mundo está fixada em 280 minutos.

Há exercícios igualmente compensadores, e menos exigentes no fôlego, se o intuito não for o de uma maratona sem revezamento. Talvez não rivalizem com as homenagens a Akira Kurosawa no seu centenário de nascimento, entre elas a versão restaurada do clássico Rashomon, de 1950. Mas constitui grande prazer notar como diretores consagrados podem inovar o próprio trabalho, a exemplo de Amos Gitai e Abbas Kiarostami, ou manter-se fiéis ao frescor, no caso de Manoel de Oliveira, ou ainda se permitir certa apatia que não chega a ser pecado capital, na avaliação de Woody Allen. A possibilidade de vislumbrar esse conjunto orgânico na programação que se estende até 4 de novembro torna-se, assim, rara.
Há pouco mais de um ano, um ciclo em São Paulo apontou um diálogo possível entre os filmes de Gitai e Kiarostami. A obra de ambos teria a mesma razão política, expressa numa estética merecedora desse ofício. Curioso que a aproximação não levava em conta ainda os novos trabalhos dos diretores. Eles são surpreendentes, a princípio, dentro do gênero que professam. Coincidem também na aparente leveza do painel romântico que constroem.

O israelense Roses à Crédit baseia-se no livro homônimo de Elsa Triolet (1896-1970), escritora russa radicada na França que integrou a Resistência. Por esse fato sabemos em que o romance interessou a Gitai. Estamos na Segunda Guerra Mundial e o colaboracionismo francês será acompanhado, nas transmissões via rádio, pelo jovem Daniel (Grégoire Leprince-Ringuet), herdeiro do pai no encantamento pelas rosas. Sua voluptuosa mulher Marjoline (Léa Seydoux) interessa-se mais pela própria beleza e pela prosperidade financeira. O filme cobre uma década na vida dos recém-casados, da mudança do campo para Paris ao declínio da relação pelo consumismo exacerbado da esposa. É o sonho róseo a crédito do título que se apaga, mas também a mudança de mentalidade de uma nação, e talvez do mundo, cuja ingenuidade foi soterrada pelo conflito bélico. Gitai dá seu recado, talvez sem a contundência que é praxe em seu cinema, mas cedendo oportunidade ao encanto.

Numa palavra, é a sutileza de que o filme de Kiarostami também não prescinde. Mas em Cópia Fiel temos acima de tudo um recurso narrativo que se propõe pela via do inesperado. Desagrada a alguns, como no Festival de Cannes deste ano, o que não deixa de ser habitual no cinema do iraniano. O fato é que ele inova sua obra, sem deixar de percorrer os caminhos de redescoberta, como em Gosto de Cereja. Da mesma forma, depende muito de seus atores. Juliette Binoche, prêmio de melhor intérprete em Cannes, e o barítono estreante em cinema William Shimell restituem a confiança. Ela é a francesa dona de um antiquário na Toscana que convida o personagem de Shimell, um escritor inglês de passagem por causa do lançamento de um livro, para um passeio a um vilarejo. Há mais entre eles do que supõe a rápida amizade e é dos desdobramentos aos poucos sinalizados que Kiarostami forma um retrato da maturidade desses personagens. Mas também da liberdade que não precisa ser politizada para ter valor.

É dessas e de outras sabedorias que se alimenta o cineasta Manoel de Oliveira em seus 101 anos. Ele não exclui a reflexão atual sobre o mundo, contida em um cinema muitas vezes surgido do passado, que soa destituído de razão a princípio. Temos tal sensação ao deparar com o drama do jovem fotógrafo (Ricardo Trêpa) de O Estranho Caso de Angélica, recém-chegado a uma cidade do Douro e chamado às pressas para registrar a bela jovem do título (Pilar López de Ayala), que acaba de morrer. Fica refém de sua beleza e é assombrado por ela. Mas há outra sombra maior a pairar nesse roteiro escrito pelo diretor nos anos 50. Judeu, o jovem foge de um inimigo maior.

Naquela época era o nazismo. Hoje, Oliveira acha que os fantasmas se dividem, uma crise econômica que altera a rota mundial ou um cataclismo natural de um vulcão em erupção. Seu Portugal, claro, também se transformou, e a mudança está expressa na conjunção de dois tempos no filme, na vida apressada da cidade e na turma de camponeses que ainda capina a terra. Mais uma vez o anacronismo destaca o presente, incômodo ao cineasta, pretexto para ele saudar temas como a tolerância no curta-metragem Painéis de São Vicente de Fora – Visão poética, também incluído no calendário da mostra.

São diferentes as posturas que mantêm a fidelidade de Oliveira a um universo artístico, ao formato de cinema em que sabe se expressar e aquelas que Woody Allen igualmente criou para efetivar seu estilo. Ambos podem se gabar de ser facilmente reconhecidos pelo público. Mas no caso do americano essa marca tornou-se um fetiche, uma redundância um tanto vulgarizada por ele mesmo, que conseguiu dividir mesmo seus entusiastas.

Não será por Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos que essa situação mudará. As questões de amor, sexo, traição e medo da morte continuam a rondar seus personagens em crise, agora um sexteto capitaneado por um escritor frustrado (Josh Brolin), sua segura e racional mulher (Naomi Watts), uma bela vizinha (Freida Pinto) e um dono de galeria conquistador (Antonio Banderas). Numa rara aparição, o cineasta justificou em Cannes que se repete porque esta tem sido sua perspectiva da vida, “uma experiência obscura, dura, dolorosa, um pesadelo”. Então, melhor viver, segundo ele, de ilusões e mentiras para ser feliz. A seu modo, Allen segue indefinidamente coerente.