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A estrada possível

por Rosane Pavam publicado 25/04/2008 16h30, última modificação 16/09/2010 16h32
Sou atraída pelas frases ditas a esmo por meio da imprensa. Isto é o que ainda me leva aos jornais diários: o fato de eles pronunciarem, sem aparente intenção, um inconsciente que está subjugado. Dou um exemplo. Nesta semana, em entrevista anunciatória de seus projetos cinematográficos, o diretor Walter Salles afirmou de passagem à Folha de S. Paulo: “Não há mais lugar para sonhadores”.

Sou atraída pelas frases ditas a esmo por meio da imprensa. Isto é o que ainda me leva aos jornais diários: o fato de eles pronunciarem, sem aparente intenção, um inconsciente que está subjugado. Dou um exemplo. Nesta semana, em entrevista anunciatória de seus projetos cinematográficos, o diretor Walter Salles afirmou de passagem à Folha de S. Paulo: “Não há mais lugar para sonhadores”.

Reli a frase várias vezes. Será mesmo que, para este artista brasileiro, os sonhadores não têm lugar e se vêem, portanto, impossibilitados de existir? Ou dirá o cineasta, por meio de tal frase, que os sonhadores não são mais capazes de imaginar lugares que representem sua felicidade? Note que ele não menciona que o sonho acabou, como fez John Lennon em referência aos seus lisérgicos anos 60. Salles mira o espaço, não o tempo.

Sei que parece inútil procurar o sentido exato daquilo que um entrevistado falou rapidamente a um repórter. Mas a impressão forte que tive foi a de que um dos mais reputados cineastas da atualidade talvez não se veja em condições de sonhar um lugar. Ou um não-lugar, que é o sentido para “utopia”, conforme a formulou Thomas Morus no seu irônico livro homônimo de 1516, de combate às idéias feudais. E um artista sem utopia, pergunto-me, como viverá?

Vamos contextualizar a frase. Ela foi proferida como resposta a uma pergunta sobre como Salles filmaria “On the Road”, clássico de Jack Kerouac que é um de seus projetos. Salles disse que, para ele, “On the Road” não é um livro sobre a estrada, mas sobre o fim dela. O livro mostraria não o caminho em si, mas o final da estrada para um americano.

Ou seja: para Salles, aparentemente, o americano chegou ao fim de sua procura, e é isto que o diretor tentará demonstrar em sua obra. No início, argumenta o diretor, este homem dos Estados Unidos caminhou até o Oeste e definiu, na expansão filmada por Howard Hawks e John Ford, sua identidade nacional. O problema esteve, segundo Salles, em que o americano, fixada sua porção de terra, prosseguisse buscando a própria identidade em Iraques e Vietnãs.

A resposta completa não me deixou mais confortável. O sonho pode ser algo bonito ou não. Pacífico ou não. O sonho americano de expansão, desde o mítico Velho Oeste, foi, do ponto de vista humanista, frequentemente devastador. Mas, se olharmos sob a ótica de um pensamento econômico liberal, a busca revelou-se coerente. Não houve limite para a procura deste sonho americano - e ainda não o há, nem pode haver. O americano aprendeu a expandir-se porque foi isto o que o capitalismo exigiu dele. Quando vendemos nossos produtos, nós o fazemos a um mercado potencial, próximo ou distante. Crescemos quando há quem precise de nós - alguém que nos aceite e que, portanto, tenha pontos em comum com o que somos.

Não vejo como, deste ponto de vista, um americano tenha encenado o fim de seu sonho. Ele parece encontrar-se, pelo contrário, a todo vapor dentro dele. Certamente ainda há lugar para sonhadores americanos. Talvez o sonho deles interrompa o nosso, mas esta é outra história.

Se, por meio dos americanos, Salles se refere ao fim do sonho existencial de todos nós, então talvez se engane de novo. Diariamente topo com um utopista nas ruas de São Paulo - um utopista sem capital e, pasme, sem intenção de riqueza, apenas de uma vida melhor. Sem lenço nem documento, ele sonha com um lugar diferente mesmo diante dos abalos sísmicos com que a avenida Paulista lhe presenteia.

Estou um pouco cansada de ouvir que não há mais lugar para sonhadores, ou lugares que sonhar, dentro da perspectiva cotidiana de nossa existência. O pensamento por trás desta triste constatação é o de que as utopias devem ser esquecidas porque faliram, ou porque, inacreditavelmente, fizeram surgir regimes ditatoriais. A meu ver, ao decretar esta derrota é que falimos em nosso projeto de mudança civilizatória e aperfeiçoamento social. Alguém não deve estar disposto a que desejemos mudar toda a terrível situação por que passamos, que exerçamos a utopia como um direito a transformar a ordem. (Não será Salles, naturalmente, este alguém.)

Recomendo a leitura de “Imagem Imperfeita – Pensamento Utópico para uma Época Antiutópica”, de Russell Jacoby (Civilização Brasileira). Este livro situa razões para que debochem dos utópicos, ou mesmo os desclassifiquem, em favor de uma visão pragmática da resolução de problemas.

Jacoby é professor de história na Universidade da Califórnia, também autor de um outro livro importante, “O Fim da Utopia: Política e Cultura na Era da Apatia” (Record). Como historiador, Jacoby situa desde os primeiros e loucos utopistas, para os quais haveria um mundo de sonhos ritualizado, basicamente com comida farta (e, à mesa, os convidados, em determinado horário, vestiriam determinada roupa e leriam determinada poesia), até os utopistas da educação (para os quais as crianças viveriam sua felicidade em meio à natureza até os dez anos, e só depois se voltariam às cadeiras de estudos) e os sonhadores políticos.

Parece que, nestes últimos, a carga de descrença despejada hoje é total. E então Jacoby mostra uma razão para que os utopistas tenham caído no descrédito. Uma corrente intelectual desejaria desqualificar esses pensadores por ver neles as sementes das idéias igualitárias dos marxistas - sementes, pelo que sabemos, até agora mal plantadas. Mas por que deveríamos simplesmente descartá-las, se ainda não receberam o trato em terra devida?

O ensaio mostra que toda a carga de descrença foi situada sobre os marxistas por ser agudo o seu sistema de análise da situação política, econômica e social desde a alvorada capitalista. Grandes pensadores como Hannah Arendt, ou nem tão grandes, como o Isaiah Berlin na visão de Jacoby, passaram mais tempo desqualificando o marxismo do que o próprio nazismo. A razão para isto seria que, devido a sua óbvia inconsistência, o nazismo não ensejaria grandes discussões contrárias. E, mais, seria apropriado aproximar o nazismo das idéias utopistas para invalidar as utopias. Mas em que momento alguém poderia associar as idéias de Adolf Hitler, arquitetadas para a destruição, àquelas dos que ansiavam por um harmônico espaço de encontro com outros homens?

O livro lembra que utopistas não devem ser confundidos com destruidores de um sentido de organização coletiva, já que, lembrando Kant, “a humanidade precisa de uma ordem social para se tornar livre”. Pensadores como Berlin, desafetos desta ordenação acima do indivíduo, são duramente criticados por Jacoby.

O autor de “Imagem Imperfeita” também faz um alerta: habituados a desqualificar os sonhos de um lugar melhor, acabamos por destruir, cotidianamente, o próprio lugar da imaginação. Quando não imaginamos (utopias, sonhos), não criamos. Assim são as crianças que se excedem nos brinquedos eletrônicos, impossibilitadas de exercer a simplicidade não-consumista, livre, da rua. Se as crianças não imaginam, só têm um lugar: ele está próximo das tomadas eletrônicas de seus novos brinquedos e distante demais das cachoeiras de um paraíso possível.