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A encruzilhada dos batutas

por Pedro Alexandre Sanches — publicado 27/08/2010 01h32, última modificação 27/08/2010 14h36
Entre o túmulo e a celebração do morro, o samba dos centenários Noel Rosa e Adoniran Barbosa forjou uma identidade para o País
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Noel Rosa e Adoniran nos anos 30, unidos pelo desejo nunca consumado pela liberdade

Entre o túmulo e a celebração do morro, o samba dos centenários Noel Rosa e Adoniran Barbosa forjou uma identidade para o País

Ambos eram sambistas. E completariam 100 anos neste 2010, se estivessem vivos. Terminam aí as semelhanças entre dois dos mais importantes edificadores da música brasileira, o carioca Noel Rosa e o paulista Adoniran  Barbosa. Filho de migrantes italianos, Adoniran nasceu em Valinhos, no interior paulista, em 6 de agosto de 1910. Só aos 41 anos conquistou o primeiro êxito como compositor, quando Saudosa Maloca ficou popular na gravação dos Demônios da Garoa. Morreu em 1982, aos 72 anos, após sucessivas ondas de ostracismo e sem adquirir plena notoriedade como intérprete dos próprios sambas.

Noel nasceu poucos meses depois de Adoniran, em 11 de dezembro. E morreu muito antes, em 1937, aos 26 anos. Carioca do bairro de Vila Isabel e descendente de portugueses migrados para o interior fluminense, começou a se firmar como autor aos 19 anos, quando lançou em sua própria voz o samba Com Que Roupa? (1930). Foi logo adotado como fornecedor crucial de composições para os cantores Francisco Alves e Mário Reis, mas também traçou trajetória de intérprete, num tempo em que a própria música nacional ainda lutava por sua identidade.

A história do samba carioca é tão perene quanto foi breve a vida de Noel, e ele é um dos definidores da solidez do gênero. As dificuldades que Adoniran sofreu para se consolidar como músico de respeito são as mesmas que fustigam o “túmulo do samba”, para adotar os dizeres jocosos do bossanovista carioca Vinicius de Moraes. O Rio vivia, ao fim da década de 1920, a efervescência da linhagem de samba amaxixado de Sinhô e do bairro proletário da Cidade Nova. Moço branco de classe média baixa, Noel preferiu subir os morros para absorver outros saberes, da Mangueira de Cartola ou do samba percussivo do Estácio de Sá de IsmaelSilva. A parceria Noel-Ismael floresceria. Francisco Alves passou a lhes comprar sambas e a se inserir nos rótulos dos discos como suposto coautor. Assim nasceram Adeus, Gosto mas Não É Muito (1931), A Razão Dá-Se a Quem Tem e Assim, Sim! (1932), esta uma das poucas canções de Noel gravadas por Carmen Miranda. Segundo relatam João Máximo e Carlos Didier em Noel Rosa – Uma biografia (Linha Gráfica/UNB, 1990), ele não apreciava a cantora, porque ela preferia as marchinhas aos sambas.
*Confira este conteúdo na íntegra da edição 611, já nas bancas.