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Cultura

Oportunismo eleitoral

A Elite da Tropa

por Marina Barbosa — publicado 30/10/2010 09h47, última modificação 30/10/2010 10h30
O Coronel Nascimento diz que a polícia tem que acabar. Não deveria ser a politicagem a primeira a desfalecer?

O Coronel Nascimento diz que a polícia tem que acabar. Não deveria ser a politicagem a primeira a desfalecer?

Não poderia haver outro momento mais oportuno do que esse para o lançamento do filme Tropa de Elite 2. Não vi o primeiro por temer a violência do filme, mas confesso que saí da sala de cinema, no sábado à noite, um tanto quanto maravilhada. O roteiro, a edição e a interpretação dos atores são simplesmente fantásticos.

A afirmação instigante do Coronel Nascimento de que “a polícia do Rio de Janeiro tem que acabar” é forte. A corrupção do sistema transcende a polícia militar e penetra obscuramente o topo da pirâmide do poder, a elite política que lidera o sistema. Não nos surpreenderemos se a realidade for próxima do que vimos. Ao sair da sessão do filme a pergunta que ficou em minha cabeça: não deveria ser a política, ou melhor, a politicagem a primeira a acabar?

Às vésperas do segundo turno das eleições Presidenciais, não consegui acompanhar muito a propaganda eleitoral. Os sorrisos amarelados me parecem enganosos, o baixo nível das discussões e difamações que correm a torto e a direito pelos meios de comunicação são desanimadores e as atitudes dos atuais líderes abusivas.

Tropa de Elite 2 escancara nossas mazelas com maestria, expondo as veias sangrentas, o oculto da sociedade brasileira, que, em pleno século XXI, é obrigada a ir às urnas para escolher a manutenção de um sistema empobrecido de valores, que perpetua relações desumanizadas.

A disputa por tal poder distorcido inverteu a ordem das coisas, em todos os sentidos. Up side down e up side up! O filme evidencia vários desses ângulos, promovendo a reflexão sobre a complexidade de solução da violência e da corrupção no País. O buraco é mais embaixo, como disse o Coronel Nascimento. Ou será que não é mais em cima?

Essa variação de posições apresentada no filme expõe o quanto acabar com o domínio do tráfico nas favelas não será a solução definitiva. O poder troca de mãos, mas não acaba com o problema da violência, fica menos evidente e mais difícil de combater. As favelas - colégios eleitorais de grande representatividade - passam a ser dominadas por homens do mesmo calibre dos traficantes, com a diferença de que possuem respaldo de políticos que não poupam esforços para se elegerem ou se reelegerem em cargos públicos.

Não existe solução pronta para problemas tão complexos como o da violência e da sede de poder, que requerem especialistas experientes e líderes conscientes de seus desafios. Precisamos abrir os olhos para todos os lados e enxergar no escuro, além dos discursos marqueteiros e dos sorrisos fora de contexto. Ademais, há que se começar miúdo, cada um em sua esfera de atuação, uma mudança nos pequenos sistemas e nos pequenos poderes: é preciso reformar a política e não corrompê-la ainda mais; minimizar ao máximo as possibilidades de politicagem.

Esse é um momento propício para observarmos nossas próprias atitudes do dia a dia, para termos a consciência da responsabilidade sobre nossas escolhas e a clareza sobre com o que e com quem estamos compactuando. Somente assim poderemos ter a certeza de que não somos nós mesmos os vilões da Elite da Tropa, tão bem desmascarada por Tropa de Elite.