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A dissonância das vaias

por Alexandre Freitas — publicado 19/10/2010 14h00, última modificação 19/10/2010 14h11
Vaia em espetáculos de ópera não mais uma lenda para o colunista Alexandre Freitas. Em "Otello de Verdi", versão concerto, no Théâtre des Champs Elysées, em Paris, o ato se concretizou

Eu sei que isso acontece, mas confesso ter sido apanhado de surpresa. Há algum tempo comentei, neste mesmo espaço, que o público atual de música clássica só se irrita quando há atraso ou alguém desembrulha uma bala na fila da frente. Referia-me a concertos, sinfonias, música orquestral em geral. Em ópera, já tinha ouvido falar que, às vezes, ouviam-se vaias na platéia. Até sábado passado, porém, me parecia uma lenda.

Otello de Verdi, versão concerto, no Théâtre des Champs Elysées, em Paris. Fui sem nenhuma preparação, não conhecia muito bem a obra, cheguei no último momento e só sabia que o papel de Desdemona seria interpretado por Anja Harteros. O programa estava muito caro. Antes da apresentação, surge um rapaz sem microfone e nos anuncia uma alteração no elenco, Franco Farina substituiria Ben Heppner no papel de Otello. Parece que foi o que ele falou, não ouvi bem. Ouve certa indignação no ar, de qualquer forma.

Nos primeiros acordes da orquestra, e nas primeiras notas do coro, já dava pra ver que ouviríamos uma boa interpretação. Descobri mais tarde se tratar da Mahler Chamber Orquestra, sob direção de Daniel Harding. Entendi porque soava tão bem. Entra o Otello da noite e, para o seu primeiro e curto solo, bem agudo, ouço algumas vaias difusas. Sentia-se peso da idade no cantor. Seus agudos não tinham a segurança que já tiveram (não o conhecia, mas digo isso sem medo de errar). E seu vibrato era um pouco geriátrico, sejamos honestos. Mas ele dominava o métier, dava pra ver. As intenções musicais estavam lá, mesmo que os recursos para realizá-las limitavam-se às regiões central e grave. De qualquer maneira, em um tenor verdiano, problema no agudo é algo grave (com o perdão do trocadilho). A cada nova aparição do mouro de Veneza, novas manifestações de repúdio.

A Desdemona estava maravilhosa, os outros personagens cumpriam suas funções corretamente, o pequeno grupo de crianças era fantástico. Da orquestra, já falei.

Fim do primeiro ato. Intervalo. Sai a orquestra. Entra a orquestra. Retorna Daniel Harding, o maestro. Vaias. E fortes. Meu Deus! São todos surdos ou sou eu? Será que é porque falhou uma nota na trompa? Será que não sabem que o trompista sempre erra? Ou será que as pessoas pareciam estar gostando de não gostar da ópera? Tive esta impressão.

“Emília, nuvens ofuscam a razão de Otello!”, exclama Desdemona em um momento do segundo ato. Otello perdia a razão no palco e o público a perdia também, quando não conseguia separar as coisas. Ou então o velho Otello, sem se dar conta, agia como Iago e ofuscava os olhares e ouvidos de seu público. Vai saber...

Fim da ópera. Anja Harteros é ovacionada. Ufa! Entra Franco Farina. O previsível se concretiza. As pessoas se manifestam sem pudores. Sentia-me meio constrangido e, tanto para aliviar essa sensação quanto para me vingar do público que vaiou o maestro, grito bem forte: Bravo! Repito algumas vezes. Mais vaias. Seriam para mim também? Não sei. Só sei que recebi inúmeros olhares de reprovação.

Não é uma lenda. Os uivos perseveram no mundo da ópera. Harteros escapou, Harding, coitado, não saiu ileso.