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Cultura

Crônica do Villas

A Diarista

por Alberto Villas publicado 06/02/2014 09h20, última modificação 06/02/2014 09h25
Hoje, tantos anos depois, acordei com uma saudade danada de uma boa faxineira

Edna é que era mulher de verdade. Faxineira dos meus tempos de primeiro casamento, seguiu comigo na carreira solo e ainda por alguns anos no segundo. Com ela não tinha tempo ruim. Podia chover canivete, cair o mundo ou ponte desabar. Greve de trem, greve de ônibus, nada abalava Edna. Sexta-feira, sete horas em ponto não tinha erro, ela apertava a campainha da minha casa com uma disposição de meio-dia. E olha que ela morava longe. Vila Brasilândia, Paraisópolis, Ermelino Matarazzo, não me lembro bem, faz muito tempo.

Trocava de roupa rapidinho, tomava um cafezinho puro e partia pras louças na pia. Seu material de trabalho era basicamente sabão de coco, uma bucha, uma garrafa de água sanitária, um limpa-vidros e um vidro de Pinho Sol. Não adiantava eu querer vir com novidades que ela não estava nem ai. Nada de Vanish, Mr. Músculo, Pato, Veja X-14, Mon Bijou, essas coisas que existem hoje, nada disso. Dizia que era pura bobagem, só propaganda. Ah, na verdade, Edna gostava também de Polyflor perfume lavanda.

O telefone de Edna era de recado, numa época em que ninguém tinha celular e faxineira - que hoje é chamada de diarista - nem sonhava com um telefone fixo. Mas eu nunca precisei ligar pra vizinha da Edna porque ela sabia que sexta era dia de faxina na minha casa e jamais faltou. Além de chegar às sete, só ia embora lá pelas oito horas da noite, quando considerava que o nosso pequeno apartamento estava um brinco.

Quando a gente chegava de madrugada do trabalho, nosso lar estava mesmo brilhando. Ela lavava o banheiro, a cozinha, a varanda, passava o aspirador, colocava tudo em ordem. Mas isso não era nada. Limpava os lustres, os vidros das janelas, as paredes, as fechaduras das portas e quando tinha roupa pra passar, passava tudo muito bem passadinho e ainda guardava nos armários.

Lembro-me bem que Edna gostava de colocar uns paninhos bordados que herdei da minha mãe por debaixo de todos os enfeites. Que capricho! Arrumava os vinis na estante, ajeitava os livros que estavam fora do lugar e regava todas as plantas. As violetas, as avencas, a samambaia, a hortinha no balcão e a árvore da felicidade. Era tão caprichosa que tirava todas as folhas secas das plantinhas, uma por uma, deixando apenas as verdes.  Durava uns dois, três dias aquele cheirinho bom que Edna espalhava  toda semana pela nossa casa.

Ela se divertia com os casos de diaristas que eu colecionava e gostava de contar. Chorou de rir no dia em que contei a história dos cds. Um amigo meu chegou em casa e encontrou todos os cds ariados e dependurados no varal na lavanderia. Do Police ao Cure. De Laurie Anderson a Cindy Lauper. A diarista não conhecia a novidade e achou que, meio sujos e fora das embalagens plásticas, precisavam de uma boa limpeza. Ariou todos e dependurou com pregadores no varal.

Um outro amigo contou que um dia chegou em casa e encontrou as quatro bocas do fogão acesas e nenhuma panela no fogão. E antes que ele perguntasse alguma coisa, a diarista já foi adiantando.

- Prefiro assim pra não ficar gastando fósforo.

Mas Edna, que tinha um português perfeito, tipo “deixei a porção de carne que sobrou no freezer”, se divertia mesmo com o caso da diarista de uma amiga minha do Rio que um dia deixou uma lista de compras presa num imã na porta da geladeira. Um dos itens era uma “franela”. Minha amiga, pacientemente, escreveu “flanela” num pedacinho de papel e mostrou pra ela como é que se escrevia. E a diarista:

- Engraçado. A gente escreve de um jeito e fala de outro.

Mas como o tempo passa, um dia Edna teve que deixar o emprego de diarista. Cansada de guerra, foi cuidar da sua vida. Foi uma tristeza só saber que ela estava se aposentando e que nossas sextas-feiras nunca mais seriam as mesmas. Não foram mesmo.