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Cultura

Encontro literário

A crônica suja de um politicamente incorreto

por Leonardo Calvano — publicado 24/05/2011 15h46, última modificação 27/05/2011 13h42
"Alguns escritores não descrevem o sexo porque têm medo. Acho que existe um sentido muito extenso neles do pecado", diz Pedro Juan Gutierrezé a Leonardo Calvano. Foto Nelson Mello/Divulgação Revista Cult
A crônica suja de um politicamente incorreto

"Alguns escritores não descrevem o sexo porque têm medo. Acho que existe um sentido muito extenso neles do pecado", diz Pedro Juan Gutiérrez a Leonardo Calvano. Foto: Nelson Mello/Revista Cult

Pedro Juan Gutiérrez é sem dúvida um animal literário. Brindou o 3º Congresso Internacional de Jornalismo, no Sesc Vila Mariana, com seu bom humor e simplicidade.

Depois, nos deu a honra de uns tragos no botequim literário mais conhecido de São Paulo. Lá conversamos sobre literatura, viagens e política mundial. Hoje com 61 anos, vive entre Madri, Tenerife e Havana.

Bebe bem menos do que antes, como era de costume no auge da sua criação, e admite que o rum e o tabaco foram o motor para escrever algumas das suas principais obras, como Trilogia Suja de Havana, O Rei de Havana e Animal Tropical.

“Nunca pensei em escrever por dinheiro, era uma catarse para sair um pouco da realidade nos difíceis anos que foram os de 1990 em Cuba (por causa da crise econômica). Ou escrevia ou tomava uma garrafa de rum e me matava”.

O escritor cubano nos adiantou que escreve um novo livro, ainda sem prazo de lançamento, que contará a história de um exilado em Madri e Tenerife. E diz ser fã assumido de Cortázar e Kafka. “Comecei a ler Metamorfose aos 13 anos, mas não terminei, achei muito perturbador. Consegui terminar só depois dos 40”, conta.

É notório na sua produção literária que os seus escritores preferidos não interferiram em nada. “Nós amamos os deuses, mas não os imitamos. É melhor que imitemos os demônios”.

Seu estilo é próprio, fruto de experiências e do olhar observador que colocou sobre a decadência urbana que vivia Havana naqueles anos. “Vivia na rua e encerrava no quarto, era uma espécie de masturbação romântica quando criava personagens e os dava vida. Observava o Malecón, a zona portuária, as prostitutas, conversava com travestis e com os boêmios”.

Toda aquela decadência fez emergir um gênio da literatura latino-americana, um politicamente incorreto, que deplora o correto, a que chama de hipócrita, e descreve o sexo como poucos, sem culpa.

“Alguns escritores não descrevem o sexo porque têm medo. Acho que existe um sentido muito extenso neles do pecado. Isso incomoda, porque nós somos mamíferos. Nós não somos caracóis, nem peixes”.

Para ele salvam-se poucos, como Enrique Vila e Michel Houllebeq.

Hoje, adepto do budismo, está mais reflexivo do que imediatista e parece deixar para trás o realismo sujo que o tornou conhecido. "Minha vida sempre foi muito intensa, mas é um imperativo da natureza. Aos poucos você vai se tranquilizando, vai controlando um pouco o álcool, o tabaco. Sinto que já não tenho necessidade de escrever cenas sexuais tão carnais."

Infelizmente, só agora seus livros começam a ser publicados em Cuba, mas já são conhecidos de muitos pelas vias clandestinas. Antes tarde do que nunca. Reclama dos EUA, onde alguns de seus romances não são traduzidos. "Não se atrevem a me publicar, são muito puritanos, ficam ofendidos com minhas histórias", conta, sorrindo.