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A conquista do Corinthians começou contra o Tolima

por Matheus Pichonelli publicado 05/07/2012 11h16, última modificação 06/07/2012 09h07
Além do técnico, oito campeões titulares estavam em campo na eliminação de 2011. É a prova de que paciência e coerência ganham jogo
Alessandro ergue o troféu - Corinthians x Boca

O capitão Alessandro, sobrevivente do tropeço em 2011 e um dos líderes do time vitorioso de 2012. Ale Vianna/Folhapress

A conquista da Taça Libertadores da América pelo Corinthians, único time entre os grandes de São Paulo que ainda não havia chegado lá, começou em 1º de fevereiro do ano anterior, quando o árbitro uruguaio Roberto Silveira apitou o fim da partida contra o Tolima. Era a frase pré-grupos da competição em 2011, e a equipe dirigida pelo técnico Tite acabava de ser eliminada de forma surpreendente pelos colombianos.

A derrota por 2 a 0 em Ibagué entrou para o anedotário do clube, que acumulava fama de negar fogo toda vez que encontrava um adversário estrangeiro pela frente. Da defesa à dupla de volantes, o time que estava em campo, à exceção do goleiro Júlio César, hoje reserva de Cássio, era exatamente o mesmo que 17 meses depois enlaçaria feito sucuri o ataque do Boca Juniors em sua primeira final da competição. Ao todo, oito titulares que ontem levantaram a taça estavam em campo na fatídica noite. No banco estava o mesmo treinador, bancado no cargo quando tudo parecia conspirar contra ele.

Pouco antes, na reta final de 2010, o time, já sob seu comando, por pouco não consquistou o Brasileiro – o corpo-mole de adversários já sem pretensão no torneio contra adversários diretos fizera o Corinthians chegar na reta final em desvantagem sobre o Fluminense, que levaria o título.

Visto agora, de longe, a derrota para o Tolima parece um mero acidente de percurso, desses sujeitos a qualquer time de qualquer lugar. Mas isso não parecia tão claro no calor do tropeço. Àquela altura poucos acreditavam que Leandro Castán, Alessandro, Ralf, Paulinho e Fábio Santos seriam nomes adequados para se montar um ferrolho. Ainda sim, o bancado Tite bancou a escalação: manteve a estrutura e a argamassa enquanto a diretoria buscava no mercado materiais compatíveis com a obra até então inacabada. Queimado, Roberto Carlos, que tentava mandar mais que o rei e estava afastado, acabou deixando o clube. Em seguida, pesou o bom senso de Ronaldo, astro do time que já dava sinais de esgotamento físico. O Fenômeno deixava o clube com a imagem levemente arranhada pelo fracasso na Libertadores, mas ainda a tempo de ser lembrado como o grande responsável pela nova fase do clube (em termos de patrocínio, visibilidade e moral com a torcida) nos meses seguintes à volta da segunda divisão.

O time, com o caixa engordado desde a chegada do pentacampeão, tinha tudo para queimar cartucho com um ou outro nome de expressão que substituísse o ídolo. Mas, à exceção de Adriano (de quem se deu ao luxo de dispensar os serviços), o Corinthians priorizou bons nomes já rodados em vez de estrelas supervalorizadas. Chegaram Alex (meia campeão pelo Inter), Liedson e Emerson, enquanto Danilo e Jorge Henrique, jogadores mais táticos que brilhantes, eram mantidos. Nenhum deles parecia ter as credenciais de um Ronaldinho Gaúcho, um Diego Souza, um Fred, um Paulo Henrique Ganso, nomes mais baladados à época, mas eram exatamente o que Tite precisava: tijolo e concreto. Nada de fórmula mágia: era matéria-prima pouco vistosa, mas resistente às intempéries em casos de tempestade.

O projeto era exatamente o mesmo de 2011, e os atletas chegaram aparentemente dispostos a se encaixar num sistema pré-montado no qual os jogadores, compactados (fossem volantes ou centroavantes), deveriam correr e voltar para marcar em bloco o tempo todo, quase sempre atrás da linha da bola. O Corinthians se transformava num time chato para adversários e torcedores: gol era quase luxo, mas o índice de mortalidade era baixo (na Libertadores, a defesa só foi vazada quatro vezes).

Exatamente na mesma época, o rival Palmeiras penava em campo à medida que jogadores como Lincoln e Kleber davam manifestações públicas de desacordo com o esquema de jogo rabiscado por Felipão. Queriam bola no pé, e não fazer parte de um projeto de equipe. Não pensaram duas vezes antes de abandonar o barco.

Enquanto isso, os corintianos corriam na miúda, Tite falava em coletividade (e outros neologismos terminados em “ade”) e todos ressaltavam a ausência de estrelas. Com isso, o treinador obteve um feito notável: montar um esquema híbrido em que a concentração valia tanto para um torneio de pontos corridos, como o Brasileiro vencido ainda em 2011, como em mata-mata, no qual o besteirol esportivo costuma dizer ser necessária outra fórmula, com outros espíritos.

O resultado é uma equipe de fato compacta, composta de operários como Paulinho, o grande meio-campista da atualidade, e dificílima de ser batida, abatida ou desconcentrada. E teve no atacante Emerson uma espécie de expoente anti-Neymar. Sem pedaladas, sem penteados estranhos nem fotos de sunga, ele mostrou ser um atacante frio, provocador e certeiro.

Tivesse valido a lógica do futebol nacional, e atendido aos apelos pela caça às bruxas após o jogo contra o Tolima, o Corinthians certamente levaria muitos outros anos para vencer o título inédito.

Mas Tite teve tempo para trabalhar, digerir os acidentes de percursos e caminhar (isso apesar do clima montado contra ele durante as negociações de salário ao fim da conquista nacional). Foi só então que o Corinthians conseguiu domar a ansiedade e, longe do oba-oba ensaiado por parte da torcida, levar a campo a paciência que faltava para se consagrar campeão da América pela primeira vez em 102 anos – de modo invicto e numa das mais duras edições da competição, com dois rivais brasileiros e um bicho-papão argentino no caminho.

A trajetória daquele time desacreditado de fevereiro de 2011 mostra que, no futebol, paciência e coerência podem, sim, fazer história.

 

 

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