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A claustrofobia da estrada

por Matheus Pichonelli publicado 18/07/2012 18h41, última modificação 06/06/2015 16h55
Impressiona no filme de Walter Salles que, apesar da fotografia, a postura libertária seja assumida sempre em ambientes fechados
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Em Na Estrada, personagens cruza o país para seguir vivendo em ambientes claustrofóbicos.

De tudo um pouco já foi falado sobre Na Estrada, o filme de Walter Salles baseado em On The Road, de Jack Kerouac. Isso muito antes da estreia, na semana passada. Mesmo assim, não poderia deixar de registrar algumas impressões. Espero que em tempo:

A primeira é: sim, Walter Salles conseguiu transformar uma história complexa e intimista num belo filme. Lançaram a ele uma bola quadrada e ele a entregou redonda, algo que nem Godard e Gus Van Saint se dignaram a tentar. A bola foi devolvida com atuações e diálogos belíssimos - embora o filme fique cansativo depois de tantas idas e voltas (dá a impressão de que sobram nele cerca de 30 ou 40 minutos de exposição);

Não era à toa a hesitação em migrar o livro de Kerouac para as telas. Por mais original que fosse a história na época de sua publicação, o formato e a profusão de transgressões na ficção já pareciam pulverizados em muitos outros trabalhos, não só no cinema. Tirar algo original daí é sempre tarefa inglória, mas foi aceita e bem conduzida;

No cinema, como na vida, só mesmo uma longa viagem (ou várias) para se provar até onde vai a corda de uma amizade. No terceiro dia, qualquer segredo vira pó. A paciência, idem. É aí que mora o perigo: a ninguém é dado conhecer mais a gente do que a gente mesmo. E a câmera é a maior delatora dessa transformação. (Mas meu favorito ainda é E Sua Mãe Também, do mexicano Alfonso Cuarón);

A fotografia de Na Estrada é, de fato, preciosa, mas quase dispensável. Explico: o que chama a atenção no filme é justamente o fato de os espíritos claustrofóbicos da juventude americana (que vê o mundo pela janela e se ressente de não viver) não serem extravasados ao ar livre, mas sempre em automóveis, cabanas, quartos de casas estranhas, bares fechados ou hotéis asfixiantes, sujos e encarcerados. Como em 2012, mudam-se os endereços, segue a ânsia, e ela não se dissolve na primeira dose;

Impressionam também os detalhes captados pela câmera, como o esmalte nas unhas de Marylou (Kristen Stewart) que são consumidas como os próprios personagens, o suor das camisas durante as danças ou a sujeira acumulada nos corpos à medida que a aventura se estende;

Muitos rejeitam o livro por não ver sentido na metalinguagem: um escritor narrando o ofício de escritor talhado na vivência de coisas simples. On The Road é um livro para quem tem interesse em escrever (não necessariamente escritores). Quem tem vocação apenas para leitor costuma rejeitar sua fórmula. O filme, portanto, corre o risco de ser lembrado como um filme para quem gosta ou pretende escrever. Ou transformar literatura em cinema. Daí o ponto alto da obra: quando Sal Paradise confunde sua fome com a vontade de escrever, e sai à rua à cata de restos de papeis, lápis ou cigarros para se saciar;

Dean Moriarty (Garrett Hedlund), líder do grupo, é o grande personagem da história. É o macho-alfa disposto a manipular amantes e amigos para chegar aonde quer sem muito (ou só algum) esforço. Em 2012, seria o chato do fundo da sala contra quem a professora deve contar até dez para não mandar para fora nem encher o sujeito de tabefe. Hoje em dia, seria preso (apreendido?), dopado com antidepressivos (ou sossega-leões contra hiperatividade), ou assassinado pela mulher ou pelos maridos ou amigos traídos antes de chegar aos 18 (leia mais no Mapa da Violência 2012);

Um alerta: se o filme virar cabeças e corações, logo será hype subir a BR-101 para matar aula. Vai ser uma espécie de Curtindo a Vida Adoidado indie. As operadoras de turismo vão ter de incluir no pacote da excursão para Porto Seguro, ao fim da terceira série, a opção “viagem por terra”;

Curioso: este é o primeiro filme que faria Rê Bordosa ter inveja dos adolescentes dos anos 1940. Rolava de tudo naquela época anterior à explosão do rock, da revolução sexual, das festas liberais (caríssimas) e das repúblicas no interior. E o fantasma da Aids só daria as caras na geração dos netos;

Por fim, algumas cenas podem até chocar (ou deixar o telespectador com vontade de rasgar o uniforme e pegar o próximo bonde para Denver). Mas no Recife de Cláudio Assis a bela Kristen Stewart seria a moça mais comportada de toda a festa.