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A classe média sofre

por Matheus Pichonelli publicado 26/10/2011 18h12, última modificação 02/05/2013 11h37
Longa sobre família comum paulistana transita entre o drama e o terror ao retratar uma realidade cercada de crise, exploração e idiotas

Não se sabe quando teve início nem quando se banalizou. Mas o processo de idiotização da classe trabalhadora está de tal maneira incorporado nas ruas das nossas cidades que, de vez em quando, alguém precisa falar sobre o assunto e lembrar que a coisa está feia. No cinema, as duas principais tragicomédias que conheço sobre a crise – não só da economia, mas de ideias para se encarar a crise – são “O Grande Chefe”, de Lars Von Trier, e “A Era da Inocência”, de Denys Arcand. Dois filmaços sobre como fingir estar tudo certo mesmo quando tudo desmorona, e um prato cheio para quem já se tocou que, diferentemente dos guias de auto-ajuda, ninguém vai mudar nada no mundo pensando positivo, criando métodos de motivação ou repetindo mantras sobre como podemos ser felizes trabalhando cada vez mais por menos. Ou disfarçando nossa vida de vassalo, de quem come lama e agradece, buscando distração com as viagens no fim de ano.

Mais ou menos na mesma linha vão os também ótimos “Amor sem Escalas” (apesar do título) e “”. Pois no meio da entressafra de filmes brasileiros, que pareciam picados pela mosca da preguiça com títulos insossos (de “Salve Geral” a “”, passando pelos longas inspirados no espírito de André Luiz) acaba de sair uma pérola. “Trabalhar Cansa”, o primeiro longa-metragem da dupla Marco Dutra e Juliana Rojas, é um exemplo raro de como boas ideias não precisam de grandes frufrus para serem originais. O filme, que transita o tempo todo entre a comédia, o drama e o terror, parece beber no realismo fantástico que fez da literatura latina referência na ficção. Só parece: porque tudo ali é idiotamente real.

Mérito dos diretores, que, longe dos barracos erguidos em áreas de risco ou das querelas entre ditadores resolvidas a pauladas, criaram a sucursal do inferno num apartamento comum habitando por um casal aparentemente comum, sem grandes talentos ou ambições além de montar a árvore de Natal no fim de ano, viajar para a praia no carnaval ou conseguir uma empregada para dar conta da bagunça de casa.

Só que um dia o desemprego bate às portas. O que parecia sólido se dissolve no ar – ou é recolhida numa pequena caixa de sapatos com as tralhas de uma baia recém-desocupada. Atordoado, Otávio, o homem da casa interpretado por Marat Descartes, agarra-se ao copo de vinho, ao beijo da filha que acaba de chegar da escola e à compreensão da mulher, que o consola. “Vamos sair dessa”.

Heroica (talvez inspirada nos mantras de medidas anticíclicas para a crise), a mulher Helena (Helena Albergaria) arregaça as mangas e coloca para fora o espírito empreendedor. O sonho se adapta ao bolso e a leva a comprar uma salinha caindo aos pedaços no centro de São Paulo, onde monta um mercadinho simples, de poucos funcionários e muita dor de cabeça.

O sonho americano termina ali. Calma, Helena é daquelas pessoas que parecem incapazes de fazer mal a uma mosca (o olhar dela, inclusive, até parece de uma mosca), mas não demonstra a mesma timidez ao propor à empregada que receba menos de um salário mínimo por mês, sem registro, ainda que o serviço exija que durma na casa, para lavar, limpar, passar, cozinhar e dar de comer para a filha do casal.

A jovem empreendedora leva sua boa vontade para o comércio, mas logo percebe que pisa num território hostil, representado pelo esgoto mal escancarado sob o piso e pela infiltração maquiada pela corretora e pelo dono do imóvel – que a convenceram de que fazia um ótimo negócio. A receita para o desastre, no tempo dos grandes hipermercados, está pronta: Helena não sabe se as coisas não avançam por culpa dos funcionários (eles roubam as mercadorias?), dos fornecedores (eles entregam menos do que cobram?), dos clientes (por que são tão hostis?) ou da concorrência. Mas a desconfiança está ali, e a consome.

A pressão a leva a abandonar o papel de esposa doce do lar. A voz calma e os olhos aparentemente inofensivos dão lugar a pitis, paranoias, cansaços. A mulher que se anunciava compreensiva agora diz ao marido que ele é um “bosta” porque o processo de recolocação no mercado demora mais que o planejado (e que em breve o impedirá de pagar a energia e a escola da filha).

Mais que o drama, o filme capta com uma câmera crua (a fotografia é precária, a trilha sonora não tem música, o cenário é quase amador) a pobreza de ideias que esfola a classe média, vítima e algoz do próprio mecanismo que cria e aceitar jogar, como cordeiros.

Único personagem aparentemente lúcido na trama, Otávio mergulha na crise ao se ver cercado de idiotas. Impactado com a demissão, ele passa a procurar novas vagas, e o que encontra são gerentes de recursos humanos que enchem bexigas pintadas com olhos e boquinhas e representam o chefe direto; na meia idade, é obrigado a participar de um “se vira nos 30 para ficar com a vaga” dizendo à mediadora quais os talentos que imagina ter o jovem concorrente recém-formado; ou participar de palestras motivacionais, encontros para contatos e atividades de um animador de plateia que ensina a liberar “o animal” dentro do terno e da gravata e a não desanimar jamais.

É como se o Xou da Xuxa, que a olhos adultos parecia show de horror (com luzes, clichês, gincanas, bola, balão e bambolê) fosse transportado para os postos de trabalho, onde homens de barba já não precisam lutar pela sobrevivência, mas para convencer a gerência que é dócil o suficiente para merecer estar vivo.

É hilário, mas duramente real. Diante da crise, que estraçalha o empregado e também o pequeno empreendedor, o mundo se infantiliza para evitar, talvez, desistências coletivas. Mais que isso: como matrioshkas (aquelas bonecas russas que saem umas de dentro das outras), a teia de exploração se reproduz nas pontas – o mercado explora o trabalhador, que explora as empregadas, que transgridem as regras porque simplesmente não existem regras sem juiz nem carteira de trabalho nem mercado regulado. É quando a cobra morde o próprio rabo, e já não se sabe se os atores se tornam algozes porque desprezam as regras do jogo ou porque simplesmente as aceitam.

Ao fundo, é possível ouvir as palavras de Marina Colasanti que, certa vez, resumiu os perigos de se acostumar demais a uma vida medíocre. “E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão”.

Amplidão que parece ausente em todos os cantos daquela casa e daquele mercado fadado ao desastre.