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Cultura

Crônica / Matheus Pichonelli

Inside Llewyn Davis: a classe artística sofre

por Matheus Pichonelli publicado 21/03/2014 10h35, última modificação 26/03/2014 17h55
Entre a espera do aplauso e o medo da vaia, a figura pública está sempre diante de uma questão: o que está disposta a ceder em nome do espetáculo?
Inside Llewin Davis

Cena de Inside Llewin Davis - o jovem artista está o tempo todo sob o crivo da pergunta: o que você está disposto a ceder para tocar a sua música?

A indústria fonográfica comemorou, no último dia 7 de fevereiro, os 50 anos da primeira turnê dos Beatles aos Estados Unidos. A excursão, que teve início em Nova York, durou 34 dias, rendeu 32 shows – um deles em um programa de tevê assistido por 73 milhões de espectadores – e movimentou aproximadamente 7,5 milhões de dólares.

Os detalhes da viagem estão narrados no documentário Imagine: John Lennon, de Andrew Solt. Ali, mais do que o registro da histeria dos fãs, chama a atenção o número de entrevistas que os quatro músicos tiveram de conceder durante a viagem. Estavam todos ricos e famosos, mas o embaraço diante do pelotão de fuzilamento em forma de entrevistadores era evidente. Em uma dessas ocasiões, um repórter questionou: “qual o segredo do sucesso de vocês?”. “Não temos a menor ideia”, respondeu, enquanto tentava arrumar uma desconfortável gravata, um despenteado John Lennon. “Se soubéssemos estaríamos gerenciando bandas, e não cantando”.

A resposta, de ironia quase insolente, tinha um fundo melancólico. Os jovens de Liverpool, talvez ainda inebriados pelo sucesso, admitiam não ter ideia de como chegaram até ali, mas o seu estafe sabia. A recompensa, não apenas financeira, parecia destinada a quem assistia ao espetáculo em salas confortáveis sem precisar dar a cara a tapa. As cobranças, a histeria, os aplausos, as vaias, as viagens, o confinamento em hotéis e aviões, as poses para fotos, a paciência para entrevistas, as distancias, a preservação do corpo e da voz, os ensaios, o dever de se suportarem e se entenderem e o desgaste de carregar os instrumentos e tirar deles a máxima expressão artística e ainda sorrir sobre o palco eram de quem estava na linha de frente, mais ou menos como um soldado que vence a guerra e perde a juventude – a diferença é que este, via de regra, morre pobre e anônimo.

No caso da maior banda que já existiu, a guerra durou cerca de dez anos e até hoje a principal pergunta sobre o fenômeno não é o segredo do sucesso, mas o que teriam sido capazes de produzir se tivessem permanecido juntos por mais dez, vinte ou trinta anos. Essa distância entre o que foi feito e o que poderia ter sido é, provavelmente, um dos fardos mais pesados sobre as costas de um artista. Ou de um esportista de alto rendimento. Dela decorre uma questão subentendida: “o que você está disposto a fazer para corresponder a este público sedento por sangue?”.

No filme Inside Llewyn Davis – A Balada de um Homem Comum, dos irmãos Joel e Ethan Coen, o protagonista interpretado por Oscar Isaac esbarra o tempo todo com esta pergunta. Llewin é um cantor de folk em busca não do sucesso, mas de um trabalho. Como no mundo artístico as duas coisas estão relacionadas, já que não haverá trabalho se não houver sucesso, Llewyn é empurrado a uma vida de desapegos. Sem ter um pedaço de chão para chamar de seu, passa parte do filme a perambular na casa dos amigos para conseguir um abrigo e um sofá. Depende de caronas para se movimentar. Sabe onde acordará, mas nunca onde irá dormir. E está o tempo todo a penar para conseguir espaço em casa de shows e royalties dos discos que vendeu. O ascetismo é pré-condição de um objetivo: viver da música – ou, como ele chega a manifestar, viver da arte para não apenas subsistir.

Llewyn é a manifestação de uma onda que, no meio dos anos 1960, passou a lutar contra um destino pré-desenhado: seguir o exemplo dos pais, trabalhadores braçais de fábricas ou repartições. Questionadores, criativos e pouco atraídos por uma rotina regular, eles queriam, em vez disso, romper a lógica do trabalho reificado. A dificuldade era criar uma medida de valor para a mão-de-obra empregada ao trabalho imaterial – portanto vulnerável aos humores da crítica, do público e dos patrocinadores. Uns estouraram nas rádios, nas galerias, nos esportes e nas inovações tecnológicas. Outros aceitaram a vida das repartições. Outros tiveram vida longa como artistas porque, a certa altura, absorveram a lógica do funcionalismo-padrão para se manter no topo (Roberto Carlos e o seu especial na Globo estão aí pra isso). Outros simplesmente desistiram.

Mas o que faz de Llewyn Davis um Llewyn Davis e de um Bob Dylan um Bob Dylan?, questionam os diretores num relance do filme.

Quase tudo ou quase nada. (Em tempo: o ciclo contínuo de sorte, acaso e maldição é central na obra dos cineastas, caso da mala de dinheiro que liberta e aprisiona o personagem de Josh Brolin em Onde os Fracos Não Tem Vez ou dos documentos ultra-secretos que levam ao quiproquó em Queime Depois de Ler).

Em certo momento, Llewyn empreende uma viagem de Nova York a Chicago com o objetivo de se apresentar em uma grande casa de shows. Joel e Ethan Coen mostram como esta travessia é turbulenta. “Este carro pode te levar para onde você quiser, mas não é você quem o guia”, parecem dizer. A travessia é tão fria quanto o cenário externo, de neve e tempestades. Dentro do automóvel há um cantor de jazz, sonolento e à beira de uma overdose que não faz a menor questão de esconder o quanto despreza o folk do parceiro de viagem. Na direção há um motorista frio, seco e silencioso interpretado por Garrett Hedlund – por contraste, o mesmo ator que protagonizou o explosivo Dean em Na Estrada, filme de Walter Salles baseado na obra de Jack Kerouac. É como se Llewyn estivesse sempre entre dois silêncios e/ou indiferença: do público a ser conquistado e dos pares concorrentes.

O carro serve até certo momento. A certa altura é preciso deixá-lo para trás, e essa travessia dentro da travessia exige escolhas, representadas pelo gato que, por um duplo descuido do destino, cai no seu colo. A figura do gato, escorregadio mas dependente, não é menos simbólica: é preciso uma dose de irresponsabilidade para não congelar em um destino desenhado, e é por isso que Llewyn abandona não só o gato pela estrada, mas também os amigos, a família, os amores, os filhos que não pode (ou não quer) carregar. (Não por coincidência, a temática das suas músicas é sempre relacionada a perdas, como um compositor brasileiro que a certa altura da vida gritou: "os amores que a vida me trouxe eu não pude viver").

Tudo para quê? Para adentrar em um mundo também gelado, indiferente, sonolento, envelhecido e pragmático que diz o tempo todo: “a sua música não vende”.

O sonho, descobre o protagonista, só tem sentido se tiver valor de mercado, como qualquer produto fabricado pela mão-de-obra servil que ele se negava a reproduzir. Ao longo do filme, Llewyn se depara com uma série de condicionantes para poder simplesmente trabalhar. Deve, por exemplo, se contentar em fazer letras alegres e acessíveis (bobinhas, para alguns). Ou aceitar cantar em segunda voz e correr o risco de desaparecer como coadjuvante. Ou fazer vistas grossas com as regras não declaradas de um jogo sobre o qual não existe almoço – nem destaque na casa de shows – grátis. Neste espaço não há lugar para gatos.

Parece contraditório: como dar vazão a uma criatividade latente com tantas amarras?

Entre tantas concessões ao candidato à figura pública, a maior delas talvez seja a exposição a um público que, como em uma arena romana, se satisfaz ao ver o resultado do sacrifício do artista ao seu bel-prazer, enquanto acompanha o espetáculo sentado no sofá ou na arquibancada com uma lata de cerveja e grita para o soldado que não correspondeu em campo ou no palco: “Vagabundo”, “Preguiçoso”, “Mercenário”, “Baladeiro”, “Gordo”, “Bicha”, “Filho da p...”

Não por acaso, quando se vê como espectador e não mais como artista, Llewyn lança mão do recurso para agredir, com vaias e sarcasmo, uma cantora que se apresentava diante dele. No preço do espetáculo está embutido o direito à ofensa.

Ao sair da sessão, lembrei dos muitos Llewyn Davis que não aceitaram esta subjeção. Ou aceitaram até determinado momento. Ou aceitaram mais do que deveriam e, em troca, caíram sem volta em uma espiral de autodestruição – muitos não chegaram aos 28 anos.

Comecei pelos próprios Beatles – que naquela turnê aos EUA já diziam o lógico: se soubéssemos o que agrada ao público, conduziríamos, não seríamos conduzidos – e terminei com uma lista de atletas que, apesar de consagrados, jogaram muito menos do que poderiam (para não falar dos tantos talentos que, quando a estrada bifurcou, ignoraram o chamado dos deuses do Olimpo e optaram pelo caminho dos reles mortais, no qual se pode domesticar os seus gatos e seus caprichos em paz).

Se o preço não fosse tão alto, pensei, o atacante Ronaldo, para ficar em um só exemplo, estaria prestes a disputar, em 2014, a sua sexta Copa do Mundo (com quatro, ele se tornou o maior artilheiro de todas elas). Decerto ele se cansou de ser flagrado, ele e sua protuberância epidérmica, com cigarro, bebida e mulheres até quando ia à praia, enquanto perdia a maior e melhor parte da juventude trancafiado com os colegas em hotéis de concentração e compromissos com treinos, patrocinadores e treinadores, espécies de tolhedores de vocações a pedir aos seus comandados para voltar e marcar.

Como Llewyn Davis, tudo o que se quer às vezes é exercer (ou profanar) o próprio talento em paz, sem ouvir a cada minuto o que vende e o que não vende, o que pode e o que não pode. A fama e a consagração podem encher o bolso, mas não valem a chance de aplicar um peteleco no castelo de cartas e mandar tudo às favas, inclusive a espera pelo aplauso e o medo paralisante da vaia.