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A beleza na decadência

por Gabriel Bonis publicado 26/07/2013 09h19, última modificação 26/07/2013 15h42
O fotógrafo suíço Timm Suess flerta com a poesia retratando paisagens abandonadas e locais em declínio
Tim Suess / Flickr / Creative Commons
Pripyat.jpg

Praça Lenin na cidade fantasma de Pripyat, próxima a Chernobil

A decadência pode ser bela. E a poesia pode viver no vazio de um local transformado por anos da ausência de humanos. Ao menos ao olhar do fotógrafo suíço Timm Suess. Fascinado pelo processo do tempo nas edificações da sociedade, o artista retrata paisagens abandonadas e locais em declínio. “Somos muito ruins em imaginar o que acontece em um longo período. Locais abandonados permitem entender esse processo. E, às vezes, fotografar um lugar assim é como criar um memento mori de uma pessoa morta, uma última memória, um último respeito.”

Suess retratou fábricas, prédios, minas, cidades. Fotografou, entre muitos outros locais, na França, Itália, Ucrânia e Suíça. Locais que dividem algo ausente em todos eles: pessoas. “Essa ausência transforma um lugar. É possível sentir o vazio deixado para trás”, conta a CartaCapital. “Não acredito no sobrenatural, mas entendo quando as pessoas dizem sentir a presença ou o poder de um local.”

O interesse na decadência estrutural das paisagens vem do gosto pela batalha entre estruturas humanas artificiais e os processos da natureza. A ideia de registrar esse conflito físico, por outro lado, surgiu das viagens. No começo, ele retratou os detalhes de portas antigas e estruturas de estações de metrô. “Um dia, um amigo me levou a uma mina abandonada. Foi quando soube que queria fotografar locais como aquele.”

Os projetos ganharam ambição e Suess ficou conhecido por um ensaio fotográfico em Pripyat, cidade ao norte da Ucrânia abandonada às pressas após a explosão do reator da usina nuclear de Chernobil em abril de 1986. Em 2009, Suess viajou mais de dois mil quilômetros desde sua residência na Suíça até Pripyat. As fotos foram publicadas por veículos como Examiner, WIRED Itália, Nature, The Sun, Sunday Times Magazine e The Atlantic.

O desastre espalhou uma nuvem de radiação por parte da Europa e transformou a cidade em uma área de exclusão permanente. A radiação emitida foi cerca de 100 vezes superior à liberada pelas bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki. Mais de 25 anos após a evacuação dos quase 50 mil habitantes, Pripyat é uma cidade fantasma atingida pelos efeitos do tempo e da radiação. “Sou fascinado pelo acidente de Chernobil. Lembro do noticiário dos jornais quando era criança e pouco depois minha própria cidade foi afetada pelo acidente.”

Suess visitou 20 locais nas regiões de Pripyat e Chernobil. Passou por hospitais, escolas, bombeiros, apartamentos, hotéis e cinemas. Todos em ruínas e ainda com a lembrança da presença humana. “Esses locais são fascinantes porque são grandes, foram evacuados rapidamente e quase ninguém vai lá. Isso os torna uma capsula do tempo da Ucrânia Soviética de 30 anos atrás.”

Os retratos do suíço mostram uma cidade decadente de ruas tomadas por árvores e cores bucólicas. Nos dois dias em que esteve na zona de exclusão, o fotógrafo não viu nenhum animal, nem mesmo insetos. “Mas pelo que ouvi a vida selvagem é bem ativa, e a zona de exclusão de Chernobil parece ter se tonado uma espécie bizarra de parque nacional.”

Suess se protegeu dos raios alpha e beta com roupas grossas e máscara facial dentro dos prédios. Já contra os raios gama, que atravessam qualquer material exceto chumbo, precisou se manter longe dos locais com maiores índices de ionização. “Era um lugar muito triste, solitário, extremamente quieto. E a radiação me fez sentir um pouco claustrofóbico. Não dá para se afastar disso, está ao seu redor e você está preso ali.”

O fotógrafo conta ter se sentido especialmente triste ao visitar as escolas da cidade. Viu centenas de máscaras respiradoras espalhadas pelo chão, brinquedos abandonados em salas de aulas e bolas furadas no ginásio. “Tinha tantas memórias de crianças ali. Em uma parede, achei várias pequenas fotos de passaportes para crianças, e ainda me pergunto o que aconteceu com elas.”

As sensações, diz, mudam a cada lugar decadente visitado. Em geral, Suess sente-se como visitante, mas algumas vezes como intruso. “Alguns são como catedrais, alguns são amigáveis, outros são tristes ou até ameaçadores. Certa vez, fui a uma planta de tingimento altamente contaminada na Itália, na qual não me senti acolhido.”

Os locais abandonados podem ser perturbadores, mas Suess diz não ter medo de visitá-los. Ele os encontra com uma combinação de pesquisa, busca aplicada e pura sorte. O Google Mapas também ajuda muito, confessa. “Além de Chernobil, o lugar mais interessante que visitei para fotografar foi uma mina de potássio abandonada na França. Era repleto de corredores gigantes, quartos estranhos e máquinas absolutamente fascinantes.”

Com seu trabalho, Suess tenta mostrar a batalha entre o caos e a estrutura, a natureza contra as pessoas e a passagem do tempo. Mas, apesar de retratar espaços onde há anos não entra uma pessoa, ele raramente vai sozinho às locações. “É como mergulho ou escalada, é mais seguro fazer em grupos. Nunca se sabe quando você pode quebrar uma perna.” E precisar de um humano.

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