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A beleza do trajeto

por Camila Alam — publicado 08/10/2010 10h17, última modificação 08/10/2010 10h17
Entre uma corrida e outra, o taxista Antonio Miranda exercita uma paixão: a fotografia

Entre uma corrida e outra, o taxista Antonio Miranda exercita uma paixão: a fotografia

Foi no bairro paulistano da Vila Madalena que Antonio Miranda nasceu, viveu e se dedicou ao trabalho de taxista, ofício que sustenta mulher e dois filhos. Graças ao bairro, também, deu chance a um desejo antigo, e se tornou fotógrafo. Hoje, aos 49 anos, firma ponto na esquina das ruas Wisard e Fradique Coutinho. Esta última, testemunha de sua infância vivida em casarão cercado de jabuticabeiras, numa época em que via o bonde passar e a Vila estava longe de ser uma das predileções da boemia paulistana.

Recheado de artistas e estúdios fotográficos, o bairro trouxe ao banco de trás de Miranda alguns profissionais que o ajudaram nas primeiras experiências, por volta de 2006. Assim deixava de lado o radioamador, outra paixão. Curioso e atento à fotografia desde a adolescência, o motorista perguntava, pedia dicas e era atendido. Aprendeu sobre lentes, fotômetros, filtros. Ganhava livros e elogios, mas com as críticas aprimorou o olhar. Fez do seu sustento sua escola, seu estúdio e sua divulgação.

É um fotografo à moda antiga. Seu equipamento predileto é uma Yashica Lynx-14, modelo encontrado depois de percorrer feiras de antiguidade como as da Praça Benedito Calixto e a do bairro do Bexiga. “Tava lá jogada.” Protegida em uma bolsa térmica, a pequena máquina – originalmente lançada em 1965 – e seus rolos de filme acompanham o taxista pela cidade, bem escondidos embaixo do banco do motorista. O manual de instruções foi encontrado na internet e o aprendizado veio “na raça, fazendo experiências”.

Prédios antigos, árvores retorcidas, reflexos da urbanização. Os objetos que -atraem o taxista passam diariamente por sua janela e são devidamente observados. Se, durante uma corrida, um ambiente lhe chama sua atenção, Miranda segue ao destino. Mas deixa o passageiro e volta para fotografar o que quer que seja. São nas viagens mais longas que cliques descompromissados acontecem fora do táxi. Seu primeiro ensaio surgiu depois de deixar uma passageira em um convento próximo à cidade de São Paulo. “Me chamaram a atenção no caminho as árvores com troncos exóticos, retorcidos, gramados e ensaios de sombra e luz. Eu fiquei lá fotografando, até as freiras me colocarem pra fora.”

Agora também olha para a cidade, buscando arquitetura antiga, escadas diferentes. Gosta de cemitérios, onde se inspira na arte tumular. No Cemitério da Consolação, onde é preciso autorização para fotografar, já foi expulso algumas vezes, “mas eles são educadíssimos”. No centro velho, começou o projeto que chamou “Cidade dentro da Cidade”, série dedicada aos prédios antigos e aos moradores de rua que dormem aos seus pés. Iniciado o trabalho, ainda não conseguiu terminar. “Me abalou demais. Quem tem olhar e consegue ver esses problemas sabe que vivemos numa cidade de mentira. A política assistencial é mentira, a prefeitura é uma farsa.”

Em uma das poucas inserções ao retrato, Miranda conheceu o morador de rua Giovani. Sem a Yashica à mão, registrou o rosto do mendigo com o celular, que possui uma câmera simples de três megapixels, cuja ampliação da imagem pode chegar a 30x45. “Acho que colocaram a lente errada aqui”. Desde então, sai registrando tudo no celular, imagens que depois posta no blog que criou com a ajuda de fotógrafos amigos da Vila Madalena (http://mirandataxifoto.blogspot.com). “De computador não entendo nada. Montaram o blog e me ensinaram a atualizar.” Miranda também não usa photoshop ou qualquer programa de tratamento de imagens. “Minha essência é a simplicidade, não tenho recursos para fazer foto.” No celular, consegue utilizar ferramentas básicas e automáticas para mexer em contraste, luz e cor.

Entrou, assim, na era da digitalização. Aprendeu que pode gastar menos e treinar mais. Com o filme, passou a ser mais seletivo e buscar resultados, já que o custo de revelação é alto. Hoje, diferencia maneiras de fotografar e treina o olhar pelo celular para mais tarde aplicar na velha Yashica. “Eu não pretendo fazer fotos com técnicas extremamente refinadas, apuradas. Ao que me proponho, digamos que eu já tenho uma boa bagagem.”

O autodidata orgulha-se do seu trabalho e cita nomes de alguns fotógrafos que admira. São profissionais que conheceu por meio de revistas ou conversas com passageiros no táxi. Na sua lista estão Cristiano Mascaro (“um ídolo”), Maureen Bisilliat (“a exposição mais linda que já vi”), Otto Stupakoff (“preto e branco fenomenal”), Araquém Alcântara (“aquele da natureza”), Sebastião Salgado (“só fotografou miséria, o que deu em troca?”).

Miranda vendeu algumas fotografias para amigos e pela internet. Agora quer avançar. Seus próximos desejos são adquirir uma boa máquina digital, dedicar-se mais a retratos e, quem sabe, realizar uma exposição. “Para o iniciante, é muito difícil, ainda mais sem saber usar a internet. Mas agora fiquei viciado. Fotografia é como uma droga que não fico sem.”