Você está aqui: Página Inicial / Cultura / A bela cantada

Cultura

Cultura

A bela cantada

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 01/03/2010 18h01, última modificação 20/09/2010 18h02
O Rio é uma das cidades mais cantadas do planeta. Talvez, perca somente para Paris.

O Rio é uma das cidades mais cantadas do planeta. Talvez, perca somente para Paris. O misticismo da capital francesa também fez sucumbir compositores brasileiros, mas não sem clara ironia: – "Paris, Paris je t’aime/, mas eu gosto mais do Leme". A rima impagável é do carioca Alberto Ribeiro e do mineiro Alcir Pires Vermelho.

Essa é uma das curiosidades de Canções do Rio (Casa da Palavra, 134 págs., R$ 37), livro coordenado pelo jornalista e escritor Marcelo Moutinho. A obra oferece cinco verdadeiras aulas de geo-política musical carioca. A leitura é tão prazerosa como ligar uma vitrola e, com um vinil caindo sobre o outro, deixar tocar o que há de melhor. Em hi-fi.

A história da moderna música brasileira começa no início do século XX. Até então, fazia-se música no Rio, mas não sobre o Rio, seus bairros, morros, favelas, praias e sua gente. Como inspiradora, a cidade encontra registros nos primórdios dos anos 1900, seguida da chamada "era de ouro", das marchinhas, samba, bossa nova, pop, funk e rap.

Herivelto Martins, Benedito Lacerda, João de Barro, Paulo da Portela, Tom Jobim, Moacyr Luz, Paulo Cesar Pinheiro, Chico Buarque, Tim Maia, Claudinho e Buchecha e Marcelo D2 são, em diferentes tempos e gêneros, alguns dos trovadores das belezas e mazelas da cidade. Ordenados cronologicamente, os ensaios são de João Máximo, Sérgio Cabral, Nei Lopes, Ruy Castro, Hugo Suckman e Silvio Essinger.

Ao fim da leitura de cada módulo é difícil desligar a vitrola na nossa cabeça. E passamos o dia, senão vários dias, sob o domínio de canções que viraram instituições nacionais e internacionais. E descobre-se que André Filho tomou emprestado do poeta maranhense Coelho Neto a expressão "cidade maravilhosa" para compor aquela que de tanto ser a cara do Rio foi eleita seu hino oficial.

Mas, dentre tantas, que música tem a cara do Rio? Por mais referências à cidade nas obras que entraram para a história da MPB cada um pode fazer a sua listinha interminável. Como os perfumes e os sabores, a música reconstrói lugares, devolve momentos e ressuscita pessoas, principalmente se morreram – de uma forma ou de outra. Tem gente que adora dizer "fulano morreu para mim." Pois sim. Está vivinho só que não dá a menor bola para quem anuncia o defunto.

Esses solavancos n’alma causados pela música ocorrem quase sempre à revelia. A pessoa não tem querer. Já entrou num táxi e escutou no rádio uma música que deposita o passado no presente, ali na sua frente? E sobre o asfalto quente da cidade em pleno meio-dia de um verão à 2010 começa uma dança perturbadora. Putz! Desliga isso, motorista. Ou aumenta isso, meu caro, e silêncio, por favor.

Um beijo bom de sol
O tema é a música e a cidade. Pois nenhum grupo cantou tanto o Rio como Os Cariocas chamando pelo nome a musa ou lhe rendendo honras com notas de sol e de mar. Criado em 1946, o grupo, sempre aberto às tendências musicais, foi um dos principais intérpretes da bossa nova e nos anos 60 era certeza de sucesso, gravando Tom, Baden, Carlos Lyra, Menescal e os irmãos Valle, entre outros tops da MPB.

Os Cariocas, liderados pelo talento de Severino Filho, remanescente da formação original, voltam com um novo álbum neste fevereiro mais que solar. Nossa Alma Canta, clara alusão a Samba do Avião, de Tom Jobim, traz 15 faixas clássicas, jamais gravadas pelo hoje quarteto completado por Hernane Castro, Neil Teixeira e Elói Vicente. Destaque para E nada Mais, do saudoso Durval Ferreira e Lula Freire, e Estrada do Sol, de Tom e Dolores Duran. Neste CD, Os Cariocas ainda sacramentaram as visitas de João Donato, Milton Nascimento, Eumir Deodato e Roberto Menescal.