Cultura

Hapenning

A arte intervencionista

por Bruno Huberman — publicado 30/09/2010 17h30, última modificação 30/09/2010 17h37
Manifestação liderada pelo artista plástico Duda Penteado tenta discutir a alienação da sociedade

A sociedade alienada. Os artistas manifestando-se contra. Intervindo. Tentando fazer os “alienados” raciocinarem contra a inércia de suas próprias vidas. Essa história é antiga já, porém um dos artistas plásticos da moda nos Estados Unidos, o brasileiro Duda Penteado, tenta mais uma vez. Na terça-feira 28, Penteado e quinze estudantes das artes cênicas do núcleo de Artes Pitorescas da Universidade Estadual de São Paulo (UNESP), circundaram o campus da faculdade na Barra Funda, zona norte da capital, todos vestidos de pijama, interagindo com os transeuntes que circulavam pela região.

A manifestação, ainda inusitada para a maioria, causa risadas e aborrecimento para as pessoas que se vê diante da “obra ambulante”, como Penteado chama o seu “Manifesto do Pijama”, ato que nasceu de forma espontânea por meio do olhar crítico do artista sobre o seu cotidiano, no caso a cidade de Nova York, sua residência fixa há mais de 15 anos. Ele começou o “hapenning” sozinho, de pijama, tamancos holandês, uma estátua, cabelo desgrenhado, dentro do metro de Manhattan. Quando um tradicional executivo nova-iorquino, terno-gravata-e-sapatos alinhados, impecáveis, parou na sua frente e questionou: “Por que o pijama?”. O artista replicou: “É que diferente de você, apenas uso terno e gravata dentro de casa. Apenas te mandaram colocar essa roupa e você o fez. Você não entende a representação desse estilo na sociedade”. Para espanto de Penteado, o engravatado entendeu o recado, tirou o adereço do pescoço e se despediu. “Vitória da arte”, completa.

Desde então, a manifestação cresceu e Penteado decidiu uni-la ao seu trabalho como artista plástico e criar o projeto Beauty for ashes. Como todo “nova-iorquino”, Penteado modificou-se após o 11 de setembro de 2001, quando viu as duas torres do World Trade Center se reduzirem a pó. Inspirado em outro que verteu tristeza em obra, o pintor espanhol Pablo Picasso que em 1937 fez o painel Guernica pra protestar contra a Guerra Civil Espanhola, Penteado decidiu fazer a sua própria. Ao lado de estudantes universitário pintou a Guernica americana de acordo com os problemas eleitos pelos próprios. O artista brasileiro decidiu então exportar para sua terra natal o modelo de manifestação. Encontrou na turma de primeiro ano da professora da UNESP Carminda André o aparato teatral.

Cada um dos participantes do “hapenning” tem a sua personagem. Todas elas nascerem das observações dos próprios alunos dos estereótipos da sociedade paulistana. Temos aqui o corintiano fanático, a adolescente grávida, o mendigo maluco, o executivo suicida, as donas-de-casa noveleiras...

Os futuros atores iniciaram o ato em uma interação com os outros estudantes da faculdade. Em fila, com Penteado a frente, partiram para “acordar a sociedade do sono que ela não percebe”, esclarece o idealizador vestido com um pijama de bolinhas azuis personalizado com ossos caninos pretos e calçando um tênis prateado, como o de um astronauta. O artista então bradou: ”Esse é o Manifesto do Pijama contra a alienação da sociedade”, marcando o início do ataque dos manifestantes, que disparavam os seus bordões a torto e a direito. Uma algazarra. O corintiano gritava “Vai, Curintia!”. O mendigo, munido de uma marreta de plástico laranja, com uma cara de alucinado dizia: “Essa rua é minha! Vocês tem dez segundos para sair dela. Contando. Dez, nove...” e martelava quem estivesse a sua frente.

Logo no portão de saída, o estranhamento já tomava conta dos rostos dos transeuntes. Localizada em frente ao campus da UNESP, a Rodoviária da Barra Funda atrai todos os tipos de paulistanos. A maioria ria da fila de malucos que se alinhava pela rua. Curiosos desaceleravam os seus veículos para tentar entender o que acontecia. “Esse é o Manifesto do Pijama. A arquitetura da desconstrução. Do pó ao pó. Ossos, ossos, ossos...”, repetia incessantemente Penteado. Entre gargalhadas e caras feias, a reação mais comum era de interrogação.

“A sociedade hoje chegou ao ponto de vender a felicidade. A minha personagem distribui gratuitamente a alegria para as pessoas”, conta a estudante Samira Psinato. Com uma caixa cheia de sorrisos em pedaços de papel, perguntou para um homem negro alto: “Quer um sorriso para melhorar o seu dia?”. Com a boca cheia de dentes, respondeu: “Já nem preciso mais, obrigado”. Contudo nem todas as reações foram positivas. Ouviam-se também comentários como “olha esse bando de malucos. Abriram a porta dos hospício”.

O ápice do “hapenning” aconteceu no Memorial da América Latina. Após um pequeno desentendimento com o segurança particular do espaço público, que argumentava a ausência de aviso prévio para a realização da intervenção, a professora Carminda conseguiu enrolar os seguranças e Penteado, esperto, escapou com a turma pela passarela do Memorial. Dentro do Pavilhão da Criatividade, uma professora de escola pública que monitorava uma visita com a sua turma de alunos, de idade entre onze e doze anos, perdeu a razão.

Logo quando Penteado e sua trupe entraram na sala cheia de obras a falar alto e interagindo com o ambiente, a professora começou a perder a compostura e com o dedo em riste dizia que eles não podiam estar lá dentro. Com raiva, empurrava os interventores para fora do local. Os seguranças, constrangidos, o que fazer e não atendiam a “ordem” de despejo. A reação dos artistas foi a mais óbvia: ironizar a própria situação, constrangendo a professora a um ponto que ficou sem reação. Os seus próprios alunos se mostraram mais interessados no bando de “malucos” vestidos de pijama. Quando os manifestantes foram enxotados do espaço, os alunos os aplaudiram, felizes pela quebra da rotina, para insatisfação da professora.