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Cinema: “Minhas Tardes Com Margueritte”

por Matheus Pichonelli publicado 03/06/2011 16h41, última modificação 14/06/2011 17h47
História sobre amizade com Gérard Depardieu mostra que é possível fazer cinema sem pretensões em pela França em ebulição. Por Matheus Pichonelli
Minhas tardes com Margueritte

História sobre amizade com Gérard Depardieu mostra que é possível fazer cinema sem pretensões em plena França em ebulição. Por Matheus Pichonelli

A encomenda chega num carrinho de mão, embrulhada para presente. Ao abrir o pacote, Germain (Gérard Depardieu) se espanta com o volume de capa pura e as centenas de páginas amareladas que acusam o próprio peso. O estranhamento diante do dicionário se estende ao longo dos dias, quando, já em casa e com a companhia de um gato, o comerciante e pequeno agricultor passa a divagar sobre a utilidade do presente que acaba de ganhar.

Desiste quando, ao buscar a definição da palavra “tomate”, descobre que nem mesmo as páginas de significados aparentemente infinitos dão conta de listar as variedades do fruto (tomate-caqui, tomate-cereja, tomate italiano...) que conhecia por ofício.

A decepção leva-o a devolver o presente, após uma série de incursões sobre palavras até então estranhas, o que o leva a aprender que um dos sinônimos de “visigodo” é a palavra “vândalo”. Não sem uma justificativa: “Desculpe, sra. Margueritte. As palavras que conheço não existem aqui. E as que existem, eu não concordo”.

Como se vê, em “Minhas Tardes Com Margueritte”, longa de Jean Becker, Depardieu volta a viver um sujeito fanfarrão atrapalhado e obtuso, mas capaz de quebrar os mais gélidos corações com observações infantis acerca de temas que atormentam a humanidade – algo não muito distante do cantor brega em franca decadência ainda capaz de encantar e ser encantado em “Quando Me Apaixono” ou do sindicalista-topeira na comédia “Potiche”. De longe, parece o velho novo personagem novamente encarnado por quem um dia já foi a imagem da chegada do conquistador europeu ao Novo Mundo. Mas é algo mais que isso.

Desta vez, a linha-mestra do filme é o simples questionamento sobre a aplicação prática da linguagem e a utilidade da própria literatura na França dos anos 2010. Perto de “Fahrenheit 451”, filme em que Truffaut vai além das possibilidades ao pensar num mundo sem livros, “Minhas Tardes” parece, à primeira vista, somente uma sucessão de frases-feitas para adoçar uma tarde despretensiosa no cinema. E seria – não fosse a própria despretensão do diretor, que não usa o filme para tratar, nem de leve, das questões mais sensíveis da Europa atual, com movimentos populares pedindo transformações às portas e lideranças que emergem sobre discursos antiglobalização e anti-imigração.

Jean Becker não parece minimamente interessado em dar sua colherada no caldo das chamadas grandes abordagens que tomaram forma em produções recentes do cinema francês, como “Entre os Muros da Escola”, “Não Minha Filha, Você Não Irá Dançar” e “Homens e Deuses”.

Em “Minhas Tardes com Margueritte”, a pretensão do diretor é a mesma de quem senta numa praça para jogar milho aos pombos e ver a tarde passar. Pois é esse o cenário do encontro entre o rude agricultor e Margueritte, uma ex-ativista da Organização Mundial de Saúde que, aos 95 anos, sem filhos ou familiares, conta os dias entre a praça, as aves, e seu quarto forrado de livros num asilo ao fim da cidade.

É o desencontro de papéis: Germain vive às turras com a mãe, desatenta e incapaz de expressar o menor gesto de afeto pelo filho, a quem, desde criança, chamava simplesmente de “esta coisa”; Margueritte é a sensibilidade que nasce, mas também se encerra, nos livros que coleciona: nela não há legado nem miséria para a posteridade.

A reação à animalização dos tratamentos dispensados a eles – uma velha encarcerada num asilo, um filho às turras com a mãe e com os amigos – é expressa nas relações que se montam ao entorno: Germain, que não sabe fazer contas ou fluir numa leitura de mais de dois parágrafos, é capaz de dar nome a todas as pombas que vivem na praça visitada; é capaz também de compartilhar com seu gato todo o suplício de sua condição, um cidadão semi-analfabeto e preso aos traumas da velha infância. Becker, muito provavelmente, passou longe de Alagoas quando pensou e escreveu seu filme, baseado no romance de Marie-Sabine Roger, mas é impossível não pensar em Fabiano e sua cachorra Baleia (“Fabiano, você é um bicho”) no clássico “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos. Entre Fabiano e Germain, porém, há uma velha senhora – a literatura pátria, velho orgulho francês? – disposta a ensinar bons modos e a civilizar o bruto por meio do dicionário e de Albert Camus.

A fórmula pode não ser nova, mas funciona – o que pode ser observado pela reação dos espectadores ao fim da sessão, envergonhados por se levantarem com olhos marejados que acusavam o golpe. Talvez porque se lembrassem, em alguma passagem, de seus primeiros encontros com os livros, os dicionários, as palavras e contraposição de universos; ou a aplicação delas num cotidiano comum. Ou nem isso: em tempos em que se discute a validade da própria linguagem informal, Becker mostra que é possível fazer cinema sem a pretensão de incendiar os debates de sempre: mostra que o cinema é também histórias simples sobre amizades improváveis que surgem todos os dias, em qualquer canto, de qualquer tempo ou lugar. Simples como uma tarde para se jogar comida aos pombos numa praça sob sol.