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Biografia

No labirinto de Borges

por Rosane Pavam publicado 20/05/2011 16h33, última modificação 24/05/2011 16h58
Historiador refaz a trajetória do escritor argentino em livro e sustenta que ele não reagiu com indiferença a seu tempo. Por Rosane Pavam
No labirinto de Borges

Historiador refaz em livro a trajetória do escritor argentino e sustenta que ele não reagiu com indiferença a seu tempo. Por Rosane Pavam

Biografar um grande escritor que viveu de inventar histórias sobre os outros e sobre si mesmo, de maneira a ser fiel a si mesmo e aos outros, parece constituir grande risco para um pesquisador. O historiador inglês Edwin Williamson, contudo, desdenhou do perigo. Com o intuito de desvelar Jorge Luis Borges, não só descobriu fatos ocultos da vida de um dos maiores escritores da Argentina e do Ocidente, como os ligou diretamente a muitos dos poemas e contos que produziu em sua longa vida ficcional.

Borges: Uma biografia, publicado em 2004 e lançado agora no Brasil pela editora Companhia das Letras (664 págs., R$ 68), é um estudo exaustivo sobre a vida do autor, embora, como tudo o que se refira a esse personagem e a muitos outros de sua estatura, não se possa declarar definitivo. Edwin Williamson age com correção, contudo, ao reivindicar ter sido o primeiro a desvestir Borges de um sentimento literário de indiferença ao tempo, como se suas ficções aspirassem pertencer a qualquer época ou lugar. Para o inglês de 62 anos, nada foi exatamente assim, e Borges apenas forjou, nas seguidas reedições e negações ao passado, esse sentimento de atemporalidade em seus leitores.

O pesquisador, que jamais esteve diante de seu biografado, nem de sua mãe, Leo-nor, decidiu pesquisar Borges porque o cultuara a fundo desde a adolescência, nos anos 70, a partir de uma antologia de seus contos intitulada Labyrinths. Só depois de redigir The Penguin History of Latin America, em 1992, Williamson entendeu que poderia relacionar a trajetória política e econômica da América Latina à sua história cultural. A obra de Borges se encaixaria nesse entendimento. “Enquanto avançava em minhas investigações, pude ver que havia uma estreita relação entre suas experiências vitais e sua escritura”, escreveu Williamson em espanhol, como resposta às perguntas feitas por CartaCapital em inglês.

“Borges é um de meus autores preferidos. Sua obra parece inesgotável, pode-se voltar a ela várias vezes e nela encontrar coisas novas, insuspeitas”, entende o historiador. “Meu interesse cresceu quando li que Borges havia apontado repetidamente uma base autobiográfica em sua obra. ‘Os contos tratavam de mim mesmo, de minhas experiências pessoais’, confessou em uma entrevista, e em outra disse: ‘Quando escrevo o faço por meio de símbolos. Nunca me confesso diretamente. Todos supõem que essa álgebra corresponde a uma frieza interior, mas não é assim, meu amigo, senão o contrário’. Ninguém parece ter feito muito caso dessas declarações e me pareceu interessante tomá-las a sério. Deste ponto comecei a investigar a biografia para ver até que ponto poderia relacionar suas vivências com sua obra.”

Williamson quer provar que Borges sofreu, sim, o isolamento e a dor de ser argentino entre dois mundos, o americano e o europeu, de onde se originara um ramo de sua família. A biografia busca enfatizar sua luta antifascista de juventude, de modo a relativizar o namoro com a ditadura dos anos 70, que terminaria em desilusão. Borges teria desejado ser reconhecido pela eternidade literária, ao menos durante a juventude, ao contrário do que ironicamente declarara a jornalistas em repetidas ocasiões. Temeu a morte a ponto de, em 1986, um pouco antes de sucumbir ao câncer, aos 87 anos incompletos, levar a esposa María Kodama a chamar à sua presença um pastor e um padre que lhe dessem provas de uma vida após esta. E, além do mais, a acreditar no pesquisador inglês, somente o amor pelas mulheres o salvou.

O primeiro desses amores dedicaria à mãe, Leonor Acevedo, que, nesse livro, Williamson analisa como a representante da tradição na família Borges. Ela seria a espada evocada pelo escritor em seus contos e poemas, em oposição ao punhal, marca do pai, Jorge Borges, igualmente icônica do ponto de vista de sua literatura. O senhor Borges fora um rebelde que tentara viver como anarquista no Paraguai, quando jovem. Desajustado, sofrera por toda a vida o desafio de superar a imagem paterna, e jamais deslanchara a sonhada carreira de escritor.

A avó paterna de Jorge Luis Borges, a inglesa Fanny Haslam, mitificara a morte do marido em combate, quando o pai de Borges contava apenas 9 anos. A competição desigual com a imagem paterna faria o senhor Borges errar por muitos caminhos. Depois de procurar reavivar sem sucesso seu amor por Leonor, e para isso tendo viajado com a família a uma aleatória Genebra, o pai de Borges morreu doente, mas como um herói, no entender do filho. Não lamentou o infortúnio e apenas quis para si o fim de tudo.

Borges, que nos anos finais de vida repetiria, como o pai, desejar ver após a morte apenas o nada, teve de matar metaforicamente seguidos tigres para sobreviver. Tornou-se obcecado por esses animais após ler o Livro da Selva, de Rudyard Kipling, e lamentar a morte do inimigo do herói, o tigre Shere Khan. Seus pais o protegeram e à irmã Norah. Mais a Borges. Franzino e de saúde frágil, o escritor só frequentaria a escola aos 11 anos, e por pouco tempo, na Argentina. Na instituição, seria humilhado pelos meninos habituados à briga, de poder aquisitivo mais baixo. Numa ocasião, o pai, enfurecido com a submissão do filho, deu-lhe um punhal.

De tal instrumento, Borges não fez uso prático, daí Williamson acreditar que o utilizara literariamente, em obras nas quais o escritor investigaria o dúbio heroís-mo dos crioulos e o protagonismo gaucho, muitas vezes usados para fazer valer pontos de vista nacionalistas para lá de conservadores. Ele e Norah se trancavam com professores dentro de casa, onde Borges tinha acesso irrestrito aos livros do pai. Por toda a vida, diz o biógrafo, ele se declararia emparedado, impedido, a partir desses muros reais ou imaginários, de experimentar a vida das pessoas comuns.

Fora um aluno medíocre porque defasado em todas as disciplinas escolares, em razão do estudo particular. Em Genebra, mal falava francês, e a família teve de mentir sua idade para que pudesse frequentar o curso secundário, que nunca concluiu. Lá, o pai levou o jovem ao bordel, em uma experiência que o traumatizaria. Ele se apaixonaria em Genebra, por breve tempo. Principalmente, em anos posteriores, já de volta à Argentina, seria rejeitado por uma mulher.

“Descobri uma história perdida, ou, a rigor, ocultada, da vida e obra de Borges. Seu envolvimento, que resultou em rejeição, com Norah Lange, uma jovem poeta argentina que foi sua protegida e musa dos anos 20”, diz Williamson a Carta-Capital. No entender do pesquisador, essa rejeição desorientaria Borges por completo, a ponto de causar uma mudança violenta em suas ideias literárias. Por ela, o escritor teria perdido sua voz poética, e até pensado em pôr um fim na vida.

Esse “desastre pessoal”, diz Williamson, é o fato central a explicar sua evolução de jovem poeta apaixonado até escritor desiludido e cerebral, surgido uma década mais tarde, e que produziu as ficções responsáveis por sua fama mundial. “Borges voltou-se à poesia até finais dos anos 50, mas ela é bastante diferente daquela de sua juventude, mais conservadora, tanto em forma quanto em conteúdo, e não agrada a muita gente”, afirma. “A poesia de que pessoalmente mais gosto é a dos anos 70 e 80. Há como uma abertura pessoal.” No entender do pesquisador, depois do fim de um casamento arranjado pela mãe, Borges apaixona-se por María Kodama e, no seu trabalho, aparece um tema novo, o amor. “Talvez por isso esses poemas sejam mais íntimos e bastante inovadores, ainda que não de maneira chamativa.”

A corroborar seu ponto de vista de um Borges emocional e conflituoso, Edwin Williamson cita o livro Diario, do amigo do escritor Adolfo Bioy Casares, publicado alguns anos depois de sua biografia. O Borges revelado por Casares, de certa forma semelhante àquele do historiador, irrita particularmente quem não aceita Borges como “de carne e osso” e o quer “um pós-moderno para quem a literatura não era mais que um jogo irônico”. Por exemplo, cita Williamson, Borges escreveu o verso “Não fui feliz” em um soneto de 1975, a poucos dias da morte de sua mãe, aquela que, com a perda progressiva de visão do autor, ditara-lhe histórias, traduzira-lhe livros e lhe dissera até como se comportar à mesa e o que comer.

Embora o estudo de Williamson enfoque o início da amizade de Borges com Bioy Casares, 15 anos mais novo, e relate o rompimento entre eles com a chegada de Kodama, desconsidera quase absolutamente sua relação com o escritor Ernesto Sabato, morto 30 de abril último (Confira a reportagem Dom Quixote Lúgebre - O escritor Ernesto Sabato, morto aos 99 anos, caminhou entre o pessimismo e a crença de que o pensamento poético salvaria o mundo das atrocidades). Mas Borges manteve uma proximidade- de três décadas com ele, a partir dos anos 40. “Não estou de acordo de que foram muito amigos”, contesta Williamson. “Houve uma ruptura muito forte entre os dois depois da queda de Perón, em 1955, quando Sabato expressou simpatia pelas massas que apoiaram Perón, o que enfureceu Borges.” O biógrafo ignora até mesmo que tenham estabelecido diálogos literários e filosóficos extensos entre 1974 e 1975, incluídos no livro Diálogos: Borges/Sabato, de Orlando Barone.

Em parte por não se tratar de uma biografia literária, antes um estudo cultural baseado em indícios trazidos pela literatura, o livro de Williamson não possa se deter no relacionamento prazerosamente cerebral que Borges manteve com Sabato. O biógrafo, que trabalha com boa documentação, impõe-se por vezes a tarefa de explicar os mistérios, o que pode enfraquecer suas conclusões, aproximando-o perigosamente de um personagem de Borges em seu labirinto. Será preciso sempre lembrar a crença do escritor, expressa pelo próprio Edwin Williamson à página 268 de seu livro: para Borges, a ficção não era um espelho do mundo, mas um jogo de símbolos que seguia regras mais próximas das leis da magia do que daquelas da realidade, ao fim incognoscível. A literatura estava enraizada na experiência do autor, mas essa experiência primordial não deveria ser expressa diretamente a quem o lia.