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2012 Vem aí. Acho

por Marcio Alemão publicado 23/12/2011 08h56, última modificação 23/12/2011 10h07
Na ceia da virada, aves devem ser evitadas porque ciscam. Já o peixe enfrenta correntes para continuidade à vida
ceia

a tudo que você atribuir significado, significando estará. Foto: Flickr / Andreza Katsani

Eu faço uma confusão danada com as datas. A idade que avança tal qual um bólido nas leves mãos de Pintacuda também atua como catalisadora do processo degenerativo. Eu disse algumas vezes que costumo mentir, certo? Se não disse, faço-o agora e esclareço que jamais vi o Pintacuda em ação. O nome do corredor, sim, ouvi muitas vezes pronunciado por meu avô, que era, como ele dizia, “do cinco”. Entenda-se: do ano de 1905. Por conta disso, confundo eventos ou os ignoro, às vezes sem querer.

Credenciais apresentadas, acredito que este seja o último Refô do ano. Ou não. Mas espero que seja porque pretendo lhe desejar um 2012 repleto de um monte de coisas que você deseje, sonhe etc. Por ora, recomendo que você comece a pensar na ceia da virada, lembrando sempre que aves devem ser evitadas, porque ciscam. Agora, cá entre nós, será que o ciscar não teria a ver com o terreiro no qual você se encontra?

Reserve a ave e vamos para o porco, altamente recomendado por ser um fuçador. O porco cava, mete o nariz e, em lugares abençoados, encontra até as trufas brancas. Peixe, outra recomendação. E aqui eu sempre fico confuso e explico. O peixe, tentaram me convencer, enfrenta as correntes contrárias para desovar e dar continuidade à vida. Não diria que essa é a história da tilápia, da manjuba, do lambari. Minha ignorância em ictiologia é profunda como os oceanos (entenda, é fim de ano e a coisa da poesia me arrebata, ainda que eu tente evitá-la), mas, além do salmão do Discovery, que peixes que chegam à nossa mesa empresam tal tarefa?

E mais: não vamos esquecer daquele ursão. Será que ele, nessa cena imaginária que fazemos da “virada” do ano e do que virá por conta do que viermos a comer, não deveria ser considerado? Se o fizermos, a parada fica indigesta. Teremos um ano difícil, as correntes serão contrárias e ursos famintos estarão no meio do caminho. E o pior: ao chegarmos vitoriosos ao nosso destino, estaremos absolutamente acabados, como os tais do canal de tevê.

De volta às aves e aos porcos, eu repito: vai do quintal. A migalha de alguns pode ser banquete para outros. E o vice-versa aqui se aplica bem.

Romã, me lembro bem do ano passado, manchou minha bonita camisa branca. Era uma dessas importadas,- a fruta - quase do tamanho de uma bola de handebol. E são boas. Doces, suculentas. Comi romã assim como um belo cotechino. Adoro esse embutido que tem sua origem em Modena e que hoje, ainda bem, encontramos nas boas casas do ramo, de importados. Por aqui tentaram fazê-lo. Acho que ainda tentam e, francamente, é péssimo. O de Modena, com lentilhas, se não lhe trouxer um ano lotadinho de alegrias, vai lhe proporcionar, no mínimo, uma noite feliz. Tive um bom ano.

Também já comi peru no dia 31 e -nada de ruim aconteceu. O que sabemos: não custa nada crer. O bacalhau sempre vai bem. Deve ser um brigador, imagino. Não, não entre na viagem das transferências ou você vai concluir que ao comer o morhua você poderá perder a cabeça, ficar desidratado, duro ou passar o ano entrando em frias. Nessa linha de raciocínio, comer uma panelada do pássaro joão-de-barro pode ajudar quem sonha em ter a casa própria. Comer uma águia é bom para alçar voos maiores. Comer formigas para ter muito trabalho o ano todo. Comer coelho para rápidas relações. Cigarra para levar o ano na flauta. Coruja para ficar atento. Bode para alcançar o cume, os píncaros da glória. Lagartixa, caso interesse -subir pelas paredes numa boa. Canguru, se a ideia for dar grandes saltos.

E chega dessa brincadeira. Coma com prazer o que lhe for servido ou o que você preparar. Como disse um amigo: a tudo que você atribuir significado, significando estará. Faça sua escolha e seja bem feliz.