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Cultura

Crônica do Villas

1989

por Alberto Villas publicado 23/10/2015 05h13
O ano em que a música era tudo para todos nós
Cultura Bahia
Raul Seixas

Raul Seixas

O aiatolá Khomeini ofereceu 3 milhões de dólares pela cabeça do escritor Salman Rushdie, o autor dos Versos satânicos. Condenado à morte sem julgamento e recolhido em seu canto, Rushdie evitava até mesmo olhar pelo olho mágico da sua casa.

Pela televisão, o mundo assistia perplexo o muro de Berlim ruir. As placas de concreto iam desmoronando em meio a lágrimas, abraços, beijos e emoção. O Portão de Brandemburgo se abriu, e Berlim virou uma festa.

Em Pequim, um chinês solitário enfrentava uma coluna de tanques indo pra lá e pra cá, evitando que eles avançassem sobre os estudantes em revolta numa praça cujo nome é Paz Celestial. A fotografia rodou o mundo, virou símbolo da resistência. Muita gente tentou mas ninguém nunca localizou o tal chinês.

O mundo perdia um grande escritor irlandês, o modernista Samuel Beckett, autor da peça Happy Days. E o planeta ficava um pouco menos surrealista sem o pintor espanhol Salvador Dalí.

O ditador romeno Nicolae Ceausescu era perseguido a paus, pedras e balas, numa caçada feroz até ser abatido a tiros. O seu corpo ficou ali caído no chão, exposto à visitação pública e em todos os canais de televisão, ao vivo e em cores.

Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, voava para Boston na esperança de estancar o avanço do vírus da Aids. Um esqueleto, cabelo fino e andando de cadeira de rodas, bandana na cabeça, ele resistia. Mas para a revista Veja, que o estampou em sua capa, ele agonizava em praça pública.

O disco Burguesia chegava às lojas com o seu grito de guerra logo na primeira faixa: “A burguesia fede/A burguesia quer ficar rica/E enquanto houver burguesia/Não vai haver poesia”.

Mas era na faixa de número 10 que Cazuza revelava ter se transformado numa cobaia de Deus: “Se você quer saber como eu me sinto/Vá a um laboratório, ou num labirinto/Seja atropelado por esse trem da morte/ Vá ver as cobaias de Deus/Andando na rua, pedindo perdão/Vá a uma igreja qualquer/Pois lá se desfazem em sermão/Me sinto uma cobaia, um rato enorme/Nas mãos de Deus mulher/De um Deus de saia/Cagando e andando/Vou ver o ET/Ouvir um cantor de blues/Em outra encarnação”.

A música quase não tocou nas rádios. Havia um silêncio também em torno da canção Azul e Amarelo, que Cazuza compusera com Lobão e o outro Agenor, o de Oliveira, o Cartola: “Anjo bom, anjo mau/Anjos existem/E são meus inimigos/E são amigos meus/E as fadas/As fadas também existem/São minhas namoradas”.

Cazuza ainda usava as últimas forças que tinha para cantar uma velha canção de Caetano Veloso que ficou imortalizada na voz de Maria Bethânia: “Ah, esse cara tem me consumido/A mim e a tudo que eu quis/Com seus olhinhos infantis/Como os olhos de um bandido”.

Éramos todos rock and roll. Por aqui dançávamos nas cavernas ao som da Plebe Rude, do Capital Inicial, do RPM, do Barão Vermelho, dos Paralamas do Sucesso, dos Titãs do Iê-Iê-Iê, do Camisa de Vênus, que teve seu nome vetado na Rede Globo de Televisão. Camisa de Vênus, não! Simplesmente Camisa, sim!

Enquanto o Ultraje a Rigor decretava que “a gente somos inútil, a gente não sabemos votar pra presidente”, viajávamos ao som da banda Fellini e Violeta de Outono. Curtíamos o Rumo, o Premeditando o Breque, a Língua de Trapo. Nos divertíamos também com Eduardo Dusek cantando no banheiro, com o Kid Abelha, o João Penca e os Miquinhos Amestrados, e a Blitz: “Ok, você venceu! Batata frita!” Radicalizávamos com os Ratos de Porão, o Olho Seco, os Inocentes e uma epidemia de Cólera.

Nos lugares mais sofisticados, a história era outra. New Order com Technique, The Cure com Desintegration, Depeche Mode com 101 e Pixies com Doolittle.

Escondido e no meio dessa confusão, eu redescobria as canções de Paul Simon e Art Garfunkel: The sound of silence sound. E, ligeiramente desesperado, acompanhava a rouquidão de Tom Waits em Raindog.

Éramos todos rock em roll quando paramos para ouvir o Eterno Deus Mu Dança. “Não era carnaval, nem São João. Nenhum balão no céu, nem luar no sertão. Nenhuma foto no jornal, nenhuma nota na coluna social. Nenhuma múmia se mexeu, nenhum milagre da ciência aconteceu. Nenhum motivo nem razão. Quando a saudade vem, não tem explicação”.

Éramos todos rock and roll quando fomos interrompidos por Marisa Monte cantando Ando meio desligado, Chocolate e o Xote das meninas. Era a volta da daquela asa branca à minha vida.

Apareciam novas meninas no pedaço. A sensação era Adriana Calcanhoto cantando Pão doce: “Não adianta mentir pra mim mesma/Ficar me enganando tentando dizer/Que nunca na vida, nunca na vida eu gostei de pão doce/Porque por mais que eu queira esconder/A verdade é que eu adorava pão doce”.


Mas um dia, quem chegou de repente foi Mauro e Quitéria.
 Os dois cantadores vinham caminhando pela praia da Boa Viagem, no Recife, quando os meninos dos Titangues ouviram aquele som estranho. Correram para buscar um gravador e registrar aquela cantoria embolada e sem fim pra colocar num disquinho, lá em São Paulo.

Era uma cantoria meio sem nexo para nós, mas com pé e cabeça para os dois que entendiam sua língua muito particular. Para bom entendedor, meia palavra bastava: “Õ Blésq Blom, um sucesso na tela do cinema”.

Foi Oscar Rodrigues Alves quem captou e registrou toda a história. Os Titangues eram os Titãs que resolveram, sim, abrir o disco Õ Blésq Blom com Mauro e Quitéria cantando na praia da Boa Viagem, para em seguida soltar o grito de guerra: “Miséria é miséria em qualquer canto/Riquezas são diferentes/Índio mulato preto branco/Miséria é miséria em qualquer canto”.

Os rocks vinham em seguida, um atrás do outro, até chegar num labirinto de dúvidas: “Há uma questão que há muito tempo me incomoda/Qual será a vantagem de se ter uma ou duas corcovas/O que iremos formular é somente um questionário/Qual diferença haverá entre o camelo e o dromedário”.

As rádios tocavam Angélica com Eu vou de táxi, Lulu Santos com Lua de mel, Luiz Caldas com Odé e Adão, Xuxa com Ilariê, Tim Maia com Onde está você, Paralamas com o Beco, Maria Bethânia com Tá combinado, Gonzaguinha com É e o Legião com Que país é esse?: “Nas favelas, no Senado/Sujeira pra todo lado/Ninguém respeita a Constituição? Mas todos acreditam no futuro da Nação”.

As rádios tocavam também Desire com U2, Red red wine com UB-40, Psycho killer com os Talking Heads, Suedehead com Morrissey, Angel com o Aerosmith, Bad medicine com Bon Jovi, Tunnel of love com Bruce Springsteen, tocava Love bites com Def Leppard.

Havia Marina Lima cantando Dalto: “Ganhar você e não querer/É porque eu não quero que nada aconteça/Deve ser porque eu não ando bem da cabeça/Ou já cansei de acreditar/Ou eu já cansei”, e havia Dulce Quental cantando Caleidoscópio: “Não é preciso apagar a luz/Eu fecho os olhos e tudo vem/Num caleidoscópio sem lógica/Eu quase posso ouvir a tua voz/Eu sinto a tua mão a me guiar/pela noite a caminho de casa”.

O Brasil era uma festa quando chegou a notícia de que Raul Seixas morreu.

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