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Carta Verde

Viomundo

MST

08.09.2010 11:36

Stédile: Não é mais sem terra vs. latifundiário; é a sociedade contra a devastação do agronegócio

Por Luiz Carlos Azenha*

O velho paradigma, do sem terra com a foice na mão enfrentando o capanga do latifundiário, já era. Essa ideia — assustadora para a classe média, romântica para uma certa esquerda e mortal para os descamisados — será superada por um crescente enfrentamento entre a sociedade civil e o modelo do agronegócio, de acordo com o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), João Pedro Stédile.

Por causa da correria dos últimos dias, ainda não pude escrever sobre a hora e meia de entrevista que fiz, ao lado de Conceição Lemes, com o Stédile. Farei isso aos poucos.

Para ele, o novo paradigma surge da consciência crescente da população em relação aos danos ambientais causados pela monocultura mecanizada de vastas extensões de terra, que envenena a água, o solo e o ar, expulsa o homem do campo para as cidades, ameaça a biodiversidade e é responsável por fazer do Brasil o maior consumidor de venenos agrícolas do mundo.

Durante a entrevista, Stédile deu um exemplo: em 2006, quando as mulheres da Via Campesina invadiram o horto florestal da Aracruz Celulose, no Rio Grande do Sul, destruindo mudas de eucaliptos, pouco se sabia no Brasil sobre o “deserto verde”, que resulta do plantio de vastas extensões de eucalipto para a produção de celulose. Hoje, diz Stédile, a própria Votorantim tem se mostrado flexível a discutir as propostas do MST, que quer limitar em 20% a área de eucaliptos plantada em um município.

Isso se deve, segundo Stédile, à própria reação de quem mora perto dos “desertos verdes”: o eucalipto suga a água do solo, não permite que vegetação se desenvolva entre as árvores — causando, entre outras coisas, o sumiço das abelhas — e empobrece o solo.

Agora, no entanto, o MST não vai agir apenas no campo da política. O movimento pretende demonstrar na prática a viabilidade econômica da agricultura orgânica e está se preparando para produzir suco de uva natural (sem produtos químicos no plantio e cuidado das uvas e sem conservantes no produto final) e arroz orgânico para a merenda escolar. Stédile imagina que os pais de alunos, os maiores interessados na saúde dos próprios filhos, são aliados em potencial na luta contra a agricultura devastadora patrocinada pelas grandes corporações.

Assim serão, também — imagina Stédile — os médicos, pesquisadores e cientistas, quando ficarem mais claras as consequências do uso de sementes geneticamente modificadas para a biodiversidade brasileira e dos venenos associados a elas para a saúde pública.

Para quem quiser ter uma visão completa do que sugere Stédile, recomendo que ouçam a íntegra da entrevista, aqui. Garanto que vale a pena.

*Matéria originalmente publicada no site Vi o mundo

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Sua opinião

  1. Alex Siqueira disse:
    A monocultura é uma doença crônica no nosso país. Sempre se achou que devíamos ser o celeiro do mundo, pra alimentar as vacas européias com a nossa soja e o nosso milho. Aliás, esses são negociados na Bolsa de NY como "óleo dos pobres"! Essa cultura exportacionista não entende que as pessoas que aqui vivem querem ter dignidade e ter um país de que se orgulhar fazer parte. Há os que desistem e fogem, e os que ficam pela família, pelos amigos e pela fé na evolução social. Se na crise de 1929 já tivéssemos alguma industrialização, os efeitos da especulação americana não teria devastado a economia paulista, carioca e mineira. Mas a elite caolha só enxergava café. Pra quê correr riscos de produzir aqui e concorrer com produtos europeus... eles podiam comprar. A derrocata dessa elite atrasada é que permitiu criar uns poucos avanços sociais na década sucedente (salario minimo, aposentadorias...) mas nos custou também governos ditatoriais. Tudo o que uma sociedade evoluída quer é um planejamento agrário, onde o camponês tenha acesso à remuneração justa, acesso à políticas de segurança de seus direitos de cidadão e respeito às pessoas e à vida selvagem. O latifúndio não deu essa resposta à necessidade da nação e por isso precisa ser repensado.
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