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13.12.2011 15:45

Tintim, o repórter aventureiro

Aventura do personagem de Hergé que estreia nos cinemas estimula a inclusão de histórias em quadrinhos em sala de aula. Foto:Divulgação

 

Já faz quatro décadas que as histórias de Tintim circulam entre os brasileiros, encontrando novos leitores a cada geração. Tudo indica que outra leva de pessoas vá se interessar pelo personagem a partir de janeiro de 2012, data programada para a -estreia no -País do filme As Aventuras de Tintim, com o jovem repórter. O longa surge com tratamento de megaprodução. Foi feito em 3D, com uma técnica que capta o movimento dos atores para moldar a animação. A direção ficou a cargo de Steven Spielberg, de E.T., o Extraterrestre, Tubarão e dos filmes de Indiana Jones, para ficarmos em três exemplos, e produzido por Peter Jackson, que esteve à frente da trilogia O Senhor dos Anéis.

Como geralmente ocorre com produções do porte, o marketing vai encarregar-se de tornar os personagens ainda mais populares e surgirão vários registros sobre as raízes do protagonista, criado nos quadrinhos. O herói é um moço aventureiro, sempre disposto a viajar o mundo para desvendar mistérios.

Invariavelmente, vai acompanhado de seu cãozinho Milu. Perspicaz, fiel e igualmente corajoso, o cachorro não raras vezes salva o dono. O bicho de estimação é também responsável por algumas das cenas de humor da série. De quando em quando, faz algum comentário que é visualizado apenas pelos leitores.

A estreia de Tintim nos quadrinhos ocorreu em 1929, na Bélgica. O jovem aventureiro foi criado pelo desenhista Georges Prosper Remi (1907-1983), que preferia assinar seus trabalhos com o apelido Hergé (baseado na pronúncia das iniciais de Remi e Georges). A primeira história foi lançada nas páginas de “Petit Vingtième”, suplemento juvenil do jornal Le Vingtième Siècle.

A aventura inicial já constrói as bases da série. Hergé apresenta o personagem como um jornalista do suplemento, o que fica explícito logo no primeiro quadrinho: “O Petit Vingtième, sempre preocupado em satisfazer seus leitores e mantê-los informados do que acontece no mundo, acaba de enviar à Rússia soviética um de seus melhores repórteres: Tintim!”

Polêmica colonialista
Feita originalmente em preto e branco, As Aventuras de Tintim – Repórter do ‘Petit Vingtième’ no país dos sovietes foi compilada em forma de livro em 1930, recurso que se tornou regular desde então. Nesse mesmo ano, o suplemento juvenil já trazia a segunda aventura do personagem, Tintim no Congo, seguramente a mais polêmica da série. O questionamento em torno da obra pauta-se no teor colonialista com que representou a hoje República Democrática do Congo.

Em dado momento, Tintim é aceito para dar uma aula a crianças locais. Ele ensina à sala sobre a “pátria de vocês, a Bélgica”. O trecho integrou duas revisões feitas pelo autor, uma em 1946 e outra em 1970. As mudanças reduziram parte do tom paternalista. A parte mencionada, por exemplo, troca a questão geopolítica pela matemática, na forma de uma conta de dois mais dois.

A polêmica mais recente envolvendo o álbum ocorreu em 2007, na Inglaterra. A Comissão para Igualdade Racial do Reino Unido pediu às livrarias britânicas que deixassem de vender a obra. A entidade afirmava que o livro tinha conteúdo racista e mostrava os congolenses de maneira idiotizada e com traços semelhantes a macacos. Duas das principais livrarias atenderam parcialmente ao pedido e tiraram o título da seção infantil, mas não deixaram de vender o álbum. O argumento era que caberia ao leitor a decisão da compra. Resultado: uma semana depois, a editora Egmond, que publica Tintim na Inglaterra, registrava aumento de 4.000% nas vendas do título.

A obra foi lançada no Brasil pela Record, que traduziu a história como Tintim na África. A editora publicou o personagem no Brasil no início da década de 1970 e disponibilizou quase todo o catálogo – a série é composta de 24 álbuns, cada um deles com uma aventura completa. A passagem do repórter pelo Congo foi relançada em 2008 pela Companhia das Letras, que reeditou todas as histórias.

A editora encerrou a reedição da série no fim de 2008, com duas histórias inéditas no Brasil, curiosamente a primeira ambientada na Rússia e a última intitulada Tintim e a Alfa-arte. Esta se resume a 42 páginas de esboços e diálogos feitos por Hergé. O desenhista morreu antes de finalizar a obra.

A derradeira história tem como mote o assassinato de dois especialistas em arte. Um deles iria revelar informações importantes, O repórter vê nas mortes um mistério. Aos poucos, associa os crimes a uma exposição da alfa-arte, esculturas que representariam uma volta à origem da civilização. O último quadrinho mostra Tintim sendo conduzido por um homem que aponta uma arma para ele. A trama fica sem desfecho.

A morte de Hergé, em 1983, pôs fim às aventuras. Mas apenas no papel. Em outras mídias, o personagem continuou popular. A série ganhou uma versão animada exibida no Brasil pela TV Cultura. E, agora, tem novamente parte adaptada para o cinema.

Bom início para novos leitores
O longa-metragem ancora-se em três álbuns: O Caranguejo das Pinças de Ouro, O Segredo do Licorne e O Tesouro de Rackham, o Terrível. Há bons motivos para o filme de Spielberg iniciar com essas três histórias. Se lidas em conjunto, formam um singular ponto de partida para quem nunca leu o personagem.

O Caranguejo das Pinças de Ouro, nono álbum, leva Tintim a desvendar um mistério formado a partir da imagem de um caranguejo estampada num pedaço de rótulo de lata rasgado. O papelote havia sido encontrado com uma pessoa afogada. Uma pista dada pelos atrapalhados investigadores Dupont e Dupond – iguais em tudo e que se tornaram personagens regulares – leva o repórter a uma embarcação, Karaboudjan.

Lá descobre que se trata de um navio de tráfico e é mantido preso. Ele e o verdadeiro capitão, Haddock, um beberrão obcecado por rum. Tintim e Haddock conseguem fugir e, enfim, revelar o mistério. A história marca o primeiro encontro de ambos, por isso um bom início para novos leitores – e também para o longa. O capitão, a partir de então, torna-se parceiro de aventuras do repórter.

Os dois protagonizam os álbuns O Segredo do Licorne e O Tesouro de Rackham, o Terrível, que compõem uma história dividida em duas partes. No início da aventura, Tintim compra um antigo navio em miniatura num mercado de antiguidades. O artefato seria um presente para Haddock. Mas, como tudo na série, esconde um mistério. Batizado de Licorne, o pequeno navio é a chave para o segredo de um tesouro de um antepassado do capitão e mantido em sigilo por décadas. O tesouro seria de um rival, Rackham, o Terrível.

É na segunda parte da história que Tintim tem o primeiro contato com outro personagem que se tornaria regular na série, o professor Girassol. De audição comprometida, sempre escuta o contrário do que é dito, o que dá toques de humor aos diálogos. Compensa com uma mente privilegiada, que ajuda a tornar reais suas várias invenções.
Muitos creditam a Hergé um lado conservador, materializado em parte em sua produção em quadrinhos. Mas isso não ofusca a importância que Tintim teve para a história das HQs, em particular na Europa. A reunião das aventuras, uma por álbum, ajudou a moldar um suporte editorial que vigora até hoje no Velho Continente. O estilo criado pelo desenhista exerceu também influência direta na produção franco-belga nas décadas que seguiram à criação do personagem. Na Bélgica, Tintim é referência e referenciado. Descobri-lo, mesmo que via cinema, é recuperar- uma parte importante da produção em quadrinhos mundial. E uma boa forma de levar o mundo da fantasia para a sala de aula.

Por PAULO RAMOS, professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo e autor de, entre outros, A Leitura dos Quadrinhos e Faces do Humor – Uma aproximação entre piadas e tiras.

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Sua opinião

  1. Lisavieta Abelev Magalhães Pinto disse:
    Adoro o Tin-Tin: os quadrinhos fizeram parte da minha juventude e o desenho animado, da infância do meu filho mais velho. Ele até queria ser jornalista só por causa dele (e um pouco por causa do Homem-Aranha), mas acabou desistindo. Agora, como professora, acredito que se o nosso sistema educacional fosse menos travado e mais progressista, as histórias do Tin-Tin poderiam ser usadas para introduzir as crianças à leitura e também discutir os estereótipos étnicos que faziam parte da ficção no séculos passado. Claro, é a mesma coisa que ocorre com Monteiro Lobato ou Mark Twain, mas os quadrinhos têm a vantagem óbvia da representação gráfica desses estereótipos, muito mais chocante. Infelizmente, impera a concepção de que discutir profundamente o preconceito é um gesto preconceituoso, ignorância de nossos pedagogos e governantes que causa grande prejuízo à formação de nossos jovens.
  2. Fábio de Oliveira Ribeiro disse:
    Responda rápido? Que jornalista brasileiro mais se parece com o Tintin, o Willian Bonner (Willian Hommer p/ os íntimos) ou o Amaury Ribeiro Jr?
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