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Carta Fundamental

Entrevista

A história dos contos de fada

Kátia Canton explica como essas narrativas podem revelar mais do que um mundo fantástico e contar a história da nossa cultura
por Lívia Perozim publicado 17/08/2010 16:03, última modificação 17/08/2010 17:50
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"A gente vive uma revitalização dos contos de fada. Basta ver o sucesso do filme Alice no País das Maravilhas". Foto: Olga Vlahou

Kátia Canton explica como essas narrativas podem revelar mais do que um mundo fantástico e contar a história da nossa cultura

Foi no século XVII, com o francês Charles Perrault, que os contos de fadas deixaram de ser apenas narrativas orais e se tornaram literatura. Naquela época, na corte barroca de Luís XIV nascia a noção de civilité e os bons modos eram valorizados. Não à toa, a Cinderela de Perrault usava trajes luxuosos e um sapato de cristal, tamanha sua delicadeza. Já na versão dos irmãos Grimm, a história não tem traços tão nobres. Ao contrário, os autores alemães, que vieram de um ambiente rural e viveram a ocupação napoleônica do século XIX, emprestam uma certa – e talvez discutível – violência ao conto. Depois de cortarem dedos e calcanhares para provarem o sapatinho, que não era de cristal, as irmãs malvadas de Cinderela ficam cegas por pombas que assistem ao casamento da menina que foi salva pelo príncipe. Essas e outras versões dificilmente são discutidas ou mesmo apresentadas. No entanto, além do caráter universal das histórias mágicas, há muito que aprender com seus contextos histórico, cultural e artístico. Nessa entrevista, a jornalista e arte-educadora Kátia Canton mostra o que está por trás da história dos contos de fadas, explica como eles revelam mudanças nas diretrizes morais de uma cultura e compara como grandes escritores, como Perrault, os Grimm e Andersen, recontaram a mesma história.

Carta Fundamental: O que podemos aprender com o contexto histórico de um conto de fada?
Kátia Canton: Os contos de fadas são índices culturais também. O aspecto mais explorado é o da magia, que é  fundamental e mantém essas histórias vivas desde os primórdios. Há diversas maneiras de fazer isso na história. Durante muito tempo, o contexto em que os contos foram escritos foi deixado de lado.  Os contos de fadas narram a história da nossa cultura. Talvez quem mais tenha colaborado para apagar esses rastros tenha sido as indústrias Disney. Por um lado, eles popularizaram os contos de fadas. Mas, por outro, eles escolheram pedaços e versões das histórias mais doces e palatáveis aos padrões americanos dos anos 30 e 40, sobretudo do pós-guerra, quando os EUA florescem com o american way of life.

CF: Na versão de Perrault, por exemplo, Chapeuzinho Vermelho é devorada pelo lobo. Na dos irmãos Grimm, ela e a avó são salvas pelo lenhador. As duas são lições de comportamento?
KC: Uma cultura tem diretrizes morais que mudam. Há maneiras de cadastrar o mesmo conto em diferentes culturas. O exemplo mais comum é a Cinderela. Conheci 490 versões desse conto e há mais de mil versões espalhadas. A postura da Cinderela vai mudando. Há versões em que ela é independente, corajosa, forte. Ela mesma planeja a fuga para o baile e aborda o príncipe. E em outras, como a da Disney, a Cinderela é passiva. É um reflexo das mudanças de padrões morais e culturais.

CF: Por que Cinderela é um conto tão popular?
KC: A ideia de salvação, de alguém conseguir mudar a história de vida descrita para ela. Essa menina seria para sempre explorada, mas, de alguma forma, isso muda com uma ajuda mágica que ela buscou ou recebeu.

CF: Tanto faz se é uma figura feminina ou masculina que está sendo salva?
KC: Sim. Mas na história da cultura ocidental trabalha-se muito mais com os protagonistas femininos. Até pela condição de ter colocado a mulher numa situação mais frágil e mais necessitada desse tipo de ajuda.

CF: Qual a diferença da Cinderela de Perrault em relação à dos irmãos Grimm?
KC: É bem diferente e pouca gente sabe disso. O sapato de cristal, por exemplo, é uma criação de Perrault. A mulher daquela época tinha de ser tão delicada que ela podia andar em um sapato de cristal sem quebrá-lo! Tem toda uma regra de vestimentas e valores típicos da corte barroca de Luís XIV. São citados trajes que não aparecem nos Grimm. A Cinderela de Perrault é meio conformada de ter ficado limpando a cozinha. Até que chega a fada madrinha e faz tudo para ela ir ao baile. Depois que acontece tudo, no dia do casamento de Cinderela, ela casa as duas irmãs com dois belos cavaleiros da corte. E mais um detalhe: a ênfase nos modos. Na França do sé­culo XVII, o conceito de civilité é fundamental. Já nos irmãos Grimm, a questão fundamental não é essa. A Alemanha do início do século XIX não é totalmente unificada e eles entram num movimento de unificar a cultura e o povo através dos discursos e hábitos populares. É muito mais simples: a ajuda mágica vem de um galhinho de árvore que a Cinderela ganha do pai, planta e rega com lágrimas. Ao redor da árvore que nasce fica sempre uma pomba branca, que é provavelmente o espírito da mãe dela. Esse pássaro traz para Cinderela o vestido do baile. Não existem descrições de roupa, nada. Quando o príncipe vai experimentar o sapato nas mulheres da cidade, tem uma descrição muito aberta de sangue, de situações violentas. Para tentar vestir o sapato,­ uma irmã corta os dedos do pé, a outra corta, um pedaço do calcanhar. O príncipe vê o sangue e desiste. Quando ele pergunta se tem mais alguém na casa, a própria Cinderela entra com o sapato. No casamento deles, duas pombas picam e cegam as duas irmãs. Ou seja, elas têm um castigo real. É outro tipo de conduta moral.

CF: É na passagem do século XVII para o XVIII que há a separação de texto infantil e adulto?
KC: Os textos para crianças nada mais são que textos para adultos manipulados como regra de bom comportamento. Os textos de Perrault, no original, não têm essa coisa fofinha de criança. O que tem ali é uma regra de comportamento. No caso da Cinderela, que ela seja educada, refinada, generosa. E sempre nas histórias moldadas para criança existe uma moral, com um poema no final. Vêm daí as chamadas cartilhas. Os textos de Perrault são feitos para crianças-adultos. A Bela e a Fera é um ótimo exemplo para as mulheres se conformarem com aqueles casamentos arranjados; elas eram obrigadas a casar, meninas, com homens muito mais velhos e horríveis. As histórias são pensadas nesse sentido. É só no século XVIII que a criança começa a ser pensada como criança. A noção de criança começa a aparecer com essa intenção de sermos civilizados e com a separação do trabalho. Quando as pessoas saem para trabalhar, se começa a pensar o que fazer com as crianças, os casamentos começam a ser questionados. Começam a aparecer, aos poucos, as roupas, os brinquedos para crianças. Só no começo do século XX passa a existir uma produção realmente bacana para criança. São dois séculos para conseguir estruturar um universo mais protegido e talhado para criança.

CF: Esse universo mais protegido aparece nos irmãos Grimm?
KC: Aparece bem mais, apesar de eles deixarem uma dose de violência questionável em algumas histórias. Mas isso faz parte de um tipo de criança que eles estão abordando que é a do povo, a que convive com essa situação com mais naturalidade. Eles têm uma aproximação maior com o universo infantil, embora não sejam ligados, necessariamente, ao público infantil.

CF: O período em que os Grimm coletaram e organizaram seus contos foi o da ocupação napoleônica. A intenção deles é buscar raízes culturais?
KC: Sim, vem desse orgulho pela cultura e essa vontade ainda maior de escrever de um jeito alemão. Eles vão entrevistar as pessoas simples, pegar esses elementos folclóricos, populares e têm uma preocupação de buscar uma legitimidade para o que as pessoas no campo estão vivendo. Tem um jeito protestante. Quem faz o bem tem o bem. Quem faz o mal leva o mal.

CF: Hans Christian Andersen, por outro lado, inventou grande parte de seus contos de fadas.
KC: Ele transcreveu vários contos também. Mas os mais famosos são os que ele criou, porque contêm material autobiográfico fortíssimo. Isso traz uma emoção para as histórias. Ele inaugurou­­ um novo jeito de criar contos de fadas, que abriu as portas para Lewis Carroll, Oscar Wilde.

CF: O que é moderno na obra de Andersen?
KC: A liberdade de inventar as histórias. Perrault inaugura o conto de fadas como literatura. Mas, antes disso, havia as várias versões orais. Andersen inventa as histórias. Há uma separação de mitologia com conto de fadas, mito e trágico. Conto de fadas tem de ter um final feliz. Em Andersen nem sempre isso acontece. Ele era um cara muito triste. Seria considerado um homem deprimido hoje. No sentido de um deslocamento muito grande em relação ao resto da sociedade. O pai morre, a mãe vira alcoólatra. Andersen nunca viveu um relacionamento amoroso. Essas histórias são maneiras de contar como ele se sentia. O que mantém tais histórias numa categoria de conto de fadas é a magia, a transformação. Por outro lado, nenhum autor de contos de fadas foi tão próximo das crianças.
Apesar de as histórias serem muitas vezes trágicas, ele trata a criança com muito amor. Primeiro, porque, justamente por não ter uma vida de adulto muito bem-sucedida, ele vivia contando histórias, estava próximo das crianças. As histórias dele têm muito diminutivo, carinho, cuidado com esse público. Nas histórias de Perrault e Grimm os heróis são as princesas. Nas de Andersen são as crianças, os brinquedos: a menina vendedora de fósforo, o patinho feio, o soldadinho de chumbo. Essas histórias ficaram no imaginário e se afirmaram na potência que os contos de fadas têm para criar esse lastro com a história.

CF: O Bruno Bettelhein afirma que os contos de fadas são importantes no desenvolvimento da criança. Por que essas histórias são universais?
KC: A universalidade dessas histórias está na potência de transformação. Nessa espinha dorsal, os contos de fadas são atemporais. Mas, no contexto de um retrato de época, eles são históricos. Têm as duas coisas. O que foi abandonado foi esse contexto. O Bettelhein esquece de trabalhar esse lado cultural e faz uma análise mais psicanalítica. A gente vive uma revitalização dos contos de fadas. Basta ver o sucesso do filme Alice no País das Maravilhas. Por que isso?
A Alice tem a questão do mundo interior. A gente vive essa era da informação e o sonho foi deixado de lado. Não dá tempo. Tem um desejo de as pessoas penetrarem nesse clima onírico. E a publicidade já sacou isso e está entrando com tudo nesse mundo.

CF: O que você achou da adaptação de Tim Burton?
KC: ­Gostei, mas esperava bem mais. Achei o tratamento estético maravilhoso, mas desgostei do fato de o roteiro ter transformado esse sonho da Alice, que é relativo e cheio de insinuação em um julgamento. Ela vai para a toca do coelho e existe um julgamento entre o bem (rainha branca) e o mal (rainha vermelha). Existe até uma insinuação de romance entre Alice e o Chapeleiro Maluco. São aspectos hollywodianos que matam a característica mais bacana de Lewis Carroll, que é deixar a história num enigma, num mistério, sem tomar partido.

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