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Robinson Crusoé USB

por Vitor Knijnik — publicado 06/12/2012 10h41, última modificação 06/12/2012 10h41
"Imagina comer sem postar a foto do prato ou descobrir uma praia secreta e não poder mostrar. Não vou mentir, eu previ tal efeito"
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Robinson Crusoé, apesar de não ter vampiros e magos adolescentes, segue atrativo para as novas gerações. É que para este público não existe nada mais assustador, nos dias de hoje, do que ficar desconectado. Por isso, o livro saiu da prateleira de “Aventuras” e foi parar na de “Terror”. Imagina comer sem postar a foto do prato. Descobrir uma praia secreta e não mostrar pros amigos. Colher verduras da sua horta orgânica e não compartilhar. Que pesadelo.

Não vou mentir pra você que planejei ou previ tal efeito. Meu livro, como todos, é fruto da época em que nasceu. E eu o escrevi durante o período de expansão do império britânico. A história idealiza a figura do colonizador, ao mesmo tempo que vende as maravilhas do colonialismo inglês. Olha só: um homem branco europeu chega numa ilha deserta e desconhecida. Com engenho e coragem, edifica sua casa, fabrica seus instrumentos, doma a natureza, prove seu sustento e ainda prospera até o ponto de estocar alimentos. Civiliza um nativo e lhe apresenta “o verdadeiro Deus”. Nem um publicitário faria melhor. Por falar em publicitário, aquele filme “O Náufrago” com Tom Hanks é a versão Milton Neves do Robinson Crusoé. Desculpe a dispersão, foi só um comentário.

 

 

Apesar da atualidade da obra, pensei em escrever uma nova versão de meu clássico. Ainda não tenho claro o que desejo fazer. Talvez trazer a história para o presente, sei lá. Anotei algumas ideias e, mesmo que ainda cruas, quero compartilha-las aqui. Vai que você se inspira e acaba contribuindo com outras sugestões. Preciso me modernizar. Nestes tempos de crowdsourcing ninguém precisa ser uma ilha.

Anotações para Robinson Crusoé 2.0

» Depois do naufrágio, ele chega na praia. Tira do bolso o celular e, milagrosamente, o aparelho funciona. E surpresa: o 3G também. Mas antes de ligar para alguém o socorrer, Robinson não resiste e gasta os últimos pontinhos da bateria lendo o Facebook. Depois se lamenta por vinte e oito anos, dois meses e dezenove dias.

» No lugar do Novo Testamento, Crusoé leva o Google impresso e o consulta o tempo todo. Como domesticar cabras? O que fazer num sábado à noite numa ilha deserta? Pode o homem casar com um coco? E com sua mão?

» Crusoé envia um e-mail pedindo socorro. A mensagem é recebida. Mas a guarda costeira, encarregada de o resgatar, usa os mapas da Apple e, portanto, não consegue localizar a ilha.

» Assim como na versão original, Robinson parte do Brasil. Ao chegar na ilha não consegue ligar o seu notebook porque nenhuma tomada é compatível.

» Robinson passa quase três décadas isolado. Finalmente, uma embarcação chega à ilha. Dentro dela, a equipe da revista Caras. Crusoé está louco para ir embora, mas é obrigado a participar de uma longa sessão de fotos, antes de zarpar.

» Por fim, pensei em trocar o nome do personagem Sexta-feira para Black Friday.

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