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Memória turística

por Vitor Knijnik — publicado 18/03/2013 11h00, última modificação 18/03/2013 11h00
A notícia que mais me chateou foi a de que os venezuelanos pretendem embalsamar o corpo do recém falecido camarada Chávez

Algumas recentes notícias me entristeceram. Uma companhia de telefonia móvel polonesa causou polêmica ao usar minha imagem em anúncios publicitários. Manifestantes protestaram e conseguiram tirar a campanha de circulação, alegando que fui um dos maiores opressores da história da Polônia. Na Espanha, o governo proibiu qualquer pessoa de se chamar Lenin. Motivo? Segundo os governantes espanhóis “a razão é que Lenin convida a confusão, uma vez que o sentimento popular induz a pensar que é um sobrenome, mas na realidade é o pseudônimo do líder da Revolução Russa de 1917”.

Já estou acostumado as estratégias contra revolucionárias. Por isso, a notícia que mais me chateou foi a de que os venezuelanos pretendem embalsamar o corpo do recém falecido camarada Chávez. Notem que meu problema não é com a equiparação. Hugo merece todas as honrarias. Minha contrariedade vem do fato de meu mausoléu ser a nítida inspiração para tal decisão. Já servi de modelo para a China, com Mao Tsé-Tung e para o Vietnã, com o Ho Chin Minh. Tenho que alertar, do alto de minha experiência, que esta é uma falsa boa ideia.

A intenção é boa. Um corpo preservado, um rosto com expressão serena, aparentemente, ajudam a manter vivo o legado de um líder. Ao invés de uma lapide cinzenta, o povo tem a corporificação idealizada de seu chefe. A memória coletiva ganha um aliado maior. Nem as estátuas têm o mesmo poder. Aos poucos elas viram banheiro de passarinho e se misturam à paisagem.

O problema são os efeitos colaterais. Inevitavelmente, a tumba de um personagem de grande valor histórico vira atração turística. Ir a Moscou e não ver meu corpo é como ir a Paris e não ver a Monalisa (eu ia dizer ir a Roma e não ver o Papa, mas não sabia se o conclave já tinha terminado). Aliás, neste quesito a visita à Gioconda leva uma certa vantagem. Diferente de mim, ela retribui o olhar. Em torno de um importante ponto turístico, surge uma indústria. Agencias e sites passam a vender passeios e excursões. Quem for à Moscou me verá dormindo numa infinidade de panfletos promocionais. Canecas, camisetas, canetas, agendas, chaveiros, miniaturas, sacolas e toda sorte de materiais são confeccionados para ordenhar a carteira de cada visitante. É desmoralizante para um líder comunista ter sua imagem estampada num squeeze.

Depois que você se torna parte do circuito turistão, ferrou. A maioria das pessoas que enfrentará longas filas pra ver o seu corpinho enxuto e bem conservado estará só interessada em tirar uma fotinho para ficar esquecida em algum HD e cumprir suas obrigações de turista. Ninguém quer chegar em casa e ser cobrado por uma pergunta do tipo “o quê, você não foi na tumba do Lenin?”. Turista não se engaja, turista cumpre tarefas. Por isso, recomendo aos venezuelanos que querem manter viva a memória de Chávez que abandonem o embalsamento. Muito melhor é fazer uma página do comandante no Facebook, repleta de memes engraçados e altamente compartilháveis. Aí sim, Hugo será lembrado, não só todo dia, mas a cada hora.