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Blog do Hume

Jogos dentro da floresta

por Vitor Knijnik — publicado 01/08/2012 11h04, última modificação 01/08/2012 11h04
Enquanto Descartes diz “penso, logo existo”, eu falo; “experimento, logo existe.”
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Você deve conhecer aquela famosa provocação filosófica que divide os pensadores: se uma árvore cair numa floresta e não houver ninguém por perto para ouvir, ela fará barulho? Sabemos que para o Ibama ela não fará barulho algum. Já para os racionalistas, a árvore, sim, fará um barulhão. Pois esses racionais MC’s creem que podemos ter conhecimento do mundo sem a necessidade da experiência. Aliás, para eles, a fonte mais importante do conhecimento é o pensamento. E dão como prova desta tese a matemática.

Acredito, como empirista radical, que não é possível saber se a árvore fará ou não baralho. O empirismo, como é sabido por todos, é a corrente de pensamento mais desconfiada que existe. Só acredita naquilo que foi experimentado. No empirismo não tem mimimi. Não fosse um crente, São Tomé seria nosso ídolo. Provavelmente, a tal da árvore, se caiu, fez um estrondo danado ao cair. Mas só poderemos afirmar com certeza, se encontrarmos algum registro sonoro do fato. Algo que deve existir. Pois não há mais lugar no planeta que não esteja na frente de uma câmera.

A não experiência também permite extrair conclusões. E aqui chego ao ponto deste post. Já é possível afirmar que os jogos Olímpicos de 2012 não existirão para os brasileiros. Estranho, não? Mas pode ser comprovado. Converse com qualquer um na rua, nos escritórios, nos parques, nas escolas e verifique: ninguém está no “clima olímpico”.

Quem poderia fazer a árvore das Olimpíadas soar alto é a Rede Globo. No entanto, foia Rede Record que adquiriu os direitos de transmissão para a TV aberta. E se o evento não está na TV de maior audiência, não adianta, é como se ele não existisse.

Você pode até objetar essa afirmação dizendo que as redes sociais, os canais à cabo e a própria Record se encarregarão de repercutir tudo que rolar na capital inglesa durante os jogos. Eu contra-argumento que todos esses registros, em poucos anos, terão que ser buscados no Google. Eles não estarão disponíveis na memória Ram dos brasileiros, como estão os feitos de João do Paulo, Joaquim Cruz e outros campeões olímpicos brazucas que entraram, repetidas vezes, na casa das pessoas do Oiapoque ao Chuí. Ou seja, os jogos olímpicos de 2012 existirão como história, mas não como memória popular.

Eu não considero essa situação de todo ruim. Especialmente porque não sou um atleta, com chances de chegar ao pódio, de nenhuma destas modalidades que só tem visibilidade de quatro em quatro anos. Pense que a população não ficará tão exposta a mensagens de conteúdo ufanista e nem a reportagens melosas sobre esportistas que, para conquistar a medalha, tiveram que superar a pobreza. Certa feita eu disse que "a beleza das coisas existe no espírito de quem as contempla." E agora eu acrescento: e às vezes de quem as ignora.

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