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Compatibilidade patriótica

por Vitor Knijnik — publicado 26/03/2013 11h55, última modificação 26/03/2013 12h48
A eleição de um papa argentino suscitou uma série de posts divertidos, que demonstravam uma balança comercial do orgulho patriótico pendendo, naquele momento, para o nosso lado

Quando Jorge Mario Bergoglio foi anunciado como o novo pontífice, eu corri para as páginas de meus amigos brasileiros no Facebook. Faço isso quando a seleção canarinho perde uma partida ou quando a celeste e branco triunfa. É divertido ver a reação dos hermanos. A eleição de um papa argentino suscitou uma série de posts divertidos. Muitos versaram sobre o folclore de nós sermos arrogante (o que não é verdade, apenas agimos de acordo com nossa superioridade), outras se relacionaram com o dito “Deus é Brasileiro. Mas a maioria brincava com futebol. Piadas envolvendo Papa, Messi e Maradona pululavam a cada segundo. No fundo, o teor dos chistes demonstrava que, naquele momento, a balança comercial do orgulho patriótico pendia para o nosso lado.

Fiquei frustrado de não fazer parte da brincadeira. Pouco fui citado. No início, suspeitei que fosse pela controvérsia em torno de meu lugar de nascimento. Alguns sustentam que eu teria nascido no interior do Uruguai, no departamento de Tacuarembó. Outros afirmam que vim ao mundo na cidade francesa de Toulouse. Determinar o local certo nunca foi importante para mim. Sempre respondi a esta dúvida com a seguinte afirmação: "Nasci em Buenos Aires aos dois anos e meio de idade".

Já refeito do ciúmes de Leonel e Diego, vi que Borges, Cortázar, Piazzolla, Quino e até o Che Guevara também não frequentaram as piadas papais. Ok, entendo que as artes e a política não possam rivalizar com o futebol em termos de popularidade. Mas eu acho que para efeito de contabilidade patriótica, elas são mais eficientes. Pelé para alguns é o rei, para outros Maradona é o melhor. Mas alguém tem dúvida de quem foi o maior cantor de tango de todos os tempos, querido?

Na falta do que fazer na eternidade, esperando el dia que me quieras, pus me a pensar em outros critérios que poderiam ser utilizado para medir qual a nação que tem o solo mais fértil para gerar humanos notáveis. Me ocorre o critério da subtração. Explico. Todas as nações se ufanam de seus filhos ilustres. E aqueles que são a vergonha da pátria? Estes também deveriam entrar no cálculo do orgulho. Exemplos: Chile pontuaria bem com Pablo Neruda, mas levaria um senhor desconto por causa do Pinochet. Colômbia marcaria três pontos com a Shakira, mas ficaria no zero a zero por causa do Pablo Escobar. E assim por diante.

Para evitar avaliações subjetivas, alguém sempre pode achar que a Shakira entraria na lista de descontos, o bom mesmo seria estabelecer um critério mais concreto e simples de ser aferido. Assim ó: ao invés de contabilizar a produção de atletas e artistas de exceção, cada nação poderia apresentar o número de mortos e desaparecidos políticos que tiveram suas histórias apuradas. Ou melhor, o número de torturadores, agentes da repressão e ditadores que conseguiu colocar na cadeia. Nestes quesitos, mi querido, no hay para ninguém, somos campeones. Vamos Argentina!