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Cinema nacional: Não tá russo, mas vai ficar

por Vitor Knijnik — publicado 24/01/2013 11h48, última modificação 24/01/2013 11h48
Para receber seu passaporte russo, Depardieu refilmar seus grandes sucessos sob a direção de um olhar bolchevique

Como é do conhecimento de todos, Putin concedeu cidadania russa ao ator Gérard Depardieu. Esse episódio me deixou com dois corações (e você achando que eu não tivesse nenhum). Por um lado, minha tendência natural seria apoiar o socialista Hollande, presidente da França. Ele está certo. As grandes fortunas, mais que taxadas, devem ser expropriadas pelo governo. Em vez de 75%, o imposto deveria subir para 99,99%, afinal, o ator trabalhador também precisa comer. No caso de Gérard, pouco. Ele já está bem acima do peso. O recurso confiscado deve ser empregado em favor do povo ou do seu querido líder supremo, o que no fim dá no mesmo.

 

 

Mas não deixo de ter simpatia pelo gesto de Putin. Aliás, esse camarada, tem um estilo que me agrada: centraliza as decisões, pratica o culto à personalidade, detesta uma oposição, persegue jornalistas e até bandas de rock. Está ainda um pouco tímido. E eis aqui o meu ponto.

Além de conceder cidadania a Gérard, Vladi deveria ter feito uma proposta mais ampla. Não falo só da oferta do cargo de ministro da Cultura. Esse convite foi genial, absurdo, mas insuficiente. É preciso fazer com que a opinião pública mundial enxergue o camarada Depardieu como alguém identificado com os valores russos. Senão, vão pensar que a estrela francesa aceitou ser um de nós apenas para proteger sua fortuna.

Para receber seu passaporte de capa vermelha, Depardieu deveria, em contrapartida, atuar na refilmagem de seus grandes sucessos, claro que agora sob a direção de um olhar bolchevique. Dessa forma, além do artista, estaríamos nacionalizando a sua arte. Já imagino as salas de cinema do mundo inteiro lotadas para assistir Cyrano da Bielorrússia, Meu Tio da Armênia e Asteriski & Obeliski. Só não deixaria que produzissem Danton, o processo da revolução permanente. Se for esperto, Putin pode conceder cidadania a outros ícones do cinema francês.

Isso não é um delírio stalinista. Brigitte Bardot declarou à imprensa que também está interessada. Se astros e diretores aceitarem o nosso convite, em breve poderemos reeditar, por exemplo, alguns clássicos da Nouvelle Vague. Me excita pensar em títulos como Sibéria, Mon Amour, Jules e Jim – Uma mulher para todos e A Cossaco. É a chance de o povo russo levar por um preço módico e sem o uso da força (o que não é ideal, mas tem seu mérito) um patrimônio cultural de valor incalculável. E se não der certo, eliminam-se todos os envolvidos e nada disso existiu.