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Várzea: Vida Loka é campeão!

por Joseh Silva — publicado 06/08/2013 11h21, última modificação 06/08/2013 11h26
A periferia já foi a mina de ouro do futebol, onde olheiros garimpavam. Nela estão os melhores atletas, mas falta oportunidade; Sábado passado, o Vida Loka sagrou-se campeão da Copa da Paz
Joseh Silva
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O Vida Loka comemora o título em Paraisópolis

No último sábado, 03, aconteceu a final da Copa da Paz, que resiste há seis anos em uma das maiores favelas da América Latina, Paraisópolis, zona sul. O último jogo foi entre Dragões, do Jardim Educandário, e Vida Loka, do Jardim São Luís.

A torcida do Vida Loka se reuniu por volta das 15h30 no Jardim São Luís para ir de ônibus e van até o jogo. Bateria, gritos, camisas do time e jogadores ansiosos aguardavam todos chegarem para partir. Juntos e prontos, o ônibus saiu lotado, havia, pelo menos, 70 pessoas, empolgadas, cantando e agitando como qualquer torcida organizada e fanática.

Na favela de Paraisópolis, entre as obras de urbanização que estão em andamento por lá, a torcida desceu marcando terreno: “Ohhh Vida Loka chegou, o Vida Loka Chegou”. Pessoas foram à janela, crianças corriam para ver o que estava acontecendo. Nesse ritmo subiram, as escadas e vielas até chegarem ao campo do Palmeirinha, time da casa.

Neste ano a Copa da Paz não teve patrocínio, mesmo sendo um dos maiores campeonato de várzea da cidade. Isso não diminuiu o tamanho e a importância do evento. Fogos, fumaça colorida, comissão de juízes, gandulas e torcidas que deixam qualquer organizada impressionada por conta de tanta energia e sintonia com os times.

A favela parou para ver os times finalistas em campo. Todos estavam de frente ao alambrado ou nas lajes, acompanhando cada lance. O primeiro gol foi do time Dragões, por volta dos 30 minutos do primeiro tempo, mas o empate aconteceu de uma forma inusitada. Enquanto o time comemorava junto à torcida, o juiz apitou e o Vida Loka saiu jogando empatou. Ninguém acreditava no que havia acontecido. No segundo tempo o Vida Loka fez o gol do título e se torno Bicampeão da Copa da Paz. Festa!

Todos são jogadores não-remunerados pelo que mais gostam de fazer, alguns desempregados, longe de cartolagem e dos milhões que giram no mundo do futebol. Muitos, pagam para usar os Campos Da Comunidade (CDC) – espaço público que deveria ser mantido pela prefeitura, outros não conseguem mais autuar no futebol de várzea, um fenômeno que há décadas leva senhoras, crianças, velhos e jovens para frente dos campos.

Muitos meninos jogaram em times profissionais. Também não é raro casos de alguns que atuaram fora do país. Na várzea, há espaço para profissionais, amadores e adolescentes que sonham jogar em grandes times. O nível dos jogadores é alto.

A periferia por muito tempo foi a mina de ouro do futebol onde olheiros garimpavam jogadores. É nela onde estão os melhores atletas, mas que sofrem com a falta de oportunidade. Na década de 90, de certo modo, era mais fácil conseguir uma chance em times grandes. O time da Portuguesa sempre foi uma porta de entrada. No entanto, com o fenômeno das escolinhas dos times, ficou inviável para algumas garotos da base participarem de peneiras, pois, em sua maioria, tudo se resume à dinheiro.

Ex-usuário em campo

Anderson Verdiano, 32 anos, conhecido como Buiu, foi um desses garotos que pelejava por oportunidade. Ele mora na região do Jardim São Luís. No tempo em que frequentava os campos e quadras da periferia, era um dos melhores da sua época. Verdiano vem de um contexto de família muito pobre. O pai é carpinteiro, mas era alcoólatra e a mãe dona de casa. Abandonou os estudos para jogar. Fez alguns teste, passou em alguns, mas nem sempre tinha dinheiro para a condução e as vezes se ausentava do treinos. Ficou pelos campos mais próximos de casa.

Após muitas tentativas e frustrações, acabou ser tornando usuário de drogas. Consumiu por mais de 10 anos. Hoje, ele repassa tudo que aprendeu nos campos para os meninos da sua comunidade, através de um projeto que une futebol e leitura.

Muitos garotos mesmo frustrados atuam direta ou indiretamente na várzea. Seja como gandula, expectador ou técnico, todos estão torcendo por times que representam suas comunidades, seus valores e, em determinados casos, suas bandeiras. Não é só um momento de entretenimento, mas acreditar em jovens que buscam através do esporte dar o suor e sangue por um sonho que a cada dia se tornar mais difícil. Pois o processo de exclusão continua e, por conta da copa do mundo, que para esses meninos é o ápice, um simples ingresso pode lhe custar a renda mensal.

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Veja no Flickr mais fotos da final: http:[email protected]/sets/72157634950320374/