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O charme perverso da política

por Nirlando Beirão publicado 12/03/2015 04h52, última modificação 11/06/2015 19h30
Até para fazer o mal é preciso ter estilo. Maquiavel e House of Cards ensinam, Mas Brasília não aprende
Divulgação / Netflix
Frank

Frank Underwood (interpretado por Kevin Spacey) opera num mundo que sua inteligência faz a diferença. Teria muito a ensinar por aqui

A política no Brasil tem enredo pobre, narrativa tosca e texto para lá de indigente. Os atores envolvidos nas artimanhas do poder, quase ninguém aí escapa da sina do clichê, da superficialidade e da grosseria. A política no Brasil ecoa na voz única e acéfala de um teatro de marionetes.

Não há como não reiterar isso quando você sintoniza, no Netflix, a terceira temporada de House of Cards (com 13 episódios). O cenário é Washington; podia ser Brasília ou Tel-Aviv. A tradicional saga de espertezas, traições, subterfúgios, chantagens que constituem os gambitos do poder ganha um requinte de narração que, de tão realista, aproxima-se paradoxalmente do inverossímil. A primeira cena do capítulo inicial, de freudiana escatologia, é dessas para ficar na memória da tevê.

Sob a batuta de Beau Willimon, criador e roteirista, House of Cards aproxima dois gênios da dramaturgia política, Shakespeare e Maquiavel, à linguagem de espanto e reviravoltas de um Hitchcock. Até aquele recurso que o protagonista Francis Underwood (Kevin Spacey) usa, de falar diretamente com o espectador, é o velho Billy de Stratford em seus momentos de superior cinismo.

Underwood é o político em sua quintessência, movido a ambição e desprovido de escrúpulos. Opera num mundo opaco em que sua inteligência faz diferença, assim como seu senso de persuasão. Teria muito a ensinar por aqui.