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Política

Tevê

Ingrato ofício

por Nirlando Beirão publicado 22/06/2013 08h18, última modificação 26/06/2013 11h16
Evelson de Freitas / Estadao Conteúdo
Caco Barcellos, o alvo errado

Caco Barcellos, o alvo errado

Segundo a melhor biografia de John Reed,  testemunha da insurreição bolchevique de 1917, no dia da tomada do Palácio de Inverno, em São Petersburgo, escandaloso símbolo dos desmandos czaristas, o jornalista americano e sua companheira Louise Bryant compraram salsichas e voltaram para casa de táxi.

A tirania secular ruía, mas uma atmosfera de normalidade embalava a cidade, ou parte dela. Nem o futuro cronista da revolução, autor do antológico Dez Dias Que Abalaram o Mundo, se deu conta, de cara, da radical transformação ante seus olhos. A lição é de que é preciso dar tempo para os eventos de alta densidade decantarem e só depois revelarem seu aroma verdadeiro.

É ingrato, portanto, o ofício dos profissionais do comentário político que vicejam na tevê. Ainda que nada leve a crer que o Brasil viva uma ruptura institucional à soviética, a semana ensinou que, na cacofonia das interpretações precipitadas, há momentos em que a dúvida deve prevalecer. O problema é que as imagens clamorosas não convidam ao silêncio, o que tratou de transformar em coprotagonistas dos protestos, com a involuntária cumplicidade dos insurgentes, aqueles xerifes do crepúsculo, irremediavelmente loquazes, incuravelmente rotundos – na silhueta e nas ideias.

Acabou sobrando para a tevê na irritação dos manifestantes do “contra-tudo-o-que-está-aí”. A Globo, alvo de palavra de ordem dos tempos da redemocratização, teve de camuflar microfones dos repórteres. Os manifestantes mais descabelados, contudo, erraram desastrosamente de endereço ao dirigir ofensas e ameaças a Caco Barcellos, que gravava cenas para o Profissão Repórter. Se há um jornalista decente e isento na Rede Globo, e o singular aqui é mais adequado, é Caco Barcellos.