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Chaves para sempre

por Nirlando Beirão publicado 07/12/2014 07h03, última modificação 07/12/2014 09h00
A comoção, que ofuscou o massacre dos estudantes mexicanos, mostra que ele era diferente. Por Nirlando Beirão
Divulgação
Chaves

Roberto Bolaños interpretando Chaves

Eu nunca assisti, mas pelo visto todo mundo assistia e, diante do lamento dilacerado das crianças, mas também de tiozinhos e tiazinhas, vejo que devia ter assistido. A consternação que prostrou o país do Chaves, o Chaves da tevê, do Chapolin, do Seu Madruga, de Dona Florinda, foi muitas vezes maior do que o eventual horror solidário em face daqueles 43 estudantes mexicanos recentemente trucidados, sabe-se lá por que, no estado de Guerrero.

Faz sentido, em sua falta de sentido: mesmo na morte, Chaves é a imagem de um México que fazia rir; o massacre de Iguala é o retrato sinistro de um México que só faz chorar.

Ignorei Chaves, talvez porque em meu imaginário rabugento ele estivesse na mesma prateleira das novelas remelentas da Televisa mostradas pelo SBT e daquele seu antecessor kitsch, o Cantinflas, cujo humor mambembe evocava-me um Mazzaropi em versão acima do Equador.

Os saudosos de Chaves – constato que são muitos – me asseguram que não, que Chaves tinha em sua candura autêntica, sem maldade alguma, uma sutileza quase filosófica que fazia dele muito menos um Trapalhão e muito mais um Chaplin.

Arrisco dizer, em alívio às mães e aos pais sempre tão aflitos com as escolhas estéticas de seus filhotes: Chaves não produz sequela. Conheço gente que sorvia a Xuxa junto com a mamadeira, todas as manhãs, e que hoje, superada a indolência da infância, tem até mestrado em Londres e lê Baudelaire ao cair da tarde.

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