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A ética em tempos de cólera

por Nirlando Beirão publicado 11/05/2014 09h16, última modificação 12/05/2014 14h02
Ricardo Boechat, jornalista que cultiva a ironia em um País que a perdeu, manda recado a Sheherazade
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À moda de Nelson Rodrigues, faço de Ricardo Boechat meu personagem da semana. O cronista julgava, em sua antiga coluna da Manchete Esportiva, o mérito momentâneo dos craques da bola. Estou certo de que o tecido do qual são feitos a dignidade e o profissionalismo de Boechat resiste mais ao tempo. Ele é um apresentador raro, apto a transmitir a confortadora impressão de que entende do que fala, muito diferente do ventríloquo de rosto escanhoado que masca as palavras de um texto que reproduz as idiossincrasias políticas e ideológicas do patrão.

Boechat confere à notícia a seriedade necessária, mas, ao contrário do que pretende, por exemplo, seu vizinho de janela na Band, Boris Casoy, manjadíssimo em seu joaquim-barbosismo precursor, Boechat não acredita na virtude da cara amarrada. Cultiva o humor e a ironia, arriscado exercício num país que os perdeu. O linchamento de uma inocente no Guarujá, outrora jardim florido de uma elite paulistana cada vez mais propensa ao rancor e à selvageria, propiciou a Boechat um comentário de lavar a alma. Atribuiu parte da responsabilidade pelo crime a “pessoas que mesmo em emissoras de tevê estimulam a cultura da justiça com as próprias mãos (...). É hora de essas pessoas virem a público para dizer como se sentem ante a consumação de sua própria teoria”. As tenras orelhinhas de Rachel Sheherazade, comentarista do SBT e apologista dos linchamentos, devem ter entrado em combustão.